domingo, 12 de janeiro de 2020

Rimini: onde a mula se ajoelhou ante a Eucaristia

Santo Antonio de Pádua e o milagre da mula, Joseph Heintz o jovem (1600-1678)
Basilica dei Santi Giovanni e Paolo, Veneza
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Santo Antônio de Pádua (1195 — 1231) pregou enfrentando grandes contrariedades e lutas.

A Igreja era fortemente contestada por movimentos heréticos que não aceitavam a presença real de Nosso Senhor na Eucaristia, segundo lembrou a agência Zenit.

Entre esses opositores militavam hereges cátaros, patarines e valdenses.

Na cidade italiana de Rimini, o líder do erro cátaro, de nome Bonovillo, foi particularmente insultante.

Por volta do ano 1227 ele desafiou a Santo Antônio que provasse com um milagre a presença real do Corpo de Cristo na Eucaristia.

A provocação resultou no famoso “milagre eucarístico de Rimini”, ou “milagre da mula”, acontecido nessa capital da Emília-Romagna.

O desafio e o milagre conseguinte ficaram consignados em vários livros históricos – entre os quais o Benignitas, uma das primeiras fontes sobre a vida do santo – que narram episódios análogos acontecidos também em Toulouse e em Bourges.

A igreja que lembra o milagre e
na frente o templete no local exato da praça
A antiga biografia A Assídua traz as palavras exatas de Bonovillo no ‘desafio’, citadas pelo site “Miracoli Eucaristici”:

“Vou manter trancada – disse ele – uma das minhas bestas por três dias, para lhe fazer sentir a pontada da fome.

“Depois de três dias, vou trazê-la a público e vou lhe mostrar a comida preparada.

“Você virá com o que você acha que é o Corpo de Cristo.

“Se o animal, negligenciando a forragem, se apressar em adorar o teu Deus, compartilharei a fé da tua Igreja”.

Teria sido imprudente aceitar uma provocação de tão baixo nível, mas o santo agiu com inspiração sobrenatural.

O encontro foi marcado na Praça Grande (atual Praça dos Três Mártires), atraindo uma multidão enorme de curiosos.

No dia combinado, Bonovillo apareceu com a mula e com a cesta de forragem.

Após ter celebrado a Missa, chegou Santo Antônio à praça, trazendo em procissão a Hóstia consagrada dentro do ostensório.

Voltando-se para a mula, disse estas palavras:

“Em virtude e em nome do seu Criador, que eu, embora indigno, seguro em minhas mãos, digo-te e ordeno-te:

“avança prontamente e presta homenagem ao Senhor com o devido respeito, para que os ímpios e hereges entendam que todas as criaturas devem se humilhar diante de seu Criador, a quem os sacerdotes seguram nas mãos sobre o altar”.

Santo Antonio e o milagre da mula que adorou o Santíssimo Sacramento,
anônimo, Museu do Prado
O animal, apesar de esgotado pela fome, deixou de lado o feno, e aproximou-se para adorar a hóstia consagrada.

A mula inclinou os joelhos e a cabeça, provocando a admiração e o entusiasmo dos presentes.

O blasfemo oponente, ao ver o milagre, jogou-se aos pés de Santo Antônio e abjurou publicamente os seus erros, tornando-se a partir daquele dia um dos mais fervorosos cooperadores do Santo.

Em memória desse episódio foi construída na Praça Três Mártires uma igrejinha dedicada a Santo Antônio com uma capela que a precede, obra de Bramante (1518).

A capela, no entanto, foi arrasada durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje, ao lado do Santuário de São Francisco de Paula, pode-se visitar uma nova igreja denominada templete, consagrada no dia 13 de abril de 1963 em substituição à originária.

Um tabernáculo de prata dourada reproduz o pequeno templo exterior, e um painel do altar em bronze mostra o milagre da mula.

A igrejinha é sede da Adoração Eucarística perpétua.

O milagre da mula aparece representado na iconografia de Santo Antônio desde o século XIII.

O milagre também impulsionou o movimento eucarístico que deu na instituição da festa solene do Corpus Christi pelo Papa Urbano IV em 1264.



