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domingo, 16 de fevereiro de 2025

Anjos levaram a casa de Maria de Nazareth a Loreto:
única tese que resiste à crítica científica

Translação da Santa Casa de Loreto.  Pintura anônima do século XVII, México
Translação da Santa Casa de Loreto.
Pintura anônima do século XVII, México
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



Numa conferência promovida pelo Centro Cultural “Amici del Timone” de Staggia Senese, Itália, sobre “A santa Casa. História da incrível translação angélica da Casa de Maria de Nazareth a Loreto”, se desenvolveu ainda mais um tema que interroga à engenharia.

Com efeito, na cidade de Loreto, região Marche, há séculos se encontra a Santa Casa, onde nasceu Nossa Senhora e onde Ela recebeu o Anúncio da Encarnação pela voz do Arcanjo São Gabriel.

Porém, o fato se deu em Nazaré, Terra Santa. E ali se encontram os fundamentos da mesma Santa Casa. Esses, comparados com as dimensões e características Casa de Loreto coincidem perfeitamente. E as afinidades e concordâncias não acabam por ali.

Como é que a Santa Casa se descolou, por assim dizer, da sapata e foi aparecer íntegra a perto de 3.000 quilômetros de distância e ali permanece até hoje, também íntegra?


A translação aconteceu no século XIII, segundo provas históricas. Mas, como ela pode ter sido feita considerando a pobreza dos recursos tecnológicos da época?

Ela é atribuída a uma ação angélica reconhecida oficialmente por Papas e defendida por santos. Mas, essas autorizadas aprovações não visam explicar o procedimento material que transportou um objeto do tamanho de uma casa de um continente a outro no período máximo de uma noite.

Entretanto, essa translação está confirmada com provas históricas, documentais e arqueológicas. A ciência mais uma vez confirma a Igreja para pasmo de muitos.

O professor Giorgio Nicolini que consagrou sua vida de estudo e investigação ao caso, falou em dito Congresso. Com argumentos das referidas ciências, ele considera demonstrada a veradicidade histórica do miraculoso traslado.

Segundo ele expôs na conferência, existem muitos documentos e testemunhos oculares do traslado, inexplicável à luz das ciências e técnicas humanas.

O professor Nicolini estabeleceu uma cronologia da mudança de local.

Santa Casa, percurso de Nazareth até Loreto
Santa Casa, percurso de Nazareth até Loreto
1. No dia 9 de maio de 1291 a Santa Casa se encontrava ainda em Nazareth.

2. Na noite entre 9 e 10 de maio de 1291 ela percorreu aproximadamente 3.000 quilômetros e chegou a Tersatto, na região da Dalmácia, onde hoje fica a cidade de Fiume.

Naquela ocasião, o senhor feudal de Tersatto, Nicolò Frangipane, enviou pessoalmente uma delegação a Nazareth, para constatar se em verdade a Santa Casa tivesse desaparecido de seu lugar original.

Os emissários não só constataram a desaparição, mas encontraram a sapata sobre a qual a Casa havia sido construída e de onde as paredes tinham sido tiradas em bloco.

Esses fundamentos estão em Nazareth e em torno deles foi construída a basílica da Anunciação. Em Loreto se encontra a Casa desprovida de baseamento e apoiada diretamente no chão.

3. Na noite entre os dias 9 e 10 de dezembro de 1294, a Santa Casa desapareceu de Tersatto e pousou “em diversos lugares” da Itália. Ela ficou durante nove meses numa colina sobre o porto de Ancona, que por isso mesmo passou a ser denominada “Posatora”, do latim “posat et ora”.

No local foi edificada uma igreja como lembrança do fato segundo registrou na época um sacerdote que assina don Matteo, provavelmente testemunha ocular.

Também duas lápides comemoram o fato. Uma é da mesma época do evento, e está escrita em latim vulgar antigo. A outra está escrita em vernáculo, é do século XVI e é uma cópia da mais velha.

A lápide mais antiga de Posatora já falava de “Nossa Senhora de Loreto” ficando claro que a inscrição foi feita após a partida do local.

4. Em 1295, após nove meses em Posatora a Santa Casa foi trasladada a uma floresta que pertencia a uma mulher de nome Loreta, na proximidade da cidade de Recanati. De ali provém o nome Loreto.

