domingo, 13 de junho de 2021

Santo Anselmo e as misteriosas vias de Deus

Santo Anselmo de Cantuária, catedral de Covington
Santo Anselmo de Cantuária,
catedral de Covington
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Santo Anselmo de Cantuária (1033 ca. – 1109), Bispo, Confessor e Doutor da Igreja, foi intrépido nos combates da Fé e defendeu a Igreja contra o Rei Guilherme, o ruivo...

Na sapiente “Vida dos Santos”, do Padre Réné François Rohrbacher (1789 – 1856), vol. VII, Editora das Américas, 1959, págs.133 e ss., lemos que os bispos ingleses decidiram sagrar Santo Anselmo como arcebispo de Cantuária mas ele recusou terminantemente, pois sabia da intromissão real neste cargo.

O santo era velho e mal conseguia carregar a si próprio, como poderia levar o fardo de toda uma Igreja?

Levaram-no ao rei Guilherme II que se encontrava gravemente enfermo.

O rei aflito disse-lhe:

“Anselmo, que fazes? Por que me envias ao Inferno? Não me deixes perecer, porque sei que estou condenado a morrer conservando este Arcebispado”.

Todos os assistentes acusavam Santo Anselmo de matar o rei.

O Santo voltou-se para os dois monges que o acompanhavam e disse: “Meus irmãos, por que não me socorreis?”

Um deles respondeu: “Se esta é a vontade de Deus, quem somos nós para resistir-lhe?”
Santo Anselmo conduzido ante o Rei Guilherme II Ilustração do Uma Crônica da Inglaterra de James Edmund Doyle
Santo Anselmo conduzido ante o Rei Guilherme II
Ilustração do Uma Crônica da Inglaterra de James Edmund Doyle

“Ai! – disse Anselmo – Vós vos rendestes mui prontamente”.

Vendo-o assim obstinado, acusaram-no de covardia. Buscaram uma Cruz tomaram-lhe o braço direito e o aproximaram do leito.

O rei lhe apresentou a Cruz mas ele fechou a mão. Os bispos empenharam-se em abri-la até fazê-lo gritar. Por fim seguraram-lhe a mão com a Cruz dizendo:

“Viva o bispo!” e entoaram o “Te Deum”. Levaram-no à igreja vizinha e sob seus protestos sagraram-lhe”.

Cantuária é a mais antiga diocese da Inglaterra e é, portanto, a sede primacial da Inglaterra. Os Arcebispos e os Primazes tinham certa influência sobre os bispos de seu país.

As comunicações com Roma eram muito demoradas e difíceis não havendo núncios apostólicos organizados.

Então havia necessidade dos bispos se apoiarem sobre um que fosse a pedra de ângulo de todos. E este era o Arcebispo de Cantuária.

Além do mais, germinava a futura Revolução no terreno temporal. Os reis queriam fazer da Igreja um instrumento de dominação material.

Queriam se assenhorear dos bens com que a Igreja socorria inúmeros pobres e mantinha o esplendor do culto divino.

Catedral de Cantuária
Catedral de Cantuária
Por outro lado, os bispos eram muitas vezes senhores feudais, e certos reis queriam se assenhorear de seus feudos

Então os monarcas queriam nomear bispos que fossem seus instrumentos nos cargos importantes.

É uma infantilidade pensar que isto não continua nos dias de hoje.

Não vejo arcebispos que façam resistência ao Presidente da República, quando este necessita ser repreendido por sua conduta.

Santo Anselmo era desejado pelo rei e pelos bispos para ser Arcebispo de Cantuária. Os bispos queriam um líder natural contra o rei.

E o rei doente achava que ia para o Inferno se não evitasse a catástrofe da má nomeação de um Arcebispo para Cantuária.

Poucas coisas fecham tanto a porta do Inferno quanto o medo dele.

Aí Santo Anselmo recusa o Arcebispado de Cantuária por algo verdadeiro: ele é velho, cansado, e tem receio de não conseguir se desempenhar num cargo tão pesado.