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domingo, 5 de janeiro de 2020

Os Reis Magos e a Estrela de Belém, segundo o maior dos exegetas católicos

Adoração dos Reis Magos, igreja do Santíssmo Sacramento, Buenos Aires.









Os varões privilegiados

Os varões privilegiados, conhecidos pela Cristandade como Três Reis Magos, foram escolhidos para estar entre os primeiros — depois de Nossa Senhora, São José e os pastores — a adorar o Divino Infante na gruta de Belém.

Quem foram eles?

E o que foi propriamente a radiosa estrela que os conduziu pelas áridas montanhas da Judéia, para se colocarem junto ao Salvador?

Cornélio a Lapide (1567-1637) no-lo explica em seus comentários sobre o trecho do Evangelho de São Mateus onde o episódio é narrado:

“Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, nos dias do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo:

‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’”(Mt 21, 12).

Judá significa aqui a tribo de Judá, à qual a tribo de Benjamim aderiu após o cisma das dez tribos, provocado pelo rei Jeroboão. Essas duas tribos formaram o reino de Judá.

São Mateus acrescenta a referência a Judá para distinguir Belém da cidade de mesmo nome situada na tribo de Zebulão, na Galileia (cf. Josué, 19, 15).

Assim também comenta São Jerônimo.

Este Herodes, aqui citado por São Mateus, era o Antipas, filho de Herodes o Grande, idumeu de raça, que o Senado estabeleceu, por recomendação de Antônio, como primeiro rei da Judéia conquistada pelos romanos (cf. Flávio Josefo, livro 14, Ant. cap. 18).

São Mateus faz menção a Herodes para deixar claro que o cetro fora transferido de Judá para um alienígena, como o era Herodes.

Portanto havia chegado o tempo do Messias ou Cristo, pois o patriarca Jacó havia predito que esse deveria ser o sinal de seu advento (Gen. 49, 10).

Assim comentam São João Crisóstomo e Teofilato.

Herodes o Magno ordena a massacre dos inocentes de Belém
Herodes Arquelau ordenou a massacre dos inocentes de Belém
era edomita, descendente de Esaú, detestado pelo povo.
Herodes, o Grande, ciente dessa profecia, aplicou o oráculo a si mesmo para fortalecer seu reino.

Queria ser aceito como Messias, e por isso construiu um templo magnífico para os judeus e o dedicou no aniversário do dia em que iniciou seu reinado (Cf. Josefo, livro 15, Ant. c. 14 e livro 20, c. 8). Seu filho Herodes Arquelau mandou matar os Santos Inocentes de Belém.

Herodes Antipas, meio irmão do anterior e filho de Herodes o Grande, foi quem mandou decapitar São João Batista e revestiu Nosso Senhor com a túnica branca e zombou d’Ele em sua paixão.

Seu filho, Herodes Agripa, matou São Tiago, irmão de São João, e morreu ferido por um anjo.

E o filho deste Agripa foi Herodes Agripa II, diante de quem pleiteou São Paulo quando prisioneiro (Atos 25, 23). Sobre os crimes dos Herodes e seu funesto fim, veja: Achada uma civilização perdida: o reino maldito de Esaú

Magos vieram do Oriente a Jerusalém

A palavra magos era comum entre os persas, donde a tradução persa de São Mateus trazer aqui magusan — magos ou sábios, astrólogos ou filósofos.

A palavra parece derivar do hebraico, oriunda do radical haga, meditar; daí magim, aqueles que meditam.

Com efeito, a meditação é a chave da sabedoria, como diz Ptolomeu. Portanto, aqueles que meditam são ou se tornam sábios.

De acordo com São Jerônimo, os caldeus chamavam seus filósofos de magos, seguindo os hebreus.

Daí os árabes, sírios, persas, etíopes e outros orientais — cujas línguas são derivadas do hebraico, ou a ele semelhantes — chamarem seus sábios e astrólogos de magos, segundo asseveram Plinio e Tertuliano.

A expressão correspondente em grego significa das partes orientais, indicando que esses Magos vieram de várias regiões ou províncias do leste.

A opinião comum dos fiéis é que eles eram reis, régulos ou príncipes.

