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domingo, 24 de agosto de 2025

A ‘Virgen Blanca’ de Toledo: sublime união de almas

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A primeira impressão que me causa essa imagem é a de um extraordinário relacionamento de alma entre Nossa Senhora e o Menino Jesus.

Ela exprime um destes momentos de familiaridade entre mãe e filho em que Ela brinca com o Filho.

Se esse relacionamento nunca admitisse um sorriso, não haveria verdadeiro convívio entre mãe e filho.

Por que razão?

Porque o menino tem qualquer coisa de débil que pede um sorriso.

Do contrário, estabelecer-se-ia uma barreira entre os dois, tornando impossível um dos modos mais elevados de comunicação espiritual.

Uma certa brincadeira entre Mãe e Filho converge neste ponto: a alma d’Ele sente-se misericordiosa e benignamente atendida naquilo que possui de mais débil; e a alma d’Ela manifesta-se mais delicada, afável e flexível em relação a Ele.

É um dos mais belos aspectos do estado de alma materno.

Quando se considera Nossa Senhora brincando com o Deus do Credo, Aquele que Ela sabe ser a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que assumiu a natureza humana, podemos compreender o auge de veneração presente nesse convívio e o quanto esse sorriso é autêntico e não disfarçado.

Isso revela, a par da grandeza infinita, uma sublimidade, afabilidade e bondade que nos deixam desconcertados.

O sorriso nas relações entre mãe-filho apresenta-se muitas vezes de modo prosaico. Mas nesta imagem, pelo contrário, é nobilíssimo.

Mãe e Filho não perdem nada de sua dignidade.

Outro aspecto a ser ressaltado nessa escultura — que, a meu ver, é muito superior às estátuas gregas clássicas: Ela enquanto rainha, envergando uma coroa e tendo um príncipe nas mãos.

Uma obra-prima de castidade, porque desse relacionamento só almas castas são capazes.

Uma alma não muito casta não é capaz desse sorriso e o relacionamento transforma-se em vulgaridade.

Observem como Nossa Senhora, ao mesmo tempo em que olha para o Menino Deus, medita a respeito d’Ele.

Porque compete mais a Ela admirá-Lo do que Ele em relação à sua Mãe.

Qualquer pessoa se ajoelharia diante desta cena!


(Excertos de conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 26 de novembro de 1967. Sem revisão do autor).



Sobre a imagem


A “Virgen Blanca” é uma escultura gótica de origem francesa.

Calcula-se que foi feita no século XIV mas há quem defende que foi um presente do rei São Luis IX da França a seu primo o rei São Fernando III de Castela, no século XIII.

Desde sempre está instalada no coro da catedral de Toledo, sobre o “altar de prima” onde se oficiava a missa na hora de despontar o sol.

“La Virgen Blanca” está entalhada em precioso alabastro branco recoberta com policromia dourada.

No período românico foi comum representar Nossa Senhora sentada, mas no período gótico se generalizaram as imagens da Mãe de Deus segurando o Menino Jesus em pé.

É o caso da famosíssima imagem de Nossa Senhora de Paris em sua catedral na capital francesa.

Numerosos testemunhos históricos falam de imagens trazidas da França com Nossa Senhora em pé segurando o Menino Jesus em seus braços, realizadas em mármore branco.

Entre essas se destacam varias feitas em marfim.

Essas esculturas promoveram a assimilação da arte gótica na Espanha.

Seu tamanho é pouco menor que o natural: 153 cm. A coroa, o cabelo e as franjas das vestimentas estão pintados com ouro. A cor dos rostos deve-se à pátina do tempo.

A imagem permanece sem retoques nem rupturas desde que chegou da França.



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domingo, 16 de abril de 2023

Intimidade de duas mães

Rocamadour: imagem que resgatou muitos escravos cristãos da escravidão dos maometanos
Rocamadour: imagem que resgatou muitos escravos cristãos da escravidão dos maometanos
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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O Bem-aventurado bispo de Gênova Jacques de Voragine conta que uma viúva tinha um filho único, a quem queria muito.

Sabendo que ele tinha sido feito prisioneiro pelos inimigos, acorrentado e posto na prisão, ficou profundamente triste.

Dirigindo-se a Nossa Senhora, por quem tinha devoção especial, pediu-lhe com insistência a liberdade de seu filho. Passou-se um tempo, e ela não viu o fruto de suas preces.