5. Entre 1295 e 1296, após permanecer oito meses nesse local, a Santa Casa foi transportada milagrosamente até uma roça que pertencia a dois irmãos da família Antici, sobre o Monte Prodo.

6. Em 1296, após quatro meses na dita roça, a Santa Casa partiu e foi pousar num sendeiro público que ligava Recanati e Ancona, sobre o Monte Prodo, onde ainda se encontra.

A Santa Casa em Loreto, estado atual do interior da casa de Nossa Senhora.
A Santa Casa em Loreto, estado atual do interior da casa de Nossa Senhora.
Muitíssimos outros elementos atestam a veracidade histórica do traslado inexplicável. Três igrejas foram construídas em Ancona – duas ainda existentes – lembrando que testemunhas oculares viram chegar a Santa Casa “voando” a Ancona e a parada em Posatora.

Acresce que em Forìo, na Ilha de Ischia, os pescadores da ilha que comerciavam com Ancona voltaram narrando dos fatos que tinham se dado em 1295.

O relato moveu os habitantes da cidade a erigir uma Basílica consagrada a “Santa Maria di Loreto”. Eles também viram com seus próprios olhos a Santa Casa em Ancona.

O culto das milagrosas translações foi aprovado por diversos bispos da região. As aprovações dos Papas foram sendo renovadas durante séculos até a instituição da Festa da Translação no dia 10 de dezembro de todo ano, definitivamente estabelecida por Urbano VIII em 1624.

A translação foi reconhecida por diversos Sumos Pontífices, entre os quais Paulo II, Júlio II, Leão X, Pio IX, Leão XIII e Pio XI. Os respectivos documentos em que os Papas reconhecem o fato como sobrenatural além de seu valor religioso têm reconhecido o valor de documento pela ciência histórica.

O professor Nicolini apontou a mentalidade materialista, ora agnóstica e ateia, ora protestante envolvida em papel Bíblia, que pretende desacreditar a autenticidade da Santa Casa venerada em Loreto.

Em certo sentido, essa oposição estimulou um aprofundamento dos estudos que demonstraram ser originária da Terra Santa. Provam isso a composição química da massa com que foi construída a casa, sua forma e muitos pormenores arquitetônicos.

Contra a translação angélica, forjou-se até a novela de que uma fantasiosa família principesca de Epiro chamada “Angeli” teria desmontado a Casa e a teria transportado tijolo por tijolo a pedido dos Cruzados que estavam vendo o avanço destrutor dos muçulmanos.

Vidro no chão permite observar que os muros sem alicerces estão ainda apoiados na terra e parte no vácuo
Vidro no chão permite observar que os muros sem alicerces
estão ainda apoiados na terra e parte no vácuo
Tal família teria depois reconstruído a casa em Loreto. Nas condições de transporte do século XIII tal operação teria sido uma façanha mais miraculosa de que a translação angélica.

As pedras e tijolos estão unidos com uma massa cuja composição físico-química só se encontra na Palestina. E precisamente na região de Nazareth, inexistindo em qualquer parte de Marche e ou de qualquer outro lugar da Itália.

Acresce que se se a Casa foi desmontada e restaurada em diversos locais por mão humana – como pretende a imaginosa objeção – não se entende como teria sido possível conservar as exatas proporções geométricas da casa de Nazareth cujos fundamentos hoje batem perfeitamente com os muros de Loreto.

Vidro no pavimento da Santa Casa de Loreto permite ver que ela não tem sapata
Vidro no pavimento da Santa Casa de Loreto permite ver que ela não tem sapata
Tampouco teria sido possível que ninguém percebesse que a Casa estava sendo desmontada e depois reconstruída, e ainda no breve lapso de uma noite no centro do santuário de Nazareth e depois na Itália.

Mais inexplicável ainda é o fato de a Santa Casa ter sido finalmente depositada cortando uma velha estrada de terra. Nessa estrada a passagem dos animais e das charretes abriu naturalmente valetas no centro da estrada, elevou as margens que, por sua vez geraram canaletas em ambos os lados.

Dessa maneira, os muros sem alicerces estão ainda apoiados na terra e parte no vácuo. Isso hoje pode ser verificado pelos peregrinos através de um vidro no chão.

Acresce que a Prefeitura de Recanati já naquela época havia proibido construir casas nas estradas públicas e ordenou demolir todos os prédios que fossem feitos em violação da norma.