Esta crença é claramente defendida por São Cipriano, São Basílio, São Crisóstomo, São Jerônimo, Santo Hilário, Santo Isidoro, São Beda e Tertuliano, todos citados por Maldonado, Barônio e Barradio.

No entanto, São Mateus não os chama de reis, e sim de magos, porque coube a eles reconhecer Cristo por meio da estrela.

Daí também que eles sejam chamados de reis de Tarsis e Reis da Arábia e de Sabá (Salmo 71, 10).

Como afirma São Leão, os Magos pensavam que o rei dos judeus deveria ser procurado em Jerusalém, pois na cidade real estavam os sumos sacerdotes, escribas e doutores da lei, os quais, pelos oráculos proféticos, provavelmente sabiam onde e quando Cristo deveria nascer.

E de fato eles informaram que o Messias nasceria em Belém.

Segundo São Mateus, os Reis Magos reconheceram o nascimento de Cristo numa estrela
Segundo São Mateus, os Reis Magos reconheceram o nascimento de Cristo numa estrela
Os magos foram homenagear o rei dos judeus que acabara de nascer

Os Magos, embora tivessem a orientação da estrela, prudentemente desejavam consultar também os intérpretes vivos da vontade de Deus.

E foi assim que a estrela se retirou por um tempo, como que obrigando-os a procurar os escribas.

Pois é vontade de Deus que os homens sejam ensinados a encontrar o caminho da salvação por meio dos homens e doutores que Ele próprio indica.

Seriam três, de acordo com as três espécies de presentes que ofereciam: ouro, incenso e mirra (Santo Agostinho, Serm. 29 e 33, de tempore).

A tradição piedosa dos fiéis favorece a mesma opinião, e a Igreja a introduz no ofício da Epifania. São Beda, no início de sua Collectanea, assim os nomeia e descreve:

“O primeiro foi Melchior, ancião de cabelos grisalhos, barba longa e abundante, que ofereceu ouro ao Rei Senhor.

“O segundo foi Gaspar, jovem, imberbe e rubicundo, que honrou a Deus pelo incenso, uma oblação digna da divindade.

“E o terceiro Baltasar, de pele escura e barba cerrada, que pela mirra significou que o Filho do Homem deveria morrer para a salvação dos homens”.

É preciso ressaltar a fé e a grandeza da alma dos Magos, que em uma cidade real procuravam outro rei, em vez do monarca reinante, sem temer a ira e o poder de Herodes, porque confiavam em Deus.

É provável que alguns outros, além dos Magos, tenham visto a estrela.

Pois, se ela era grande, brilhante e visível para eles, por que não o seria para outros?

Deus quis que Cristo fosse conhecido por todo o mundo.

Ainda assim, ninguém seguiu a estrela com os Magos, tanto por não lhe entenderem o mistério, quanto por causa dos cuidados mundanos.

Aprendemos assim quão necessária é a graça poderosa e eficaz para buscar a Cristo.

A respeito disso nos admoesta São João: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair” (Jo. 6, 44).

O eclipse do sol, que ocorreu durante a Paixão de Cristo, foi visto em Atenas por São Dionísio Areopagita, e ele se converteu posteriormente ao saber que o eclipse fora no mesmo dia e hora da crucifixão de Nosso Senhor.

Os Reis Magos, mártires de Cristo, ganharam a glória dos Céus

O autor da Obra imperfeita sobre São Mateus, citado por São João Crisóstomo, afirma que, depois da Ressurreição de Cristo, o Apóstolo São Tomé foi ao país desses Magos, batizou-os e os associou à obra da pregação do Evangelho.

Não poucos exegetas afirmam que esses Magos, enquanto pregavam a Cristo, foram mortos pelos idólatras e ganharam a coroa do martírio.

Eles se ofereceram a si mesmos em holocausto a Cristo, como ouro, incenso e mirra.

Em sua Crônica, L. Dexter diz que “na Arábia Feliz, na cidade de Sessânia, ocorreu o martírio dos três santos Reis Magos, Gaspar, Melchior e Baltasar”.

