domingo, 18 de novembro de 2018

Desde o Céu as almas vêem o que acontece e interferem na nossa terra

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Para os medievais, esta terra não tinha um teto fechado e um chão de chumbo que confina os homens.

Pelo contrário, para cima eles tinham certeza que o mundo das almas que se salvaram agia e participava nesta nossa vida.

E que era possível pela oração se comunicar com esse mundo imerso na glória divina. E vice-versa, acreditavam e experimentavam também que o inferno se agita e vive espalhando caos.

Não era uma mera crendice. Esses horizontes superiores e inferiores têm plena justificação na mais estrita teologia católica.

Eis como explica essa interação o famoso teólogo dominicano Reginald Garrigou Lagrange O.P.:



Os bem-aventurados veem também em Deus, in verbo, a humanidade santa que o Filho único assumiu para sempre a fim de nos salvar.

Contemplam nela a graça da união hipostática, a plenitude da graça, da glória e da caridade da alma santa de Jesus, o valor infinito dos seus atos, o valor infinito de cada Missa, a vitalidade sobrenatural de todo o corpo místico da Igreja triunfante, padecente e militante.

Contemplam admirados as prerrogativas de Cristo como Sacerdote eterno, como Juiz dos vivos e dos mortos, como Rei universal de todas as criaturas e como Pai dos pobres.

domingo, 4 de novembro de 2018

A devoção a Nossa Senhora e o senso da honra

Nossa Senhora na abadia de St-Denis, Paris. Provém da arrasada abadia de Cluny.
Nossa Senhora na abadia de St-Denis, Paris. Provém da arrasada abadia de Cluny.
Luis Dufaur
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A devoção à Virgem predispõe os medievais ainda um tanto rudes à delicadeza, à piedade, à proteção dos fracos, ao respeito das mulheres.

Traz em si uma virtude de civilização e de cortesia.

Os testemunhos disso são infinitos e encantadores.

domingo, 23 de setembro de 2018

Na festa de São Miguel Arcanjo : 29 de setembro


Luis Dufaur
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Comemora-se a 29 de setembro a festa do glorioso São Miguel, cuja invicta combatividade em defesa do Deus onipotente é assim descrita no Apocalipse:

“Houve uma batalha no Céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão.

“O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles no Céu” (Apoc. 12, 7-8).

E o Profeta Daniel refere-se a São Miguel nos seguintes termos:

“Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande Príncipe, constituído defensor dos filhos do seu povo [isto é, o povo fiel católico, herdeiro, no Novo Testamento, do povo de Israel], e será tempo de angústia como jamais houve” (Dan. 12, 1).

São Miguel é comumente designado como Arcanjo.

Entretanto, tal qualificação pode ser genérica e não significar que ele pertença ao oitavo coro de Anjos (os Arcanjos).

domingo, 9 de setembro de 2018

“Rorate Caeli”: sublime oração para nossos dias

Rorate caeli, miniatura em antifonario medieval
Rorate caeli, miniatura em antifonario medieval
Luis Dufaur
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No Advento, o tempo litúrgico de preparação para a vinda do Salvador, a Igreja canta o “Rorate Caeli”.

É uma das mais belas e sublimes composições na história do catolicismo.

Ela também cantada em todas as épocas do ano, sobre tudo nos momentos de compunção em que desejamos implorar a graça com intensidade especial.

Seu refrão é tirado do livro do profeta Isaías que suplica:

“Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça!

Sou eu, o Senhor, a causa de tudo isso”. (Isaias, 45, 8).

O “Rorate Caeli” implora com compunção e fé a vinda do Messias, fazendo penitência e pondo a confiança na Redenção que se avizinha.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

A segunda parte da Ave Maria


Luis Dufaur
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A primeira parte da Ave Maria, ou Saudação Angélica, foi recitada pela primeira vez pelo Arcanjo São Gabriel no momento da Anunciação da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Até o século XV, a Ave-Maria não incluía a jaculatória que começa com “Santa Maria”, e terminava com as palavras “Jesus Cristo. Amém”.