Como é que então poderia ter sido refeita uma casa cortando a estrada sem que ninguém percebesse?

Outra grade dificuldade provém da ausência de meios naquela época para transportar uma casa inteira, ainda que desmontada tijolo por tijolo e pedra por pedra. Tratar-se-ia de algumas toneladas.

O transporte por terra teria sido ímprobo pela demora e pela quantidade de charretes, animais e homens necessários.

Por mar, embora mais factível, teria sido também demorado e sujeito a perdas pelas tempestades.

Mais complicado ainda seria cortar os muros em partes e leva-las sem desmanchar numa viagem de 3.000 quilômetros e depois recolá-las sem deixar sinais dos pontos de junção.

Uma das capelas da basílica da Santa Casa, em Loreto
Uma das capelas da basílica da Santa Casa,
em Loreto
Esses fatores materiais, explicou o prof. Nicolini, postulam a impossibilidade de um transporte com os meios técnicos da época.

Também é errada e falsa a interpretação do documento em que se baseia a teoria descartada.

O Prof. Andrea Nicolotti, da Universidade de Estudos Históricos de Turim, após aprofundado exame, concluiu ser uma “falsidade histórica” a interpretação do “Chartularium Culisanense” de onde se pretende tirar a ideia de um transporte por obra de homem.

Na única linha desse documento que fala da Santa Casa está escrito textualmente: “As Santas Pedras tiradas da Santa Casa de Nossa Senhora a Virgem Madre de Deus”.

Fica evidente que o documento não fala de toda uma Casa, mas só de algumas pedras de uma casa cuja localização não é mencionada.

Acontece que Nossa Senhora residiu em outras casas. Por exemplo, os Evangelhos mencionam a casa de São João, depois da crucificação de Jesus: “Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa” (João, 19, 27).

E também a casa de Éfeso, hoje na Turquia, onde é visitada por inúmeros romeiros, onde Nossa Senhora se refugiou com São João para fugir da perseguição da Sinagoga.

Por isso é razoável concluir que dito documento – se for verdadeiro – não se refere nem mesmo à Casa de Nazareth.

Da longa e detalhada demonstração do professor Nicolini se deduz que é muito mais razoável supor a translação angélica resultante de uma obra maravilhosa de Deus, para quem nada é impossível e que tem operado milagres bem maiores do que esse.

Uma translação operada por mãos humanas deveria ser considerada um evento ainda mais milagroso do que a efetivada por obra dos anjos.


Vídeo: Santa Casa de Loreto: a translação milagrosa e a ciência




Entrevista ao Prof. Nicolini, em Posatora, um dos locais onde posou a Santa Casa.





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terça-feira, 28 de setembro de 2021

São Miguel Arcanjo: modelo do perfeito cavaleiro e do perfeito contemplativo

São Miguel Arcanjo. Gérard David (1460 – 1523). Kunsthistorisches Museum, Viena
São Miguel Arcanjo. Gérard David (1460 – 1523).
Kunsthistorisches Museum, Viena
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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São Miguel é o chefe que comandou a luta contra o demônio e o precipitou no inferno.

Ele é o chefe dos Anjos da Guarda dos indivíduos e das instituições.

E é, ele mesmo, o Anjo da Guarda da mais alta das instituições, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Ele tem, portanto, uma função tutelar derrubando no inferno os que se levantam contra Deus Nosso Senhor, de um lado.

E protegendo a Igreja e aos homens nesse vale de lágrimas que é a vida, de outro lado.

Essas duas missões se concatenam.

Deus quis servir-se dele como de seu escudo, contra o demônio.

Deus quer que ele seja o escudo dos homens contra o demônio; e o escudo da Santa Igreja Católica contra o demônio.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

São Rafael Arcanjo: ministro de Corte real e celeste

São Rafael Arcanjo, igreja dos Santos Felipe e Tiago, Oxford
São Rafael Arcanjo, igreja dos Santos Felipe e Tiago, Oxford
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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São Rafael Arcanjo é um dos sete Anjos que assistem diante de Deus com a missão de lhe apresentar as preces dos homens.

Uma das noções que “a fumaça de Satanás” infiltrada na Igreja mais tenta apagar nas almas é que o Céu constitui uma verdadeira Corte.

Antes da republicanização da religião falava-se muito da Corte Celeste. Aprendia-se já no primeiro catecismo e a pompa que rodeava ao Papa era a imagem fiel dela.