Tanto mais que ele devia conhecer bem o rei e os que vivem ao seu redor.

Santo Anselmo teria que travar uma luta contra o poder temporal, mas tal era a força de sua virtude e a confiança que todos tinham no auxílio da graça lhe prestaria, que todos o queriam Arcebispo.

Foi por meio dessa violência material, que talvez tivesse tido um caráter afetuoso no meio de sorrisos que houve um momento em que ele resolveu ceder.

Não coagido fisicamente, mas persuadido de que não deveria resistir. Santo Anselmo não aceitaria a sagração se estivesse convencido que outra era a vontade de Deus.

Ele teria morrido mártir, mas não teria se deixado sagrar se tal não fosse a vontade de Deus. Seria o primeiro martírio de um sacerdote que teria preferido ser morto a ser bispo...

Às vezes a graça divina se serve de meios muito estranhos, na sua sabedoria e na sua imensa liberdade de movimentos.

Meios imorais ou ilegítimos, jamais! Meios surpreendentes e desconcertantes, bem possivelmente.

Às vezes é preciso fazer até uma santa violência para com Deus.

Nosso Senhor tem a parábola admirável de um homem que está já deitado na cama e um cacete bate do lado de fora pedindo pão. Ele diz que não.

Afinal o homem é tão importuno que o dono da casa se levanta, abre a porta, dá os pães e acrescenta:

“É por causa da sua importunidade: vá embora”. Nosso Senhor explica: isto é o modelo de quem reza...

Quer dizer, quando não temos méritos, devemos ser muito insistentes.

Santo Anselmo de Canterbury, Iluminura do século XII das meditações de Santo Anselmo
Santo Anselmo de Canterbury, Iluminura do século XII das meditações de Santo Anselmo
Porque à força de insistência, como que caceteamos a Deus Nosso Senhor e obtemos aquilo que nós queremos.

Se tudo fosse clarinho, limpinho, ambiente de leiteria, a História da Igreja não seria a História da Igreja de Deus.

Faltaria a ela o santo mistério. Quanto mais é divino, tanto mais convém que nele haja mistérios.

É uma marca de superioridade divina que impõe respeito aos homens.

São Tomás de Aquino diz das palavras obscuras da Escritura que para a formação da mente humana, o divino precisa ter certos mistérios.

E por isto às vezes Deus fala misterioso, para exprimir Sua grandeza, Sua divindade e, mostrar quanto Ele é insondável e cheio de Sabedoria.

Só uma Igreja Santa e divina pode ter uma tal fortaleza, uma grandeza tal que nEla caiba mistério tão profundo, mistério tão tenebroso, mistério tão cheio de trevas quanto a Ressurreição.

Também é preciso a Igreja ser divina para não morrer na nossa era de mistério e no fim se mostrar gloriosa e resplandecente como se tivesse ressuscitado!

O pequeno fato misterioso da vida de Santo Anselmo nos faz voar às regiões muito mais altas dos grandes mistérios da Igreja Católica. E

Que Nossa Senhora num ato de amor pelo mistério tremendo da crise da Igreja diante do qual estamos, nos dé a certeza de que virão as grandes explicações.



(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 20 de abril de 1967, sem revisão do autor. Apud PlinioCorreadeOliveira.info)

domingo, 6 de junho de 2021

São Nicolau de Flue: oração do guerreiro, místico e camponês perfeito

São Nicolau de Flue, o guerreiro perfeito, místico e camponês
São Nicolau de Flue, o guerreiro perfeito, místico e camponês
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No livro do Pe. Charles Profillet “Les Saints Militaires” (Nabu Press, 2012), lemos a respeito do santo patrono da Suíça.

“Nicolau de Flue nasceu no dia 25 de março de 1417, falecendo no mesmo dia no ano de 1487.

“Era natural do cantão de Untervalden, na Suíça. Filho de modestos agricultores, demonstrou desde criança, aptidões invulgares de inteligência e piedade.