De Sessânia seus restos sagrados foram trazidos para Constantinopla, de lá para Milão, e de Milão para Colônia, onde são venerados por grande concurso de fiéis.

A estrela apontou o Rei dos judeus

A estrela era do Rei dos judeus, isto é, de Cristo ou Messias recém-nascido.

Parece que daí essa estrela estendeu seus raios com maior comprimento e brilho na direção de Judéia — da mesma maneira que os cometas alongam suas caudas em direção a tal ou tal país — para que os magos entendessem que deveriam ir em direção da Judéia, onde o Messias nasceria.

Sabiamente diz São Gregório:

“Todos os elementos testemunharam que seu Criador havia chegado. 

“Os céus O reconheceram como Deus, e assim enviaram sua estrela.

“O mar O reconheceu, sentindo-O andar sobre suas ondas.

“Quando de sua morte, a Terra O reconheceu pelos terremotos.

“O sol O reconheceu ocultando seus raios. E também as rochas e as pedras ao se romperem.

“O inferno O reconheceu, ejetando os mortos que continha.

Contudo, Aquele a quem os elementos inanimados sentiram ser o Senhor não foi reconhecido como Deus pelos corações dos judeus incrédulos” (Hom. 10).

Na estrela, os Magos viram que Cristo havia nascido

Reis Magos chegam até a gruta de Belém
Reis Magos chegam até a gruta de Belém
Balaão havia profetizado a respeito: “Nascerá uma estrela de Jacó” (Num. 24, 17).

Mas os Magos eram sucessores de Balaão, e também sabiam por meio da Sibila que essa estrela era precursora de Cristo.

Essa é a opinião de São Basílio, São Jerônimo, Orígenes, São Leão, Eusébio, Próspero, São Cipriano, Procópio e outros. Donde Suetônio (De vita Caesarum, Vespasianus) e Cícero (lib. 2, de Divinat., e Orosio, lib. 6, c. 6) dizerem que era então uma crença geral que um rei surgiria da Judéia e teria um domínio universal.

Provavelmente por um instinto e uma revelação divina, inspirados por um dom celestial,

eles ouviram uma língua do céu dizer-lhes que Cristo nascera na Judéia.

E assim seguiram a estrela até Belém e o berço de Cristo” (Santo Agostinho, Serm. 2 de Epiph.).

Com efeito, o brilho e a majestade da estrela de tal modo eram grandes, que os Magos entenderam que ela pressagiava algo divino, isto é, a vinda de Deus encarnado, como lhes inspirou o Espírito Santo.

O semblante divino de Cristo menino lançava um raio de luz celestial que iluminava os olhos, mas sobretudo a mente dos Magos, de modo que eles percebessem que aquele recém-nascido não era um mero homem, mas o Deus verdadeiro.

Pois, como diz São Jerônimo comentando o nono capítulo de São Mateus:

“O esplendor e a majestade da divindade oculta, que brilhava mesmo em seu rosto humano, foram capazes de atrair imediatamente aqueles que O contemplavam”.

A estrela de Belém seria um novo astro? Um anjo?

Nada mais apropriado do que uma estrela para conduzir os três Reis Magos a Cristo, o Rei dos reis, pois uma estrela tem a aparência de uma coroa real, com seus raios resplandecentes.

Portanto, uma estrela é um emblema de um rei e de um reino, donde Deus prometer a Abraão:

“Olha para o céu; e conta, se podes, as estrelas”.

Depois acrescentou: “Assim será a tua descendência” (Gen. 15, 5).

Aqui Deus designou os reis de Israel e Judá que deveriam brotar de Abraão, mas especialmente a Cristo Rei.

Por isso Deus diz a Abraão explicitamente: “E de ti sairão Reis” (Gen. 17, 6).

Assim diz São Fulgêncio: “Quem é esse Rei dos judeus? Pobre e rico, humilde e exaltado, carregado como um recém-nascido e adorado como um Deus; pequeno na manjedoura, imenso no céu, indigente entre panos, precioso entre as estrelas” (Serm. in Epiph. 5).

Pode-se perguntar de que tipo e quão grande foi essa estrela.

Era da mesma natureza das demais? Ou era peculiar e diversa delas?