A ideia de uma Corte Celeste se funda na ideia de que Deus está perante os anjos e santos como o rei perante sua Corte no Palácio.

E algumas coisas próprias das Cortes reais na Terra, pela similitude entre a Terra e do Céu, existem na Corte Celeste também.

Um protocolo monárquico, quer dizer o modo de reger os servidores do rei de maneira que todas as coisas se passem de modo prático, simples, decoroso, facilitando a vida do rei.

Nas grandes ocasiões, o rei atendia os visitantes rodeado pelos príncipes da casa real, de pessoas da alta nobreza, e pajens colhendo as preces trazidas por escrito.

O interessado dizia ao rei o que pedia, e alguém chegado ao interessado podia dizer uma palavra ao rei, ou também falava alguma pessoa de alta categoria. Depois a pessoa entregava a um dignitário um rolo de papel com o pedido, que o rei examinava depois.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

As aparições do Arcanjo no Mont Saint-Michel, França

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Segundo as crônicas, no ano 708 o Arcanjo São Miguel apareceu duas vezes a Santo Aubert –– Bispo de Avranches, cidade situada no fundo da baía — ordenando-lhe que erguesse uma capela em sua honra no rochedo que então se chamava Monte Tumba (ou Túmulo).

Inseguro quanto à realidade da visão, o bispo protelou a construção da capela.

Apareceu-lhe então pela terceira vez São Miguel, tocando-lhe a cabeça com o dedo, de tal modo que Aubert não pôde mais duvidar.

Esse sinal ficou marcado indelevelmente no crânio do santo, durante muito tempo exposto no tesouro da basílica de São Gervásio, de Avranches.

sábado, 28 de setembro de 2019

Os Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael
na Corte Celeste

Santos Anjos, catedral de Leeds, Inglaterra
Santos Anjos, catedral de Leeds, Inglaterra
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na festa dos Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael (29 de setembro), o primeiro se destaca como aquele que liderou a luta contra o demônio e o precipitou no inferno.

São Miguel, chefe das legiões angélicas

Ele é o chefe dos Anjos da Guarda dos indivíduos e o chefe também dos Anjos da Guarda das instituições, especialmente da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Ele tem uma função tutelar dos homens nesse vale de lágrimas e nessa arena de luta que é a vida.

Deus quis servir-se dele como de seu escudo contra o demônio e quer que ele seja o escudo da Santa Igreja Católica contra o chefe infernal.

Mas um escudo que é gládio também.

domingo, 16 de junho de 2019

A Santa Casa de Loreto (2)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O lugar onde se acha o santuário da Santa Casa de Loreto fica no meio do caminho que conduz ao porto de Recanati.

O outeiro sobre o qual pousou foi depois nivelado, e se acha agora no centro da cidade que ali se ergueu, e que tomou o nome de Loreto.

As múltiplas transladações da santa casa de Nossa Senhora não fizeram senão despertar cada vez mais a curiosidade e a devoção dos fiéis, não somente das províncias próximas, mas até dos países mais remotos, enriquecendo-se este augusto santuário com os mais preciosos donativos.

Quatro anos depois deste último e maravilhoso acontecimento, o concurso dos romeiros, já tão prodigioso, tornou-se ainda maior na ocasião do primeiro jubileu do ano santo, que se realizou em Roma em 1300.

A santa casa de Loreto foi depois encerrada em uma magnífica igreja, começada por Paulo II e concluída pelos seus sucessores.

O Papa Leão X imaginou os magníficos relevos em mármore branco, com os quais estão cercadas as paredes da santa casa.

Sixto V fez gravar na fachada, em caracteres de ouro, esta breve mas sublime inscrição: "Casa da Mãe de Deus. Onde o Verbo se fez Carne".

Pode-se dizer, sem contradição, que este santo lugar se tornou um dos mais privilegiados do mundo.

A igreja forma uma cruz latina, cujo centro é coroado por uma magnífica cúpula ornada de uma lanterna, que o peregrino saúda de muitas léguas, como o navegador saúda o farol que o vai dirigir para o porto.

Tudo quanto no Velho e Novo Testamento se refere ao Batismo, se acha representado ali.

Quatro estatuazinhas, de um lavor delicado, estão nos quatro cantos da pia batismal. A primeira representa a Fé, com esta divisa: "Ela não pode ser enganada".