“Por isso seus pais procuraram dar-lhe uma educação um pouco melhor do que a que seria ministrada a um futuro lavrador.

“Nicolau sentia enorme inclinação para a vida contemplativa. Tinha visões que o convidavam a isso.

“Mortificava-se tão violentamente que sua mãe temeu por sua saúde e procurou orientá-lo nesse sentido.

“Mesmo com tal vocação, Nicolau casou-se, tendo numerosa prole e atingindo seus descendentes as mais altas dignidades do país.

“Casado, continuou com seu gênero de vida; levantava-se cada noite para rezar e todos os dias recitava o Saltério em honra de Nossa Senhora.

“Aos 23 anos foi ele chamado a lutar contra o cantão de Zurique, que se rebelara contra a confederação Helvética”.
São Nicolau de Flue, o guerreiro patrono da Suíça
São Nicolau de Flue, o guerreiro patrono da Suíça
A Suíça é dividida em cantões ou províncias tão pequenas como municípios, que na Idade Média eram quase independentes.

Tinham uma vaga confederação e viviam numa certa luta porque cada grupo de cantões – de língua francesa, alemã, italiana e romanche – era trabalhado pelo vizinho que lhe era afim linguisticamente.

Esse foi o século militar da Suíça e os suíços forneciam tropas mercenárias para a Europa inteira. A Guarda Suíça, que ainda serve os papas, é uma reminiscência dessa tradição.

“Quatorze anos mais tarde, ainda nessa luta, comandou como capitão, uma companhia de cem homens.

“Nicolau, na guerra, lutava sempre tendo numa das mãos a espada e, na outra, seu rosário. Soldado de bravura invulgar, foi agraciado com a mais alta condecoração de sua terra”.

Que linda cena esse homem valoroso entrar no campo de batalha tendo em uma das mãos a espada, e com a outra segurando naturalmente o escudo e o rosário.

O ambiente que cerca os objetos de piedade, foi mudando, ao longo dos séculos, por causa de uma mal compreendida devoção.

Quem, vendo hoje um rosário, dirá: “Esse objeto me lembra um guerreiro”? Pelo contrário, a maioria das pessoas dirá: “Esse objeto me lembra um homem incapaz de guerrear...”

A religião “água com açúcar” ou “heresia branca” foi apagando a ideia do católico guerreiro e o rosário parece o símbolo do homem incapaz de guerrear. O que é uma grave injustiça para com o rosário.

Oferecem-lhe um cargo público, mas ele declara: Não, eu sou de uma origem muito humilde, por isso não quero. Os senhores ouviram falar de um fato assim no século XX ou XXI?

Vê-se o contrário: rejeitar um indivíduo porque ele é de condição alta e preferir um de condição baixa. A escala de valores se inverteu completamente.

“Ao voltar para casa, quiseram fazê-lo prefeito, mas ele não aceitou por causa da humildade de sua origem.

“Entretanto, exerceu com rara habilidade o cargo de juiz. Deixou-o após nove anos, para se dedicar exclusivamente ao cuidado de sua alma. Suas visões não o deixavam”.
Isso precisa ser visto na atmosfera suíça: uma montanha com gado nas encostas, paisagem muito bonita, ele reunindo ao pôr do sol o gado com um chifre que serve de corneta, e depois rezando o Ângelus sozinho e guardando o gado no estábulo.

Casa de São Nicolau, em Sachseln
Casa de São Nicolau, em Sachseln
Durante todo o tempo ele teve visões. Guerreiro, juiz, ou pastor tinha visões. Há algum juiz contemporâneo que tenha visões?

Que coisa linda, num tribunalzinho do lugar, as pessoas estão discutindo para o juiz Nicolau de Flue decidir uma causa.

Ele está sentado, de repente, o olhar dele se torna extático, se ilumina, vê uma cena celeste qualquer, todo mundo para, os ódios se desarmam; quando cessa a visão, as partes estão reconciliadas. O pleito está resolvido.