Daí em diante ajuntou-se-lhe: “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores. Amém”.

domingo, 29 de julho de 2018

Como o Papa São Leão Magno domou a cólera de Átila

O Papa São Leão Magno. Fresco em Subiaco, Itália
Luis Dufaur
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Átila, chefe dos bárbaros hunos vinha saqueando a Itália toda.

As autoridades de Roma imploraram ao Papa São Leão que fosse dissuadir o temível bárbaro.

São Leão Magno foi revestido dos paramentos pontificais.

“Como um leão que não conhece medo nem tardança, este varão se apresentou para falar ao rei dos hunos em Peschiera, pequena cidade próxima de Mantua, e moveu o vencedor a voltar”, diz um cronista da época.

Átila prometeu a paz, fez cessar as hostilidades, e retornou à sua terra atravessando os Alpes.

Os bárbaros perguntaram a seu chefe por que, contra seu costume, havia mostrado tanto respeito para com o Papa.

Átila respondeu que “não foi a palavra daquele que veio me encontrar que me inspirou um medo tão respeitoso; mas eu vi junto a esse Pontífice um outro personagem, de um aspecto muito mais augusto, venerável por seus cabelos brancos, que se mantinha em pé, em hábito sacerdotal, com uma espada nua na mão, ameaçando-me com um ar e um gesto terríveis, se eu não executasse fielmente tudo o que me era pedido pelo enviado”.

Esse personagem era o Apóstolo São Pedro. Segundo outra tradição, o Apóstolo São Paulo estava também presente.

domingo, 22 de julho de 2018

“Adoro te devote” (“Adoro-Vos devotamente”)
hino a Jesus Sacramentado

Igreja das Bernardinas, Cracóvia, Polônia
Igreja das Bernardinas, Cracóvia, Polônia
Luis Dufaur
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Adoro te devote é um dos cinco hinos que Santo Tomas de Aquino compôs em louvor de Jesus presente no Santíssimo Sacramento incluídos em el Missale Romanum de 1570 após o Concilio de Trento (1545–1563).

As circunstâncias em que foram escritos são famosas. O Papa Urbano IV instituiu para a Igreja a festa solene de Corpus Christi com a bula Transiturus em 8 de setembro de 1264, impulsionado definitivamente pelo Milagre de Bolsena.

Na ocasião o Papa estava em Orvieto quando numa pequena cidade vizinha chamada Bolsena, ocorreu o Milagre. Um sacerdote que duvidava da transubstanciação na Santa Missa, no momento de partir a Sagrada Hóstia, saiu dEla sangue em tal abundância que empapou o corporal (pano onde se apoiam o cálice e a patena durante a Missa) e se derramou pelo chão do altar.

O padre correu a Orvieto para contar ao Papa o acontecido. Urbano IV mandou conferir o fato e ante as evidências irrefutáveis instaurou a festa de Corpus Christi.

O corporal empapado do Divino Sangue é esplendidamente conservado na basílica de Orvieto construída para esse efeito e é levado na procissão de Corpus Christi todos os anos.

Em Bolsena é venerado o chão manchado com o mesmo Sangue do Milagre.

O mesmo Papa pediu também a Santo Tomás de Aquino e São Boaventura que se encontravam com ele que compusessem os hinos para a Missa de Corpus Christi.

Quando Santo Tomás de Aquino começou a ler o que tinha composto, São Boaventura rasgou os seus. Os outros hinos e sequências são:

domingo, 1 de julho de 2018

O Milagre de Teófilo

Nossa Senhora salva o clérigo que vendeu a alma ao diabo.
Na fachada lateral da catedral Notre Dame, Paris.
Luis Dufaur
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É o caso de Teófilo que agora eu vou contar:
Um milagre tão precioso não é para se calar,
Porque ele nos faz entender e avaliar
O quanto é importante a Nossa Senhora rezar.

Não quero, se possível, no relato me alongar,
Contra vossa paciência poderia eu pecar,
Sei que a oração breve sói a Deus agradar,
Não foi o próprio Cristo o primeiro a nos ensinar?

Era uma vez, assim começa a legenda,
Um homem muito bom, nada mal de renda,
Teófilo, homem de paz, e nunca de contenda
De vida virtuosa, que dispensa emenda.

No lugar onde morava, em sua bela cidade,
Era chanceler do bispo, com muita autoridade
Gozava de boa fama e, para dizer a verdade,
Depois do senhor bispo, era dele a dignidade.