A segunda, a Esperança, com estas palavras: "Ela não pode ser abalada".

A terceira, a Caridade: "Ela não pode ser dividida". A quarta, a perseverança: "Ela não pode ser quebrada". Eis aí os maravilhosos efeitos do batismo e os grandes caracteres do cristão.

A santa casa tem 8,9 metros de comprimento por 3,8 metros de largura. As paredes não são de tijolos, mas de pedras duras de cor avermelhada, sobre as quais serpenteiam pequenos veios amarelos.

Nenhum alicerce sustenta a casa, cujas paredes descansam sobre a terra nua, e até, por causa de desigualdade do terreno, de um lado não tocam no chão.

O antigo telhado já não existe, as suas telhas foram colocadas debaixo do pavimento atual.

Uma peça do vigamento primitivo está ao nível do pavimento, onde, apesar de continuamente trilhada pelos pés dos peregrinos, não se estraga.

À esquerda da santa casa acha-se o santo armário. Ali se conservam duas pequenas tigelas que serviram, com várias outras, para os usos da Sagrada Família.

São de barro cozido, de uma cor esbranquiçada, listradas de vermelho.

Atrás do altar há uma pequena cômoda chamada "il santo camino", por causa da antiga chaminé colocada no fundo.

Ali se conserva uma terceira tigela que, por um feliz privilégio, escapou à espoliação francesa de 1797.

Está coberta de lâminas de ouro, sobre as quais estão gravados os dois mistérios da Anunciação e da Natividade do Senhor.

Se bem que o tesouro, esvaziado pelas guerras e pelas pilhagens, tenha sofrido grandes desfalques, ainda tem com que surpreender.

Nele se vê multidão inumerável de corações de ouro e de prata, de estofos preciosos, cálices, pérolas, diamantes, quadros, castiçais, relógios, anéis, cruzes, estátuas, vasos, custódias, coroas, colares, rosetas, lâmpadas e outros objetos preciosos.

É um belo espetáculo, o de todas essas riquezas oferecidas pelos pontífices e pelos reis, pelos príncipes e pelos cristãos de todos os países, ao Deus feito pobre para nos salvar, e à doce Virgem, nossa Mãe e dispensadora de todos os tesouros do Céu.


("Maria ensinada à mocidade" - Livraria Francisco Alves, 1915)


Vídeo: A Santa Casa de Loreto






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domingo, 2 de junho de 2019

A Santa Casa de Loreto (1)

Luis Dufaur
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A santa casa de Loreto é a casa que testemunhou o grande mistério da Encarnação, quando o Arcanjo, resplandecente de luz, foi enviado do Céu à terra para trazer ao gênero humano a maior e mais consoladora nova.

Naquela casa morava uma donzela humilde e modesta; provavelmente nela nascera, era a casa de seus pais. Era virgem, e chamava-se Maria.

Foi ali que Jesus Cristo habitou, submisso a José e Maria, durante os trinta primeiros anos de sua vida mortal.

A casa foi milagrosamente transportada pelos anjos, no fim do século XIII.

A piedosa imperatriz Santa Helena fizera encerrar a santa casa de Nazaré num magnífico templo, conservando intacta a casa preciosa na qual a Sagrada Família habitara.

Em todos os tempos essa casa foi um santuário visitado pelos mais ilustres e santos personagens, entre os quais a História faz menção de São Luís IX, rei de França, que ali recebeu a sagrada comunhão, com extraordinárias consolações, no dia Anunciação de 1252.

Pouco depois, os muçulmanos do Egito irromperam no território da Palestina e destruíram o magnífico templo no qual se achava a santa casa de Nazaré, que assim ficou exposta a todas as profanações.

Deus subtraiu ao furor dos ímpios esse precioso santuário, por meio de um dos maiores prodígios de que a História faça menção.

E também atraiu, mais do que nunca, a atenção de toda a cristandade sobre um monumento tão digno de nosso respeito e veneração.

A primeira transladação se deu no dia 10 de maio de 1291.

Viu-se de repente perto de Terçado, na Dalmácia, uma pequena casa situada sobre um outeiro, onde jamais se tinha visto nem a mais simples choupana.

Mas a surpresa foi ainda maior quando se ouviram algumas pessoas afirmarem ter visto essa casa suspensa no ar, antes de pousar sobre o outeiro.