Quem sabe de alguém assim, me avise. Como tudo mudou…!

Aí está feita uma visão, num crepúsculo ou numa aurora feéricas da Suíça, em que a neve fica rosada, azul claro, em que no céu passam todas as cores, e no meio disso um Anjo numa inocência daquela natureza…. Isso é uma coisa absolutamente superior!

“Guardando o rebanho viu, certa ocasião, um lírio maravilhoso que saía de sua própria boca e elevava-se até às nuvens, mas caía sobre a terra e era devorado por um cavalo.

“Compreendeu, então, que a contemplação das coisas celestes em sua vida, era frequentemente absorvida pelos cuidados materiais”.
É uma coisa maravilhosa! Um lírio brilhante! Depois, cai de novo e um cavalo o come.

Ele se elevava, às vezes, a considerações muito altas. Se acontece a alguém ter algum pensamento muito elevado e depois se voltar para as coisas da terra seja devoto de São Nicolau de Flue, que tinha o mesmo problema.

Peçamos a graça de não vulgarizar, na vida de todos os dias, os favores celestes. Os santos tiveram as mesmas dificuldades que nós temos, e Nossa Senhora os socorreu maravilhosamente porque eram pessoas de oração e de amor de Deus.

São Nicolau de Flue se despede de sua esposa e 10 filhos
São Nicolau de Flue parte para a guerra e se despede de sua esposa e 10 filhos
Quem, vendo hoje um rosário, dirá: “Esse objeto me lembra um guerreiro”? Pelo contrário, a maioria das pessoas dirá: “Esse objeto me lembra um homem incapaz“Abandonou, então, mulher e filhos e fez-se eremita.

“Tornou-se um extraordinário extático”.
Certamente a mulher concordou, senão não seria santo.

“Extático” é aquele que tem êxtases, ou que fica parado olhando a visão.

“Por anos, alimentou-se somente da Santa Eucaristia, recebida uma vez por mês”.

“Amado e venerado por seus concidadãos, que muitas vezes o chamaram para apaziguar rixas entre os cantões, ele sempre obteve êxito nessas missões”.
Aqueles cantões tinham rixas e até guerras. No mais das vezes, uma das partes não tinha razão ou as duas partes estavam de má fé e para evitar o derramamento de sangue, iam procurar o santo.

E São Nicolau de Flue nunca foi malsucedido na sua missão.

Qual foi a missão em que a ONU foi bem-sucedida? Também, com que confiança se procura um santo, e com que mil reservas se procura a ONU? Do que adianta um aparato jurídico, quando falta a santidade?...

Casa natal de São Nicolau de Flue
“Pouco antes de morrer, Nicolau foi atingido por dores violentas. Ah, como a morte é terrível, dizia ele. Mas exalou o último suspiro com grande calma”.

Há uma concepção “água com açúcar” ou “heresia branca”, segundo a qual o santo nunca tem medo de morrer.

Não é verdade. Há muitos santos que morreram no terror da morte, mas Deus os sustentou, e no fim, tiveram uma morte calma.

Ele teve dores violentíssimas e dizia: “como a morte é terrível”. Mas depois entregou a alma a Deus na tranquilidade.

“Seus restos mortais foram depositados na igreja de Sachseln, aldeia natal do bem-aventurado. 

“Quem a visita hoje vê, sob o altar, o esqueleto do Irmão Klaus como ele é chamado pelos fiéis, ornado de ouro e diamantes, trazendo ao pescoço condecorações de numerosas ordens militares que foram conquistadas pelos seus descendentes ao servirem outros países”.

Sachseln, onde repousam os restos de São Nicolau
Sachseln, onde repousam os restos de São Nicolau
Como ele foi santo e militar, as grandes Ordens militares lhe mandam condecorações que cobrem o esqueleto.

Seus descendentes, ao conquistarem insígnias condecoravam o cadáver dele com elas.