O autor de De mirabil. S. Script. sustenta que essa estrela era o Espírito Santo, que desceu sobre Cristo como uma pomba, e por meio de uma estrela guiou os Magos (livro 3, c. 40).

Orígenes, Teofilato, São Crisóstomo e Maldonado pensam que se tratava de um anjo; porque, de fato, um anjo era motor e, por assim dizer, condutor da estrela.

Outros defendem que era um astro real semelhante ao que apareceu na Constelação de Cassiopeia no ano de 1572 d.C.

Estrela de Belém, tapeçaria Museu do Louvre, Paris
Estrela de Belém, tapeçaria Museu do Louvre, Paris
Ainda outros pensam que era um cometa.

Mas eu respondo que era uma estrela nova e desconhecida, inteiramente diferente de outras estrelas, formada pelos anjos para arrebatar a admiração dos Magos e levá-los à certeza do presságio de algo novo e divino.

Era superior às outras estrelas em nove privilégios e portentos:

1. Quanto à sua criação, esta estrela superou todas as demais, que foram produzidas no quarto dia da Criação (Gen. 1, 14), enquanto aquela foi produzida na própria noite da Natividade de Cristo.

Era, portanto, uma nova estrela, nunca vista antes nem depois desse período. Assim comenta Santo Agostinho (liv. 2, Contra Faustum, c. 5).

2. Quanto à matéria, os anjos formaram-na a partir do ar condensado, infundindo-lhe seu esplendor.

3. Quanto ao local, as demais estrelas estão no firmamento, mas essa estava na atmosfera. E precedeu os três Reis Magos em sua viagem da Arábia à Judéia.

4. Quanto ao movimento, as estrelas se movem em círculos, mas essa de modo linear. Com efeito, ela procedeu em uma linha reta do Oriente para o Ocidente.

5. Quanto ao tempo, as estrelas brilham apenas à noite, e a luz do sol as obscurece durante o dia. Mas essa era claríssima, tanto de dia quando brilha o sol, quanto de noite.

6. Quanto à duração, as estrelas brilham continuamente, mas essa brilhou de modo temporário, apenas durante o período da viagem dos Magos, desaparecendo depois.

7. Quanto ao tamanho, as estrelas são maiores que a Terra e a Lua, mas essa foi menor. No entanto, parecia maior porque estava mais próxima da Terra. Assim como a Lua parece maior que as estrelas fixas, porque está mais próxima de nós, embora na realidade seja muito menor.

8. Quanto à mobilidade, essa estrela às vezes se escondia, como em Jerusalém, outras vezes se mostrava visível e era guia da viagem.

Estrela de Belém, igreja de Santa Maria em New Haven, CT, EUA
Estrela de Belém, igreja de Santa Maria em New Haven, CT, EUA
Quando os Magos avançavam, ela avançava; quando descansavam, ela descansava. Por fim, pairou sobre a casa onde estava o Menino Jesus.

Realizada sua missão, ela desapareceu. As outras estrelas não têm essa propriedade.

9. Quanto ao esplendor, ela superou todas as demais estrelas. Santo Inácio, que viveu pouco tempo depois de Cristo, assim escreveu em sua Epístola aos Efésios:

“A estrela brilhou para superar em brilho tudo o que havia antes. Sua luz era indescritível e impressionou a todos que a viram”.

E Prudêncio, em seu hino para a Epifania: “Aquela estrela que ultrapassa o sol em beleza e esplendor”.

São João Crisóstomo diz a mesma coisa. Donde São Leão dizer no Sermão de Epiphania:

“Uma nova estrela apareceu na região do Oriente aos três Reis Magos.

“Era mais brilhante e mais bela que todas as outras estrelas.

“Atraiu para si os olhos e a mente dos que a contemplavam, de modo que se percebeu imediatamente que essa visão estranha não era sem propósito”.

Vimos sua estrela no Oriente

Suárez acrescenta que a estrela só brilhava durante o dia em locais próximos aos Reis Magos, mas estava mais alta durante a noite e era menos visível.

Os Magos eram astrônomos, e foram chamados de modo muito adequado por uma estrela.