Espalhando-se a notícia deste prodígio, o povo acudiu de todas as partes, examinou o edifício de perto, e notou com espanto que estava assentado sobre um terreno desigual, sem alicerces.

Além disso, à medida que penetravam no interior, novos objetos lhes excitavam a curiosidade: um altar, uma cruz, uma estátua de cedro representando Maria Santíssima com o Menino Jesus.

Entretanto, aí chega de repente nesse santuário o pároco do lugar, por nome Alexandre de Georgio, que se achava doente havia três anos, quase sem esperança de sarar.

Contou ele que lhe apareceu Maria Santíssima, que o curou e lhe disse que a casa recém-chegada no seu país era a mesma casa de Nazaré, onde, por obra do Espírito Santo, concebera o Verbo de Deus.

Não é fácil dar uma ideia da alegria do povo, vendo seu pastor repentinamente curado e ouvindo a narração da revelação que lhe fora feita por Maria Santíssima a respeito da excelência do Santuário com que todos foram favorecidos.

Nossa Senhora de Loreto
O governador da Dalmácia, Nicolau Frangipani, veio também visitar a santa casa. Admirado de tão maravilhosa transladação, mandou a Nazaré quatro comissários encarregados de verificar:
1) se de fato desaparecera a casa de Maria;
2) se alguém a tirou;
3) se os alicerces dela ali estavam;
4) se as dimensões dessas bases concordavam com as das paredes da casa transportada;
5) afinal, se a pedra de que era feita era a mesma.

Os delegados, chegados a Nazaré, adquiriram plena certeza de que a casa venerada na Dalmácia era realmente a de Maria e de José.

Não sabemos por que a Dalmácia perdeu tão depressa este precioso monumento. A transladação milagrosa para a Dalmácia não era senão o princípio dos prodígios que Deus queria fazer para atrair a atenção do mundo cristão sobre um objeto tão digno de veneração.

No dia 10 de dezembro de 1294, três anos e meio depois de ter aparecido na Dalmácia, a santa casa se elevou de novo nos ares.

Atravessando o mar Adriático, foi colocar-se no meio de um bosque de loureiros, a pouca distância da cidade de Recanati, na Marca de Ancona, três dias antes que o soberano pontífice Celestino V renunciasse à dignidade augusta de chefe da Igreja.

O bosque de loureiros no qual foi pousar a santa casa parece ser a origem do nome que lhe deu, de Nossa Senhora de Loreto.

Os primeiros chamados para contemplar este novo prodígio foram, como no nascimento do Salvador, simples pastores que velavam durante a noite, guardando seus rebanhos.

Uma luz extraordinária, que rodeava a santa casa, inspirou-lhes o desejo de ver de perto a causa do fenômeno.

Aproximando-se, ficaram admirados à vista de uma casa desconhecida e dos objetos religiosos que encerrava.

Cheios de profunda veneração, passaram o resto da noite em oração naquele lugar sagrado.

A fama deste acontecimento espalhou-se logo e atraiu grande número de espectadores e piedosos romeiros.

Em breve, este primeiro movimento da fé foi poderosamente favorecido pelos milagres e graças extraordinárias que ali se recebiam.

Enquanto uma multidão de piedosos fiéis acorreu a esta nova fonte de graças, o inimigo do gênero humano se esforçava para as tornar inúteis, infestando aqueles lugares com os furtos e as rapinas, por cuja causa ia diminuindo o concurso dos piedosos fiéis.

Deus, porém, remediou bem depressa este inconveniente com uma terceira transladação.

Oito meses depois da sua chegada ao bosque dos loureiros, a santa casa transportou-se de repente sobre um outeiro situado também a pouca distância da cidade de Recanati, lugar pertencente a dois irmãos de uma nobre família.

Mas como estes dois irmãos se armassem um contra o outro, excitados pela cobiça das ricas ofertas que ali se faziam, pouco faltou que banhassem com o próprio sangue aquela terra santificada com a presença da augusta habitação de Maria Santíssima.

Deus, porém, que não detesta menos as dissensões fraternas do que a cobiça, removeu ainda uma vez a santa casa para transportá-la a pequena distância, sobre um outeiro mais elevado.

Esta última transladação deu-se quase no fim de 1295, quatro meses depois que a santa casa havia chegado sobre o outeiro dos dois irmãos.



continuará em próximo post: A Santa Casa de Loreto (2)


Vídeo: A Santa Casa de Loreto






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