Em vida teve uma lutazinha entre cantões, agora está constelado de Ordens militares. Que respeito à tradição e que amor ao passado isso significa!

Os que negam a hereditariedade levam um verdadeiro soco. O herói que tira a condecoração de seu peito para honrar o santo seu antepassado!

Porque é mais bonito ser descendente de São Nicolau do que estar coberto de todas as honras da terra. Isso é um gesto rico de significados.

A Europa está repleta de coisas dessas densas de ensinamentos. Europa sagrada!...

Aqui no Brasil Santo Antônio de Pádua e de Lisboa é coronel do exército brasileiro.

ORAÇÃO DE SÃO NICOLAU DE FLUE

Meu Senhor e meu Deus,

arrancai de mim mesmo

tudo o que me impede de ir a Vos.

Meu Senhor e meu Deus,

dai-me tudo aquilo

que me conduz a Vos.

Meu Senhor e meu Deus,

tirai-me de mim mesmo

e entregai-me todo a Vos.


São Nicolau de Flue (1417-1487), padroeiro nacional da Suíça festa: 25 de Setembro.

“Um contemporâneo descreveu o Beato Nicolau como um homem de estatura elevada; sua cela tinha seis pés de altura (1,82m), o que era o limite extremo para ele se manter de pé.

“Magro, a ponto de parecer feito somente de pele e ossos, sua pele era bronzeada. À medida que foi envelhecendo, o cabelo, no alto de sua cabeça, adquiriu um tom cinza escuro.

“Duas mechas de barba desciam de seu queixo. Tinha os olhos negros e serenos, o olhar enérgico e penetrante. O som de sua voz era másculo, digno e imponente.

“Seus pés tocavam a terra, mas seu espírito parecia pairar nas regiões celestes”.
Assim deve ser um homem! Como é diferente de certas imagens nas igrejas que se pudessem falar pronunciariam um som roufenho qualquer, como caricatura de sacristão.

Este é nosso preito de admiração a São Nicolau.

Que ele nos dê a coragem nos dias difíceis que esperam todo homem, de caminhar para o inimigo com uma arma na mão, um rosário na outra e tendo visões e revelações.

Isso é o guerreiro perfeito.

São Nicolau de Flue (1417-1487) é o padroeiro nacional da Suíça.

Nos últimos anos de vida seu único alimento foi a Sagrada Comunhão.

Ficou famoso em toda a Europa onde grassava incubada a revolta protestante contra a Presencia Real de Cristo na Ssma. Eucaristia.

Foi sepultado em Sachseln.

Em 1947 foi canonizado por Pio XII.

(Fonte: excertos com adaptações de palestra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no dia 6 de abril de 1971. Sem revisão do autor)


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quarta-feira, 2 de junho de 2021

Na festa de Corpus Christi, o hino “Ave Verum”
(“Salve, ó verdadeiro corpo”)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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Na Idade Média foram compostas muitas músicas e poesias religiosas em louvor do Santíssimo Sacramento.

Esta grande devoção teve, aliás, imenso incremento no período medieval.

Podemos então dizer que ela ‒ aperfeiçoada pela Contra-Reforma ‒ chegou até nós impregnada do perfume da Idade Média.

A presencia real de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade na Sagrada Eucaristia está fundamentada nas próprias palavras de Cristo na Última Ceia: “Este é meu corpo, esta é minha sangue”.

A Fé na presença real de Cristo na Eucaristia foi professada universalmente por toda a Igreja desde sua fundação.

Só com o protestantismo que apareceram contestações, aliás mais próximas da chicana do que qualquer outra coisa. 
 
Foram sobejamente refutadas pelos Doutores e notadamente pelo Concílio de Trento.

Na crise da fé no século XX, reapareceram falsos teólogos que pretenderam reviver os erros protestantes com outro nome.

É o malfadado progressismo, que tem menos fundamento na verdade que os próprios protestantes. 
 
Todos esses erros acabarão ficando à margem da História, como já ficaram os de Calvino, Zwinglio, Melanchton ou Lutero.

