domingo, 25 de agosto de 2019

Daroca: um milagre eucarístico
na guerra contra os islâmicos

A missa antes da batalha, azulejo do milagre de Daroca
A missa antes da batalha, azulejo do milagre de Daroca
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








No dia 23 de fevereiro de 1239, as tropas católicas de Daroca, Teruel e Calatayud, reino de Aragão, empreenderam o assalto do castelo de Chío, perto de Luchente, do qual os muçulmanos tinham se apossado, segundo evocou Aleteia.

Tratava-se de mais um episódio da guerra de Reconquista que durou oito séculos para recuperar a península ibérica invadida a sangre e fogo pelos fanáticos islâmicos.

Momentos antes da batalha, o capelão de Daroca celebrava uma Missa, em que consagrou seis hóstias para a Comunhão de cada um dos capitães das tropas.

Os Corporais de Daroca com o Sangue das hóstias
Os Corporais de Daroca com o Sangue das hóstias
Mas um ataque surpresa dos maometanos obrigou o sacerdote a interromper a Missa.

O capelão saiu correndo com as hóstias embrulhadas nos corporais [pequena peça de pano usada na liturgia antiga] e as escondeu em um monte.

Afastados os assaltantes árabes, os comandantes pediram ao sacerdote que lhes desse a Comunhão.

Quando o padre foi buscar as hóstias no esconderijo, encontrou as seis manchadas de sangue e grudadas nos corporais.

Os comandantes entenderam aquilo como um sinal de Jesus de que eles seriam vencedores.

Então fizeram com que o sacerdote encabeçasse a batalha, levantando os corporais com as hóstias ensanguentadas como estandarte.

Os muçulmanos foram derrotados.

Uma versão parecida contavam mouros de mais de sessenta anos que ouviram de pais e avós terem recebido ordem de cercar ao nobre Berenguer de Entenza que cavalgava pelo reino de Valência com homens de Calatayud, Daroca y Teruel.

Berenguer se sentiu rodeado e encomendou uma missa a um clérigo de Daroca. Esse, após a consagração depositou o Corpo de Cristo nos Sagrados Corporais, panos litúrgicos do altar.

Instantaneamente a hóstia consagrada com forma de pão ficou visível como carne embebida em verdadeiro sangue.

Altar onde estão expostos os Corporais em Daroca.
Altar onde estão expostos os Corporais em Daroca.
Diante de tão grande sinal da transubstanciação que confirmava a fé, o exército católico marchou por cima dos mouros.

Eles avançavam atrás do sacerdote que, paramentado de vermelho, montava numa mula branca e levantava bem alto os sagrados corporais.

Foi assim que com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, “obtiveram grande vitória contra os mouros”, segundo reza antiga crônica.

Após os últimos choques e consolidada a sorte da batalha, os chefes católicos disputaram para saber qual cidade teria a honra de guardar os corporais.

Três universidades – a de Teruel, a de Daroca e a de Calatayud –desejavam possuir a Sagrada Relíquia e jogaram o caso à sorte.

E as três vezes deu Daroca.

Porém, para afastar a desconfiança de alguma manobra para adulterar o resultado, Daroca consentiu que os Corporais ficariam no local em que parasse uma mula branca sobre a qual seria levada a relíquia.

Sobre dita mula branca iria o sacerdote com os Corporais, precedido pela multidão dos fiéis.

A mula viajou durante 12 dias e passou sem se imutar por Teruel.

Corporais levados na procissão de Corpus Christi em Daroca.
Corporais levados na procissão de Corpus Christi em Daroca.
Na passagem pela estrada de Luchente a Daroca, aconteceram vários milagres.

Em Játiva, ouviu-se um coro de vozes celestiais.

Perto de Alcira, uma mulher possessa foi libertada dos demônios. Em Jérica, dois ladrões, que estavam perto de matar um comerciante, se arrependeram e devolveram os bens roubados.

Mas, chegando perto da cidade de Daroca “fincó aquí los genillos por voluntad de Ihesu Cristo”, “fincou ali os joelhos por vontade de Jesus Cristo” e morreu diante da igreja de São Marcos (hoje Igreja da Trindade).

Os fiéis viram nisso um sinal divino de que os Corporais deviam ficar nessa igreja.

Posteriormente foram trasladados para a igreja de Santa Maria construída maior para que os Sagrados Corporais pudessem ser vistos por todo o mundo.

É a atual igreja de Santa Maria Colegiada desde onde, na festa de Corpus Christi, a cidade leva em procissão os Santos Corporais para fora das muralhas e os exibe aos numerosos peregrinos.

Daroca se converteu em grande centro de peregrinação a partir do século XIV com a visita de reis e personalidades importantes.

Por causa da afluência de devotos, a festa de Corpus Christi chegou a se estender durante quase um mês. Cfr. Espacio Xiloca,



Celebração do Corpus Christi diante dos Corporais de Daroca 2018






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domingo, 11 de agosto de 2019

Santiago Apóstolo: milagres do santo cruzado,
condutor da guerra santa contra os muçulmanos

Busto do Apóstolo Santiago, catedral de Compostela
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






As proporções que a devoção a Santiago de Compostela tomou em toda a Espanha medieval somente pode ser entendidas no contexto da invasão muçulmana.

Tudo começou pelo ano de 813, quanto um eremita de nome Pelayo, seguido de alguns pastores, deparou-se com uma estranha luminosidade.

Ela se espalhava sobre um pequeno bosque nas proximidades de um monte do interior da Galícia chamado Libredón.