Teófilo era sóbrio e muito comedido,
Pessoa muito afável, por todos querido,
Homem culto e douto, de saber reconhecido,
Seu prestígio era muito difundido.

Dava aos pobres roupa e comida;
Aos peregrinos, abrigo e guarida,
Ensinava os pecadores a mudar de vida
E, pela penitência, evitar a recaída.

De modo que o bispo não tinha preocupação
Só a de cantar a missa e a de pregar sermão
Pois de tudo, tudo, nem cabe enumeração,
Cuidava Teófilo, com muita aplicação.

O bispo apreciava Teófilo sobremaneira
Pois ele o livrava de toda a trabalheira
E para o povo ele era como luz verdadeira
Seu fulgor iluminava a cidade inteira.

Mas, nesta vida, tudo tem sua hora,
E chegou, para o bispo, a vez de ir-se embora
Uma doença grave, sem chance de melhora
Levou-o à glória sem muita demora.

Santo Alberto Magno, bispo e Doutor.
O clero e o povo, como nunca adunado,
Todos diziam: “Teófilo no episcopado!
Com ele como bispo tudo será melhorado
Que seja ele o quanto antes consagrado”.

Teófilo respondeu com toda a simplicidade:
“Senhores, eu suplico, por favor, por caridade,
Eu não sou digno de uma tal autoridade
Outro que assuma essa grande dignidade”.

Os eclesiásticos da administração
Ante esta sua inabalável decisão
Não se sabe se contentes ou não 
Tiveram que fazer uma outra eleição.

Novo bispo, novo também o chanceler para mandar
E Teófilo, sem poder, começou a invejar
Porque o povo todo daquele lugar
Já não o ia mais, como antes, procurar.

E ele, que ao antigo bispo era tão chegado,
Começou a sentir-se, agora, postergado
E pela inveja cada vez mais dominado
Ele sentia-se totalmente transtornado.

E Teófilo achando-se muito desprezado,
Preterido, esquecido num canto, injustiçado
Por rancor, cada vez mais ferido e despeitado,
Caiu nas tramas de um grande pecado.

Foi a um famoso judeu cheio de vícios,
Versado em encantamentos e outros malefícios,
Que fazia feitiços e certos artifícios,
Guiado por Belzebu, em todos os seus ofícios.

E foi logo a esse falso traidor,
Fiel vassalo de tão mau senhor,
Que Teófilo, ó que horror!,
Foi solicitar um nefasto favor.

Ele, que se sentia tão desesperado
Foi perguntar ao judeu endiabrado,
Que tinha parte com o grande Renegado,
Como fazer para voltar a seu anterior estado.

Respondeu o judeu sem nenhuma hesitação:
“Não tenha você a menor preocupação
Pois vamos fazer uma boa combinação
Com `alguém` que certamente dará solução”.

Na calada da fria noite combinada
Teófilo, às escondidas, saiu de sua pousada
Para a entrevista que estava marcada
Com “alguém” numa tenebrosa encruzilhada.

O judeu que ia com ele no meio da escuridão
Disse: “As coisas muito bem estão.
Não me vá você estragar tudo, então,
Fazendo o sinal da cruz com sua mão”.

Teófilo assustou-se, quando pôde divisar
Grande multidão, com velas a queimar,
Com seu rei no meio, uma cena de arrepiar
E, por um instante, até pensou em voltar.

Deteve-o, com um gesto, aquele judeu traidor
E, determinadamente, levou-o a seu senhor,
Que era Satanás, o demo fingidor,
Para tentar dele obter o favor.

Disse o judeu: “Senhor rei coroado
Este homem foi chanceler do bispado
E, como tal, era por todos muito honrado
Mas, foi despedido e agora, é desprezado”.

Disse o diabo: “Não é lá de muito bom direito
De vassalo alheio, um outro tirar proveito
Mas renegue a Cristo, razão de nosso despeito
E farei que tudo lhe volte em estado perfeito”.

“Para seu caso há uma boa terapia:
Renegue a Cristo e a Santa Maria
Assine esta carta em uma única via
E voltará ao que era e até com melhoria”.