Por isso mesmo sabiam que essa não era uma estrela comum, mas um prodígio que anunciava um acontecimento divino.

Assim entenderam que havia nascido o Criador e Senhor das estrelas, a Quem todas as demais obedecem.

Por isso a Igreja celebra com tanta solenidade a Festa da Epifania, na qual os Magos foram chamados a adorar Cristo, porque neles e por eles começou o chamado e a salvação dos gentios.

No sermão de Epiphania, diz São Leão: “Diletíssimos irmãos, reconheçamos nos Magos, que adoraram Cristo, as primícias de nossa vocação e de nossa fé.

“E com a alma exultante celebremos o início da bem-aventurada esperança, pois começamos a entrar na posse de nossa herança eterna”.

E Santo Agostinho confirma: “Os Magos foram as primícias dos gentios, e nós somos o povo dos gentios.

“Isso nos foi anunciado pela língua dos apóstolos, mas aos Magos o foi pela estrela, como uma língua do céu. E os apóstolos, como outros céus, nos narraram a glória de Deus” (Serm. 2 de Epiph.).

______________

(Autor): Cornelius a Lapide, Commentaria in Scripturam Sacram, in Matthaeum, Cap. II, Ludovicus Vives, Paris, 1860, vol. 15, pp. 70-78.

Tradução: Renato Murta de Vasconcelos

Sobre o autor Pe. Cornélio a Lapide S.J.

Exegeta belga, nasceu em Bocholt, no Limburgo flamengo, no dia 18 de dezembro de 1567; morreu em Roma, a 12 de março de 1637. Estudou humanidades e filosofia nos colégios jesuítas de Maastricht e Colônia. Cursou teologia durante um semestre na Universidade de Douai, e depois, por quatro anos, em Louvain.

Entrou para a Companhia de Jesus em 11 de junho de 1592. Após dois anos de noviciado, e mais um de teologia, foi ordenado sacerdote em 24 de dezembro de 1595.

Ensinou filosofia durante seis meses, e em 1596 foi nomeado professor de Sagrada Escritura em Louvain; no ano seguinte, professor de hebraico. Vinte anos depois, na mesma qualidade de professor, seus superiores o enviaram a Roma, onde granjeou grande fama no exercício do magistério.

Nos últimos anos de sua vida, devotou-se exclusivamente a terminar e corrigir seus famosos comentários.




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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Imaculada Conceição: ensinamentos sobre a glória de Nossa Senhora

Imaculada Conceição, São Francisco da Penitência, Rio de Janeiro
Imaculada Conceição, São Francisco da Penitência,
Rio de Janeiro
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Continuação do post anterior: Imaculada Conceição: Pio IX e a glória do dogma




O dogma da Imaculada Conceição ensina que Nossa Senhora foi concebida sem pecado original desde o primeiro instante de seu ser.

Ela em momento algum teve qualquer nódoa do pecado original.

A lei inflexível pela qual todos os descendentes de Adão e Eva, até o fim do mundo, teriam o pecado original, se suspendeu em Nossa Senhora.

E naturalmente na humanidade santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nossa Senhora não ficou sujeita às misérias a que estão sujeitos os homens.

Não ficou sujeita aos impulsos, inclinações e tendências más que os homens tem.

Tudo nEla corria harmonicamente para a verdade, para o bem; tudo nEla era o movimento para Deus.

Nossa Senhora foi exemplo perfeito da liberdade da razão iluminada pela fé.

Ela queria inteiramente tudo o que era perfeito e não encontrava em si nenhuma espécie de obstáculo interior.

Ela era cheia de graça. De maneira que o ímpeto do ser dela se voltava só para a verdade, o bem, de modo verdadeiramente indizível.

Ora, ensinar que uma mera criatura humana como foi Nossa Senhora, tivesse esse privilégio extraordinário, era fundamentalmente anti-igualitário.

E definir esse dogma era definir uma tal desigualdade na obra de Deus, uma tal superioridade de Nossa Senhora sobre todos os outros seres, que faria espumar de ódio todos os espíritos igualitários.

O revolucionário ama o mal e tem alegria quando encontra um traço de mal em alguém.