Elevação do cálice na Missa, Dorchester Abbey, ©Fr Lawrence OPNo século XI, portanto em plena Idade Média, a Igreja aprofundou o estudo racional da Presença Real.

Esse genuíno desenvolvimento do dogma católico gerou um grande movimento de piedade eucarística.

Um dos seus momentos culminantes foi a instituição da festa de Corpus Christi, em 1264.

Como o povo penetrado de verdadeira fé aspirava ver a Deus feito carne na Hóstia consagrada, foi introduzido na Missa o rito da elevação. Ele acontece logo depois da Consagração.

Durante a elevação, os medievais faziam soar um sino especial, e os fiéis espalhados pela catedral ou pela igreja acorriam para ver e adorar a Hóstia divina.

Também se acendia um círio num alto candeeiro. 
Posteriormente acendeu-se um castiçal pequeno, também chamado de palmatória, que assim ficava até a comunhão, para significar a presença real de Cristo na Eucaristia.

Nesses felizes tempos medievais em que florescia a fé foram compostos vários hinos ao Santíssimo Sacramento cantados até hoje, ou, pelo menos, até que a desordem progressista não os bloqueou. É de se esperar que essa sabotagem não dure muito.

São Tomás de Aquino, Vaticano

Entre esse hinos fiéis reflexos do dogma católico figura o Ave Verum em posição de destaque.

Ele cantava-se especialmente após a Consagração, quando o verdadeiro corpo de Cristo estava realmente presente no altar, pois o hino começa “Salve, ó verdadeiro corpo”.


Ele fez outros hinos também famosíssimos, cheios de lógica e unção, consagrados a Cristo Sacramentado.


Citemos, pelo menos, o Pange língua, o Verbum supernum prodiens, o Sacris solemnis, o Adoro te devote e a não menos divinamente inspirada seqüência Lauda, Sion, Salvatorem.

Eis o texto do Ave Verum, com sua tradução ao português e sua partitura (gregoriano):

Clique aqui para ouvir (Coro da TFP americana):


Ave verum corpus natum de Maria Virgine
Salve, ó verdadeiro corpo nascido da Virgem Maria

Vere passum, immolatum in cruce pro homine
Que verdadeiramente padeceu e foi imolado na cruz pelo homem

Cuius latus perforatum fluxit aqua et sanguine
De seu lado transpassado fluiu água e sangue

Esto nobis praegustatum mortis in examine
Sê para nós remédio na hora tremenda da morte

O Iesu dulcis, o Iesu pie, o Iesu fili Mariae.
Ó doce Jesus, ó bom Jesus, ó Jesus filho de Maria.

As exclamações finais foram objeto de pequenas adaptações segundo as dioceses.

Fonte: Pe. Manuel Jesús Carrasco Terriza, “Cuerpo de Cristo, arte y vida de la Iglesia”.

O AVE VERUM em gregoriano, monges de Santo Domingo de Silos :



AVE VERUM segundo Wolfgang A. Mozart (interpretação do Coro do King's College, Inglaterra :

domingo, 30 de maio de 2021

Os Servitas de Maria e a escravidão a Nossa Senhora: Contra-Revolução

Sete Santos Fundadores da Ordem dos Servitas
Sete Santos Fundadores da Ordem dos Servitas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Os Servitas de Maria foram sete Santos Fundadores, confessores, membros da aristocracia florentina que deram à sua Ordem a missão de propagar o culto das Dores da Bem-Aventurada Virgem Maria no século XIII.

É uma das mais antigas ordens fundadas para propagar a devoção a Nossa Senhora.

O muito bonito título de Servitas de Maria quer dizer escravos de Maria.

Como é evidente, prenuncia a devoção de São Luís Maria Grignion de Montfort, que é a devoção da escravidão no sentido próprio da palavra: um despojamento completo de todos os bens, passados, presentes e futuros inclusive os espirituais, os méritos de nossas boas obras que são postos nas mãos de Nossa Senhora.