Teófilo a todo custo queria o sucesso
E não percebeu o engano o pobre obsesso,
Cúmulo de exagero e de incrível excesso:
Perder sua alma em tão barato processo.

Ninguém soube do tal contrato e do credor
Só Deus, que de tudo é bom conhecedor
E permitiu que ele voltasse ao esplendor
Só que, agora, meio pálido e sem cor.

O bispo, reconhecendo o quanto havia errado,
Fê-lo voltar àquele seu antigo estado:
Foi pelo povo da cidade ainda mais venerado
Teófilo ia recebendo a paga de seu pecado.

O resultado dessa sua imensa euforia,
Pelo sucesso que tinha na chancelaria,
Foi que ele, agora, se jacta e se vangloria,
Todo orgulhoso em sua vaidade vazia.

Mas é tão bom Deus, Nosso Senhor
E não deseja que pereça o pecador:
Teófilo foi acometido de mortal dor,
Para ver se de algo lhe valia o Traidor.

Todo o bem que ele fizera no passado
Não quis Deus que fosse malbaratado
E Teófilo recobrou o juízo adormentado,
Abriu os olhos e caiu em si despertado.

Aconteceu que nesse breve lúcido momento
Para ele tão rápido e também tão lento
Teófilo viu o que fez, com grande desalento
E, arrasado, sucumbiu ao desfalecimento:

“Ai de mim, pecador mesquinho e malfadado
Das alturas do bem, quem me terá derrubado?
Quanto ao corpo, estou no fim e desprezado
E quanto ao espírito, totalmente arruinado”.

“Morrerei como quem naufraga no mar
Não há quem vá por mim ante Deus rogar
Nem mesmo de Nossa Senhora posso esperar
Ela, a piedosa, que eu me atrevi a renegar”.

“Maldita hora em que cobicei a chancelaria
Procurar o diabo, que amaldiçoado dia!
Qual Judas, qual traidor pecado maior faria?
Não tivesse eu nascido, muito melhor seria”.

“Por que eu mesmo fui procurar acabar comigo?
Não passava necessidade, eu não era mendigo
Todos me respeitavam, o povo era meu amigo
Agora, a quem recorrer, onde encontrar abrigo?”.

“Bem sei que desta febre eu não vou escapar
Que não há médico que me possa curar
Só Santa Maria, a estrela do mar,
Mas com que cara poderia eu lhe rogar?”.

“Eu, miserável, mais fedorento que um cão
Cão sarnento e podre, não o que come pão
Ela não me vai ouvir, eu bem sei que não,
Pois foi contra ela que eu fui torpe e vilão”.

“Mas, seja como for, a ela vou me achegar,
Prostrar-me-ei na igreja, ante seu altar
Meus pecados, em jejuns, hei de chorar
Esperando a graça da Gloriosa quero finar”.



“Embora em minha loucura eu a tenha renegado
E, como um tolo, pelo judeu fui enganado
Apego-me firmemente a ela, confiado,
Dela nasceu o Salvador, por mim crucificado”.

“Não sei se Deus isto me irá autorizar:
Quero ante todos minha loucura proclamar
Mesmo não sabendo por onde começar
Nem se minha boca conseguirá falar”.

E sem contar nada sobre o plano que tinha
Foi ajoelhar-se ante o trono da Rainha,
“Dos desesperados és refúgio e madrinha
Haverá misericórdia para esta alma mesquinha?”.

“Tu que és a porta do Paraíso, Senhora;
Tu, de quem o Rei da Glória se enamora.
Olha com compaixão a este que implora
E seu horrendo pecado noite e dia chora”.

Quarenta dias durou esta penitência;
Noite e dia em constante permanência
Teófilo com inquebrantável paciência
Rogava assim à Senhora da clemência.

Até que ela apareceu, com ar meio zangado
“Por que tanto imploras, ó desgraçado?
Não tens teu senhor, o eterno Renegado?
Não sei quem quererá ser teu advogado?”.

“Mãe, disse Teófilo, por Deus e por caridade,
Não olhes a meus méritos, mas à tua bondade
Eu bem sei que tudo que dizes é verdade
Porque eu sou sujo e cheio de maldade”.