A paisagem, em certos momentos, ficava tão clara que se parecia a um campo estrelado (Campus Stellae = Compostela).

Teodomiro, o bispo local, informado do estranho fenômeno, soube que a luz focara no chão uma antiga arca de mármore.

Nela se teria encontrado os restos humanos do que se atribuiu ser o Apostolo Santiago (isto é, São Iago, São Jacó, o filho de Zebedeu, irmão de João Evangelista).

Uma história antiga que corria de boca em boca entre os cristãos ibéricos dizia que o Apóstolo andara, séculos antes, em missão pela Espanha determinado a evangelizá-la.

Porém não conseguiu porque ao voltar à Palestina teria sido decapitado pelo rei Herodes Agripa, no ano de 44.

Altar mor, catedral de Compostela
O corpo dele então, acomodado num sepulcro de mármore, fora colocado a bordo de um barco no porto de Jaffa e lançado ao mar.

Sem tripulação, sem leme nem nada, soprada apenas pelo vento, a nau teria vindo aportar nas costas da Galícia, região da Espanha que os romanos chamavam então de Finis Mundi.

Recolhida da praia, a arca fora enterrada num “compostum”, quer dizer um cemitério romano-galego daquele tempo.

Durante os séculos seguintes, ninguém mais tomou conhecimento dela, até que começaram a ocorrer aquelas iluminações esplendidas que o bispo Teodomiro consagrou.

O sensacional e miraculoso achado, que logo atraiu o rei astur-leonês Afonso, o casto (789-842), e sua corte para lá, fez com que lá fixassem a pedra da primeira igreja dedicada ao Apóstolo.

Não demorou em que a boa nova, comunicada por Afonso ao próprio Carlos Magno, circulasse como um raio pelo Império do Ocidente, abrindo caminho para que se dessem os milagres.

E as peregrinações então não mais cessaram, fazendo com que num curto espaço de tempo, o santuário de Compostela tivesse a mesma importância para os cristãos das romarias dirigidas à Roma.

Na batalha de Clavijo, em 834, o rei Ramiro I, de Aragão, no aceso do combate, viu-se ajudado por um desconhecido ginete montado num cavalo branco que dava espadadas na mourama.

Sentiu que estava ao lado do Apóstolo, desde então transformado em Santiago Matamouros, aparição fundamental na vitória dele contra o emir Abderraban II:

“Santiago da Espanha/ matou os meus mouros/ desbaratou minha companhia/ quebrou minha senha/ Santiago glorioso fez os mouros morrerem: Maomé o Preguiçoso, tardou, não quis vir”.

Outras dessas repentinas ações milagrosas do santo ocorreram na longa batalha movida pelos reis espanhóis contra o Califado de Córdoba ou contra os ditos reinos dos Taifas, que mais tarde o sucederam.

Percebendo a importância simbólica do sepulcro de Compostela para o ânimo dos cristãos, Almanzor (El-Mansur), o Seyd, ministro do califa de Córdoba, realizou no ano de 997 uma inesperada sortida relâmpago na região da Galícia.

Não só saqueou e destruiu o santuário com a primeira basílica, como levou consigo o sino e as portas dela, transportadas até o sul, até Córdoba, nos ombros de cristãos escravizados.

Santiago Matamouros, Burgos, Espanha
São Fernando III, rei de Castela, quando recuperou Sevilha, obrigou os mouros a fazerem o caminho inverso carregando os mesmos sinos e portas.

O santo tornou-se o maior ícone dos cristãos na sua oposição desesperada à presença dos interesses de Maomé na Espanha, fazendo com que o seu sepulcro se tornasse fonte de atração permanente para os peregrinos vindos de todos os lugares da Europa, percorrendo os Caminhos de Santiago.

Para dar proteção a eles duas ordens militares então surgiram: a de Calatrava (1158) e a de Santiago (1173).

O êxito da campanha da Reconquista, que culminou bem mais tarde com a ocupação do Reino Nasarí de Granada em 1492, foi largamente depositado pelos cristãos nos feitos impressionantes, assombrosos, de Santiago Matamouros.

Este, por sua vez, fora promovido por Ramiro I, desde sua aparição em Cravijos, a protetor oficial da luta contra os mouros a quem toda Espanha devia obrigações:

Santiago Matamouros, catedral de Compostela
“... ordenamos e fizemos voto que por toda a Espanha, que se há de guardar por todas as partes da Espanha, que Deus nos conceda livrar-nos dos sarracenos pela intercessão do Apóstolo Santiago, de pagar perpetuamente a cada ano, a maneira de primícias sobre cada jeira de terra uma medida da melhor colheita, o mesmo de vinho, para a manutenção dos padres que residem na igreja do bem aventurado Santiago e para os ministros da mesma igreja...”

Referências bibliográficas

Braunschvig, Marcel - Notre Littérature étudiée dans les textes, Paris, Librairie Armand Colin, 1948
Brissaud, Alain - Islão e Cristandade, Lisboa, Pluma Editora, 1993
Dozy, R.-P. - Historia de los musulmanes de España, - 2 v., Barcelona, Editorial Iberia, 1954.
Köhler, Erich - L´aventure chevaleresque: ideál et réalité dans les romans courtois, Paris, Éditions Gallimard, 1956
Nájera, Rúben E. - La invención de Rolán - in CABALLERIAS Y MORERIAS
Oliveira Martins- História da Civilização Ibérica, Lisboa, Guimarães & c. Editores, 1972



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