Imaculada Conceição, catedral de Segovia, Espanha
Imaculada Conceição, catedral de Segovia, Espanha
Ele tem, pelo contrário, muito pesar quando vê uma pessoa em que ele não percebe um traço de mal.

Porque ele sente simpatia e harmonia com aquilo que é ruim e procura encontrar o mal em tudo.

Ora, a ideia de que um ser pudesse ser tão excelsamente bom e santo desde o primeiro instante de seu ser, causa ódio num revolucionário.

Um indivíduo perdido de impureza, um verdadeiro porco, sente inclinações impuras para todo lado.

E sente a vergonha, a depressão que essas inclinações impuras causam.

Evidentemente ele se sente todo deteriorado pela concessão que ele fez.

Um homem desses considerando Nossa Senhora que era toda Ela feita da mais transcendental pureza: ele sente ódio e antipatia, porque seu orgulho é esmagado pela pureza imaculada dEla.

O Beato Papa Pio IX definindo uma tal ausência de orgulho, de sensualidade, de qualquer prurido de Revolução num ser privilegiado, afirmou que a Revolução é repudiada por Nossa Senhora. E isso teve que doer e causar ódio aos revolucionários.

Então, desde sempre, dentro da Igreja, houve duas correntes. Uma corrente que combateu a Imaculada Conceição, e outra corrente que era favorável à Imaculada Conceição.

Sseria exagero dizer que todo mundo que combateu a Imaculada Conceição estava trabalhando por pruridos revolucionários.

Mas todo mundo trabalhando por pruridos revolucionários, combateu a Imaculada Conceição.

De outro lado, todos aqueles que lutaram pedindo a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, mostravam uma mentalidade contrarrevolucionária.

De maneira que, de algum modo, a luta da Revolução e da Contra-Revolução estava presente na luta entre essas duas correntes teológicas.

No século XIX a Revolução já andava deitando labaredas por todo o mundo e ficou indignada com a definição do dogma.

O Beato Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição. Sant'Andrea della Valle. Roma
O Beato Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição.
Sant'Andrea della Valle. Roma

Havia outra razão ainda.

Não tinha sido definido ainda o dogma da Infalibilidade Papal.

E Pio IX, antes de defini-lo, pura e simplesmente consultou teólogos, todos os bispos do mundo e depois, com autoridade própria, fazendo uso da Infalibilidade Papal, definiu o dogma da Imaculada Conceição.

O que para um teólogo liberal era uma espécie de petição de princípios, porque se não estava definido que ele podia definir, como é que ele ia definir.

E ele, pelo contrário, definindo, ele afirmava que tinha a Infalibilidade Papal.

Quer dizer, fez estalar as indignações do mundo revolucionário.

Mas, foi um entusiasmo enorme no mundo contrarrevolucionário.

Por toda parte apareceram meninas batizadas com o nome de Conceição ou Imaculada, exatamente em louvor do novo dogma.

Era a afirmação de que os pais consagravam aquela menina à Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Pio IX levou as coisas a tal ponto que, durante o pontificado dele, enviou de presente uma imagem da Imaculada Conceição, para ficar posta no centro de Genebra, a capital da forma mais execrável de protestantismo que era o calvinismo.

Assim afirmou e proclamou esse dogma que os calvinistas, luteranos e protestantes todos odiavam mais do que tudo.

Pio IX estava numa situação política péssima; os exércitos do Garibaldi ameaçavam os Estados Pontifícios e os liberais caçoavam dele:

Papa rei bobo que está perdendo as suas terras, mas se preocupa em definir dogmas. Pio IX não se incomodou, ele definiu o dogma.

E foi mais longe. Em 1870 quando os Estados Pontifícios estavam para cair, ele reuniu o Concílio Vaticano I e definiu o dogma da Infalibilidade Papal.

Conta-se que quando ele se levantou para definir o dogma, uma tempestade de raios e estrondos se abateu sobre São Pedro.

Dir-se-ia que todos os elementos de ódio do inferno estavam convulsionando a natureza.

Os senhores podem imaginar o Papa, de pé, no meio dos raios, definindo a Infalibilidade do Papado.