“Mas, não posso estar na penitência esperançado?
Não foi por ela que Davi foi perdoado?,
Madalena e até Pedro, após o Senhor ter negado?
E o povo de Nínive, que já estava condenado?”.

Quando ele se calou, falou Santa Maria:
“O teu caso, Teófilo, um grave problema me cria:
A ofensa a mim, eu bem que perdoaria
Mas a meu Filho, essa, eu não me atreveria”.

“Tenho um conselho para te dar com coerência:
Volta a meu Filho, roga a Ele com veemência
Senhor da vida, Sua onipotência
Manifesta sobretudo em perdão e clemência”.

“Senhora bendita, Rainha porta do Céu,
Teu nome é perfume e mais doce que o mel,
Há uma dificuldade, não esqueças, sou réu
Pois assinei aquele maldito papel”.

Disse Maria: “Saiba, antes de mais nada,
Senhor trapalhão, Senhor praga malvada,
Que a carta que em má hora deixou assinada
Está nos quintos dos infernos bem guardada”.

“Como a meu Filho eu pediria
Que empreendesse uma tal romaria?
Para lugar fétido, hodienda porcaria
Teria eu essa descabida ousadia?”.

“Senhora, bendita entre as mulheres
Atende-me sem demora, não esperes
Basta-Lhe o menor sinal que deres:
Teu Filho sempre quer o que tu queres”.

“Da falta, Teófilo, já recebeste o castigo
Fica tranqüilo, ouve o que te digo,
Eu vou ver, filho, como consigo
Resolver teu problema, deixa o caso comigo”.

Dizendo isto, desfez-se a aparição
E Teófilo que já tinha à Senhora tanta devoção
Foi tomado de imenso amor e infinita compunção
Passando dias e noites em jejum, pranto e oração.

A rainha da glória, Santa Maria,
Visitou-o ao final do terceiro dia
Com um rosto fulgurante, que trazia
As melhores notícias, paz e alegria:

“Fica sabendo, filho, que tuas orações
Teus grandes gemidos, tuas aflições
Chegaram ao Céu em grandes procissões
Para isto há anjos: para estas missões”.

“Eu intercedi por ti com empenho e vontade
Prostrei-me de joelhos ante a divina Majestade
E Deus te perdoou em sua infinita caridade
É importante agora tua firmeza na bondade”.

“Mãe, disse Teófilo, muitíssimo obrigado
Mas não estarei de todo despreocupado
Até o momento em que tenha recobrado
Aquela carta em que teu Filho foi renegado”.

“Estou cuidando de tudo, disse a Rainha,
Desde que decidiste pecar, sair da linha
Não resolverei, este probleminha?
Deixa também isto como incumbência minha”.

Dito isto, a Senhora desapareceu de seu lado
E Teófilo, caindo em si, até ficou assustado
De sua confiança: como tinha sido ousado!
E retomou a penitência decidido e esperançado.

Na terceira noite, com seu objetivo cumprido,
Veio Maria à casa em que ele estava recolhido
A Gloriosa, como sempre, discreta e sem ruído,
Trazia a carta com que ele a tinha traído.

Teófilo, ao ver que a carta tinha recuperado
E, da febre sentindo-se totalmente curado,
Prorrompeu em canto de louvor exaltado
Àquela que, maternalmente, o tinha livrado.

Dizendo: “Senhora boa, sempre sejas louvada
Sempre sejas bendita sempre glorificada
Tua misericórdia está mais que comprovada
Não há doçura que possa à tua ser comparada”.

No dia seguinte, festa de solene celebração
Juntou-se na igreja uma enorme multidão
Teófilo subiu ao púlpito com a carta na mão
E diante de todos narrou seu caso e conversão.

Mostrou a todos a carta que em sua mão trazia
Em que toda a força do mau contrato residia
O bispo, muito assustado, o sinal da cruz fazia
Mal acreditando nas coisas que ouvia.

Acabada a missa disse: “Vede este companheiro
Que tomado de loucura buscou mau conselheiro
E foi procurar o diabo, astuto e arteiro,
Para recobrar o ofício que tinha primeiro”.

“Se a Virgem gloriosa não lhe tivesse valido
Que torturas o infeliz não teria sofrido!
Mas, pela sua santa graça, ele foi socorrido
Recobrando a carta senão estaria perdido”.