Dirigiu-se então a uma imagem de Maria com o Menino Jesus ao colo, na igreja, e disse:


— Santa Virgem, eu vos supliquei a liberdade de meu filho e não quisestes vir em socorro desta mãe infeliz. Implorei vossa proteção para meu filho, e a recusastes. Assim como meu filho foi levado, levarei o vosso, e o guardarei como refém.

Dizendo isso, tomou a imagem do Menino do colo da Virgem, levou-a para casa, envolveu-a em linho, e colocando-a em um cofre, fechou-a à chave, contente por ter um tão bom refém como garantia da volta de seu filho.

Na noite seguinte Nossa Senhora apareceu ao rapaz, abriu-lhe a porta da prisão e lhe disse:


— Diz à tua mãe, meu rapaz, que ela entregue meu Filho, agora que entreguei o dela.

O rapaz foi encontrar-se com sua mãe e relatou-lhe a miraculosa libertação. A mãe, radiante de alegria, apressou-se a entregar o Menino Jesus a Nossa Senhora:


— Eu vos agradeço, celestial Senhora, por me restituirdes o filho, e em troca restituo o vosso.

(Fonte: Jacques de Voragine, "La Legende Dorée")



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domingo, 26 de junho de 2022

"Salve Rainha": a maravilhosa origem


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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A “Salve Rainha” é a mais famosa oração a Nossa Senhora depois do Ave Maria.

Ela tem a impronta de devoção medieval bem marcada: unção, espírito filial e sacral, lógica e suavidade.

Ela parece ter sido sugerida pela própria Mãe de Deus à alma que a recitou pela primeira vez. Quem foi ela?

Salve RainhaÉ próprio do espírito de humildade e pureza do espírito católico não querer atrair a atenção sobre si próprio.

E em casos como este, esquecer de si próprio para atrair todas as atenções para o objeto da oração: a Santíssima Mãe de Deus.

Mas, como em tantas outras maravilhas medievais, o primeiro que recitou o “Salve Rainha” foi o mais humilde e o mais posto de lado.

Em concreto, o Beato Hermann Contractus, ou o Aleijado nascido com muitos defeitos no corpo mas com tesouros de amor por Nossa Senhora na alma.

Haveria de lhe dar enorme impulso o beato Ademar de Monteil, bispo de Puy-en-Velay no século XI.

Nossa Senhora do PuyEm Puy-em-Velay, na região de Auvergne, no centro da França, há um famosíssimo santuário dedicado a Nossa Senhora do Puy.

Aliás muitíssimo mais visitado nos tempos medievais do que nos séculos de decadência religiosa que advieram depois.

No santuário de Puy-en-Velay venera-se também hoje a imagem de “Nossa Senhora das Cruzadas”.

Peregrinos e cruzados que iam a Terra Santa acostumavam passar antes pelo Puy para se encomendar especialmente a ela.

Ademar de Monteuil descobre a Sagrada Lança durante a Primeira CruzadaPor sinal D. Ademar foi o primeiro bispo cruzado, e o primeiro cruzado. Foi ele quem, o primeiro, pediu ao Papa Beato Urbano II de portar a Cruz em sinal de guerra aos maometanos.

O acatadíssimo Migne defende que “antes de sua partida à Cruzada, pelo fim do mês de outubro de 1096, ele compôs a canção de guerra da (Primeira) Cruzada, na qual ele implorava a intercessão da Rainha do Céu, usando a Salve Rainha do beato Hermann” (Migne, "Dict. des Croisades", s. v. Adhémar).

Igreja de São Miguel Arcanjo, Puy-en-VelayNão menos importante é a devoção a São Miguel Arcanjo naquela abençoada localidade.

Dom Ademar descobriu a Sagrada Lança durante essa Cruzada.

O Puy exercia quase tanto ou igual atrativo à devoção ao Príncipe da Milícia Celeste do que o famosíssimo Monte Saint-Michel na Normandia.

Além do mais, o Puy era uma das etapas as mais prezadas pelos romeiros que depois seguiam a pé ‒ e ainda hoje seguem ‒ até o longínquo túmulo do Apóstolo Santiago em Compostela, Espanha.

Tão grande foi a devoção medieval pela Salve Rainha que o próprio gregoriano elaborou muitas formas de cantá-la.

Durandus, no seu “Rationale”, põe a origem no espanhol D. Pedro de Monsoro, falecido perto do ano 1000, bispo de Compostela.