Esse título é muito bom para marcar a diferença entre a boa piedade católica e a Revolução.

Há teólogos contemporâneos que consideram a expressão que São Luís Grignion de Montfort usa em seu Tratado uma coisa indigna do homem do século XX.

Era uma coisa que podia ser utilizada no passado, mas em nossa época, em que não há mais servos, ninguém é servo de Nossa Senhora.

Então, a dignidade humana não comporta a escravidão nem em relação a Nossa Senhora.

Esta afirmação é igualitária e por isso de caráter revolucionário.

Em relação a Nossa Senhora, Rainha absoluta do Céu e da Terra, todo mundo é servo e é uma honra ser servo dEla.

Os Sete Santos Fundadores ecebem o hábito de mãos de Nossa Senhora, anónimo ca. 1700
Os Sete Santos Fundadores recebem o hábito de mãos de Nossa Senhora, anônimo ca. 1700
Em relação a Ela o desejo de nossa vida é sermos verdadeiros escravos dEla. Assim somos verdadeiramente filhos, porque nós a amamos como filhos e queremos servi-La como escravos e como servos verdadeiros.

Esses sete santos fundadores dessa Ordem religiosa lhe deram o título de Ordem dos Servitas, quer dizer, a Ordem dos escravos.

A Igreja canonizou estes sete santos, instituiu, aprovou, promulgou as regras dessa Ordem, com o nome de servos.

Portanto, o magistério da Igreja, por várias formas, indica que em relação à Nossa Senhora devemos ser servos.

O espírito demoníaco da Revolução não quer nenhuma espécie de superioridade, não se aguenta em sacudir a hierarquia na terra – eclesiástica ou temporal – até sacudir as desigualdades sobrenaturais.

Não quer que haja a desigualdade imensa que Nosso Senhor pôs entre a Mãe dEle, ― como rainha de todos os anjos, de todos os santos, de todo o universo ―, e todas as outras criaturas.

Quando Nossa Senhora pede sozinha uma coisa, Ela obtém. Se todos os anjos e santos do céu pedissem algo sozinhos, sem o concurso dEla, não obteriam. De tal maneira o reinado dEla é completo e absoluto.

Não há maior disparate do querer pôr isto em dúvida. Pois bem, este é o espírito do igualitarismo e esta é a raiz do ateísmo.

São Amadeo dos Amidei (d. 1266), um dos sete fundadores
São Amadeo dos Amidei (d. 1266), um dos sete fundadores
A Revolução tem ódio de que exista um Senhor no Céu, que domine sobre nós, porque não quer em lugar algum, nenhuma espécie de senhor.

Karl Marx chamava isto de alienação no sentido da palavra alienum. Alienação é o ato pelo qual o homem cede o domínio sobre si mesmo a um outro homem.

Então, é alienação que um patrão mande no empregado; é alienação que um pai mande no filho; é alienação que o esposo mande na esposa; é alienação que o nobre mande no plebeu; é alienação que o professor mande no aluno. Toda forma de autoridade é uma alienação.

E ele dizia que a pior alienação é do homem para com Deus. Que Deus não existia, é um mito para alienar o homem.

O que deve haver é cada homem possuir-se a si próprio, ser inteiramente independente e não obedecer a ninguém. Este é o ideal do marxismo, é o ideal da Revolução.

O que devemos pedir aos santos servitas?

Se esses santos servitas do século XIII ressuscitassem hoje e presenciassem essas abominações, e as vissem proferidas por lábios católicos o que eles diriam?

Que indignação teriam? Que censuras fariam, que réplicas?

Devemos pedir a eles que intervenham na terra e ajudem a acender a verdadeira devoção a Nossa Senhora entre os homens com o senso da hierarquia e da Contra-Revolução.


(Fonte: excertos de palestra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no dia 11 de fevereiro de 1964, sem revisão do autor apud Plinio Corrêa de Oliveira.info)




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