O “Te Deum laudamus” foi fortemente entoado,
“Tibi laus tibi gloria” também foi rezado,
E “Salve Regina” foi pelo povo todo recitado
E outros doces hinos, canto e reza misturado.

Para a tal da carta, o bispo deu pronta solução,
Pois uma grande fogueira mandou fazer então
Teófilo, confessando, recebeu a absolvição
E, logo em seguida, também a Santa Comunhão.

O rosto de Teófilo estava todo iluminado,
Refletia-se nele a presença do sagrado
E o povo vendo-o, de luz transfigurado,
Mais o nome da Mãe de Deus era exaltado.

Logo a seguir, Teófilo do cargo se demitiu,
Todos os seus bens entre os pobres repartiu,
Aos que o conheciam, perdão ele pediu
E, após três dias, para a outra vida partiu.

Senhores, o grande milagre que acabo de narrar
Traz uma lição que se deve muito bem guardar:
Que para a salvação devemos penitência praticar
E a Gloriosa Mãe de Deus sempre, sempre honrar.

Ó mãe, de teu Gonçalo, não deixes de lembrar;
Ele, que teus milagres, tanto gosta de narrar
Por ele, Senhora, ao Criador podes rezar,
Pois é teu privilégio aos pecadores ajudar

E com a graça de Deus, Nosso Senhor, os salvar. Amém.


(Fonte: “El milagro de Teófilo” de Gonzalo de Berceo - o equilíbrio emocional medieval”, Tradução de Jean Lauand)



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domingo, 17 de junho de 2018

Santo Eduardo o Confessor, rei, e seu anel


Luis Dufaur
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Certo dia, o rei Santo Eduardo o Confessor (1005-1066), rei da Inglaterra, já velho assistia à cerimônia de consagração de uma igreja construída em honra de São João Evangelista.

Nessa hora, um homem muito pobre aproximou-se dele e mendigou-lhe uma esmola “pelo amor de São João”.

O grande monarca passou a mão na bolsa, mas não encontrou nem prata nem ouro.

Santo Eduardo, então, mandou vir seu tesoureiro, mas não foi localizado no meio da multidão. E o pobre seguia implorando esmola.

Santo Eduardo sentia-se muito mal à vontade. Nesse momento lembrou que trazia um anel grande e muito precioso.

Então, ele o tirou do dedo, e pelo amor de São João o deu ao miserável, que lhe agradeceu gentilmente e desapareceu.

Eis o que aconteceu com o anel.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A festa de Corpus Christi para adorar o Santíssimo Sacramento

O corporal com as gotas do divino Sangue do milagre de Bolsena na saída da basílica de Orvieto
O corporal com as gotas do divino Sangue do milagre de Bolsena na saída da basílica de Orvieto
Luis Dufaur
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A festa de Corpus Christi é dedicada a honrar e adorar o Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo realmente presente na Eucaristia, sob as aparências do pão e do vinho.

Corpus Christi é a manifestação pública da fé no dogma da Presença Real na Hóstia consagrada. Daí as belas procissões realizadas no mundo inteiro.

No Brasil, de norte a sul, cidades enfeitam suas ruas com encantadores “tapetes” de flores para glorificar o Deus humanado.

A festa de Corpus Christi foi inspirada a uma religiosa agostiniana, Santa Juliana de Cornillon (1193–1258), a quem Deus revelou a conveniência para a Igreja dessa celebração.

Santa Juliana foi superiora da abadia de Mont-Cornillon de Liège (Bélgica), fundada em 1124.

A partir dela surgiu um movimento eucarístico que incentivou várias práticas de adoração à Hóstia Consagrada, como a Exposição e a Bênção do Santíssimo Sacramento.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O milagre eucarístico de Bolsena na origem da festa de Corpus Christi

Altar com as relíquias menores do milagre eucarístico de Bolsena
Altar com as relíquias menores do milagre eucarístico de Bolsena
Luis Dufaur
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Na Basílica de Santa Cristina em Bolsena, Itália, conserva-se zelosamente há sete séculos, as relíquias menores do milagre eucarístico de Bolsena.

Dizemos as ‘menores’ pois as ‘maiores’ estão na catedral de Orvieto.