É lugar inconteste que as exclamações finais “ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria” tenham sido inspiradas por Nossa Senhora a São Bernardo de Claraval.

O milagre inspirador teria acontecido na abadia de Speyer (Spira) na Alemanha.

Veja como foi este milagre em: Num Natal: Ó clemente! Ó piedosa! Ó doce Virgem Maria!




Salve Regína, Mater misericórdiae, vita, dulcedo et spes nostra salve!
Salve Regina
Salve Regina

Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!


Ad te clamámus, éxsules filii Evae.
A vós bradamos os degredados filhos de Eva;

Ad te suspirámus geméntes et flentes in hac lacrimárum valle.
a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.

Eia ergo, advocata nostra, illos tuos misericórdes óculos ad nos convérte.
Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,

Et Jesum, benedíctum fructum ventris tui, nobis post hoc exsílium, osténde.
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre.

O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria!
Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria.

Jaculatória final: Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.




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domingo, 20 de fevereiro de 2022

O hino "Vinde, Espírito Santo": quando reis disputavam em piedade com cardeais e Papas

Roberto II o Piedoso, Grandes Chroniques de France, século XV, ©BNF
Roberto II, o Piedoso, rei da França gostava cantar o Ofício Divino com os monges.
Iluminura de 'Grandes Chroniques de France', século XV, Biblioteca Nacional da França.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A famosa “sequência” (um tipo de hino) “Veni Sancte Spiritus” (“Vinde, Espírito Santo”) cantada na festa de Pentecostes, é outra das joias da espiritualidade medieval.

Disputa-se sobre quem teria sido seu autor.

Alguns defendem que foi o rei da França Roberto II, o Piedoso (970-1031) (iluminura ao lado).

Outros põem a autoria no Cardeal Stephen Langton (1150–1228) arcebispo de Cantuária e primaz da Inglaterra.

Segundo a Encyclopédia Católica, tal vez seja mais correto atribuir o “Veni Sancte Spiritus” ao Papa Inocêncio III, (pintura em baixo) muito amigo, aliás do Cardeal Langton.

Inocêncio III (1160-1216) foi um dos maiores Papas da Idade Média.

Ele consolidou o poder pontifício que fora contestado por uma corrente de revolta, precursora do laicismo atual.

Papa Inocêncio III, Subiaco. Orações e milagres medievais
O Papa Inocêncio III. Mosteiro de Subiaco, Itália.
Ô felizes tempos em que reis como Roberto II o Piedoso disputavam em zelo pela Fé com cardeais e Papas!

Então desde o governo desciam sobre a Igreja e o corpo social maravilhas espirituais como o “Veni Sancte Spiritus”.

Quê diferencia com tantos governantes de hoje!



Clique para ouvir (coro da TFP americana)

Veni Sancte Spiritus


Eis o texto em latim (como é cantado em gregoriano) e em português:

1. Veni Sancte Spiritus, et emitte cælitus, lucis tuæ radium.
1. Vinde, Espírito Santo, e enviai do céu um raio de Vossa luz.

2. Veni pater pauperum, veni dator munerum, veni lumen cordium.
2. Vinde, pai dos pobres, vinde dispensador dos dons, vinde luz dos corações.

3. Consolator optime, dulcis hospes animæ, dulce refrigerium.
3. Consolador por excelência, hóspede da alma, nosso doce refrigério.

4. In labore requies, in æstu temperies, infletu solatium.
4. No trabalho, sois repouso; no ardor, sois calma; no pranto, consolo.

5. O lux beatissima, reple cordis intima, tuorum fidelium.
5. Ó luz beatíssima, penetrai até o fundo do coração dos que vos são fiéis.

6. Sine tuo numine, nihil est in homine, nihil est innoxium.
6. Sem vossa graça, nada há no homem, nada que não lhe seja nocivo.

7. Lava quod est sordidum, rega quod est aridum, sana quod est saucium.
7. Lavai o que é impuro, fecundai o que é estéril, ao que está ferido curai.

8. Flecte quod est rigidum, fove quod est frigidum, rege quod est devium.
8. Dobrai o rígido, aquecei o que é frio e o que se extraviou, guiai.

9. Da tuis fidelibus, in te confidentibus, sacrum septenarium.
9. Dai aos que vos são fiéis e em vós confiam, os sete dons sagrados.

10. Da virtutis meritum, da salutis exitum, da perenne gaudium. Amen.
10. Dai-lhes o mérito da virtude, a salvação no termo da vida, a eterna felicidade.



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