Trata-se de uma das pedras sagradas onde ainda são bem perceptíveis grumos do precioso Sangue de Nosso Redentor.

O fato miraculoso aconteceu em 1264 e está ligado a dois dos mais poderosos expoentes do pensamento teológico universal: São Tomás de Aquino e São Boaventura.

domingo, 20 de maio de 2018

Pentecostes, a festa do Divino e a paz das nações

Espírito Santo, bordado das dominicanas de Stone, Staffordshire
Espírito Santo, bordado das dominicanas de Stone, Staffordshire
Luis Dufaur
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A Festa do Divino Espírito Santo, ou a festa do Divino é uma das devoções mais antigas e difundidas no Brasil e alhures.

A origem se encontra no Portugal do século XIV. As primeiras notícias de sua instituição remontam a 1321.

O convento franciscano de Alenquer começou a celebrá-la sob a proteção da rainha Santa Isabel de Portugal e Aragão.

A Rainha prometeu ao Divino Espírito Santo peregrinar com uma cópia da coroa e uma pomba no alto da coroa, que é o símbolo do Divino Espírito Santo.

Nessa peregrinação arrecadaria donativos em benefício da população pobre, caso o esposo, o rei D. Dinis, fizesse as pazes com seu filho legítimo, D. Afonso, herdeiro do trono.

O pedido foi ouvido, a paz foi feita e a festa vem sendo renovada todo ano até hoje.

domingo, 6 de maio de 2018

São Tomás de Aquino e o hino Pange Lingua:
“Canta ó língua, o glorioso mistério do Corpo e do Sangue precioso”

Santo Tomás de Aquino, detalhe de um estandarte bordado. Igreja de São Domingos, Newcastle, Inglaterra.
Luis Dufaur
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Santo Tomás de Aquino (Rocca Secca, 1225/1227 – Fossa Nuova, 7 Março, 1274) tinha uma vocação eminentemente filosófica, e não de atividade externa.

Ele percebeu que deveria, de acordo com a sua luz primordial, dedicar-se à Teologia e à Filosofia.

Mas além da capacidade para esses estudos, sentia certa inclinação artística.

Quem quiser disto se certificar, basta ouvir o hino Pange lingua, que contém as estrofes do Tantum ergo, composto por ele.

Ele percebia sem dúvida que sua vocação não era a artística – a de compor hinos sacros ou grandes poesias, para as quais estava capacitado –, mas a de se dedicar completamente à Filosofia e à Teologia.

domingo, 22 de abril de 2018

“Oh luz da bem-aventurada Trindade”:
hino de Santo Ambrósio

Santo Ambrósio, Vitale di Bologna
Luis Dufaur
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Santo Ambrósio, arcebispo de Milão (337 – 4/4/397), mestre de Santo Agostinho(340-397), é um dos quatro máximos Padres da Igreja.

Ele está assim representado na Basílica de São Pedro em Roma.

Grande combatente contra a heresia do arrianismo, o corpo do Doutor se conserva incorrupto na basílica a ele dedicada em Milão.

Entre os múltiplos frutos do apostolado do sábio e heroico arcebispo conta-se ter resolvido um dilema que ameaçava dividir os cristãos de seu tempo.

Com efeito, a Igreja após séculos de perseguições romanas, recuperou a liberdade para o culto, enquanto que os templos pagãos foram fechados pelo célebre e insigne Edito de Milão, do imperador Constantino, em 313.

O miolo da discussão era saber se fosse lícito cantar nas igrejas.

Alguns observavam que na hora de compor os cânticos, os músicos apelavam para ritmos e melodias também usadas pelos pagãos.

De ali, julgavam que com esses cânticos acabava se reproduzindo o ambiente dos templos pagãos.

Outros apontavam que cantar orações ou textos como os dos Salmos não poderiam fazer mal ainda que com ressonâncias idolátricas.

domingo, 8 de abril de 2018

A Mulher do Apocalipse e o simbolismo da lua sob os pés de Nossa Senhora


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Nossa Senhora levando o Menino Jesus é símbolo da Igreja. A Igreja (= Ecclesia) aparece em pé sobre a lua minguante para sublinhar que seus fundamentos são o Antigo Testamento. Sem dúvida, é também um símbolo da vitória da Igreja sobre a Sinagoga (cfr. Dayton University, Mary Page).

Na iconografia, Nossa Senhora passou a representar também a Igreja herdando seus atributos. O Gradual Katharinenthal de 1312 apresenta uma imagem de transição, onde a mesma figura feminina contém ou têm os atributos simultaneamente da Igreja, de Maria e da Mulher do Apocalipse.

As primeiras representações da Ecclesia (=Igreja) nos séculos X-XII a apresentam como a mulher apocalíptica enfrentando o dragão. O motivo da mulher apocalíptica é aplicado em uma variedade de formas a Maria.

Por volta de 1348 espalhou-se um tipo de escultura mariana chamada Madonna que pisa a lua crescente (Mondsichel-Madonna), onde a representação da mulher do Apocalipse dispensa o uso do símbolo da lua (por exemplo, na escultura de Trier, 1480. VER VIDEO EMBAIXO).

Por vezes, como por exemplo nas representações do Platytera (ícone que pinta a Nossa Senhora orante), faz-se a oposição do sol (o Salvador) que nasce de Maria de um lado, e da raça humana que precisa de salvação (lua) de outro (Katharinenthal, 1312).

sábado, 31 de março de 2018

Domingo de Páscoa: Ressurreição triunfal de Nosso Senhor. Que venha o triunfo da Igreja!

Cristo ressurrecto, basílica dos Santos Pedro e Paulo, Malta. Fundo: rosácea catedral de Chartres, França.
Cristo ressurrecto, basílica dos Santos Pedro e Paulo, Malta.
Fundo: rosácea catedral de Chartres, França.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Assim que a alma de Nosso Senhor voltou ao corpo, Ele apareceu a Nossa Senhora.

Como terá sido esse encontro?

Ele pode ter aparecido como Senhor esplendoroso,

Rei, como nunca ninguém foi nem será rei.

Ou, com um sorriso que lembrava o primeiro olhar no presépio de Belém.

O que Ele comunicou a Ela?

O que Nossa Senhora terá dito, vendo-O e amando-O perfeitamente?

Foi o primeiro louvor que Jesus recebeu após a Ressurreição, feito em nome da Igreja toda.

domingo, 11 de março de 2018

Comentário ao “Vinde Espírito Santo”

Pentecostes. Iluminura da coleção da
University of Califórnia - Berkeley, UCB 059
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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sócio do IPCO,
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Em post anterior -- O hino "Vinde, Espírito Santo": quando reis disputavam em piedade com cardeais e Papas -- reproduzimos alguns dados históricos da famosa “seqüência” (um tipo de hino) “Veni Sancte Spiritus” (“Vinde, Espírito Santo”) cantada na festa de Pentecostes.

Será sempre útil um comentário sobre o valor e a utilidade dessa oração. É o que reproduzimos a continuação.

O bom espírito, o espírito reto, o senso católico é um dom de Deus. Não é uma coisa que o homem encontre com o mero exercício de sua inteligência, mas é algo que sua inteligência encontra movida e vivificada por um dom interno de Deus, que procede do Divino Espírito Santo.

Razão pela qual os homens pedem a Deus o espírito reto por meio da oração, com muita insistência, empenho e humildade, persuadidos que sem um dom celeste, não conseguirão.

Todo bom movimento da alma visando a virtude sobrenatural nos vem da graça de Deus, e essa graça é preciso pedi-la.

Não podemos ter a presunção de que o mero exercício de nossa inteligência é suficiente. Então, pedimos: “Vinde, Espírito Santo”.

Nós temos de pedir que o Divino Espírito Santo venha a habitar dentro de nossa alma com uma intensidade e com uma plenitude cada vez maior,.

Pela habitação do Espírito Santo, nosso espírito se torna capaz dos grandes pensamentos, volições, generosidades, percepções, resoluções, que sem o Espírito Santo é absolutamente impossível praticar.

A alma batizada é um templo onde está permanentemente o Espírito Santo. Quando o Anjo disse a Nossa Senhora que Ela era cheia de graça, disse que Ela era um vaso de eleição que transbordava do Espírito Santo.

A alma de todo santo transborda do Espírito Santo. Nela acaba não havendo a não ser Ele.