Dias depois de definida a Infalibilidade Papal, as tropas de Garibaldi penetraram na cidade, e o papa ficou prisioneiro no Vaticano.

Mas foi tal o prestígio que a Infalibilidade Papal deu ao Papa, que os historiadores disseram que nem os Papas da Idade Média tiveram um poder maior do que teve Pio IX.

Nós temos então, entre o Beato Pio IX e São Gregório VII, uma analogia.

São Gregório VII forçou a curvar-se pedindo perdão diante dele um imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Imaculada Conceição, detalhe de paramento bordado por dominicanas inglesas
Imaculada Conceição, detalhe de paramento bordado por dominicanas inglesas
Pio IX fez uma coisa mais árdua e mais extraordinária: ele forçou a Revolução a curvar-se diante dele.

A Revolução não pedia perdão, porque nunca pede, mas rugia de ódio, humilhada e esmagada.

O que é mais bonito do que levar um imperador a pedir perdão.

Nessa atmosfera de vitória, o grande Papa Pio IX, após ficar prisioneiro, mas mais senhor da Cristandade e da Igreja Universal do que todos os seus antecessores, entregou a sua bela alma a Deus.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra do dia 15.6.73, sem revisão do autor)




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domingo, 1 de dezembro de 2019

Imaculada Conceição: Pio IX e a glória do dogma

O Beato Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição. Franceso Podesti (1800–1895), Museus Vaticanos
O Beato Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição.
Franceso Podesti (1800–1895), Museus Vaticanos
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Em 8 de dezembro de 1854 rodeado o bem-aventurado Papa Pio IX se levantou para definir o dogma da Imaculada Conceição no esplendor da basílica de São Pedro.

Nesse momento o Santo Padre sobre quem teria descido um discreto mas perceptível raio de luz sobrenatural proclamou com voz solene e cadenciada:


”41. ... depois de implorarmos com gemidos o Espírito consolador.

“Por sua inspiração, em honra da santa e indivisível Trindade,

“para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus,

“para exaltação da fé católica, e

“para incremento da religião cristã,

“com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo,

”dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e

”com a Nossa,

“declaramos, pronunciamos e definimos:

“A doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria,

“no primeiro instante da sua Conceição,

“por singular graça e privilégio de Deus onipotente,

“em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano,

“foi preservada imune de toda mancha de pecado original,

“essa doutrina foi revelada por Deus,

“e por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis.

“42. Portanto, se alguém (que Deus não permita!) deliberadamente entende de pensar diversamente de quanto por Nós foi definido,

“conheça e saiba que está condenado pelo seu próprio juízo,

“que naufragou na fé, que se separou da unidade da Igreja, e que, além disso,

“incorreu por si, "ipso facto", nas penas estabelecidas pelas leis contra aquele que ousa manifestar oralmente ou por escrito, ou de qualquer outro modo externo,

“os erros que pensa no seu coração”.

Bula Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854

Assim nos descreve o que veio depois o escritor Hugo Wast no livro “Las aventuras de Don Bosco” sobre o reinado de Pio IX:

“Que estupor do mundo ímpio, que sarcasmos para o Papa que no momento em que se abriu os abismos diante de seus passos de rei temporal, se entregava a questões de pura teologia.

“Mas um Papa é teólogo antes que rei e quando pronunciou essas memoráveis palavras que encheram a cúpula de São Pedro, a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, um raio de sol passando através de uma janela aberta iluminou o rosto resplandecente como o de Moisés no alto do Sinai.

“Troou, como nos seus melhores dias, o canhão do castelo de Santo Ângelo.

“Os infinitos campanários em Roma proclamaram a notícia.

“Roma se iluminou nessa noite.

“Milhares de cidades do mundo inteiro imitaram.

“Milhões de almas festejaram a glória de Maria em quem Deus pôs a plenitude de todos os bens, segundo as ternas palavras de São Bernardo.

“De tal maneira que se há em nós alguma esperança, algum favor, alguma salvação, devemos saber que de Maria nos vem.

“Porque essa é a vontade [de Deus] que quis que tudo tenhamos por Maria”.


O pontificado do beato Pio IX apenas não foi mais longo que o de São Pedro.

Nos primeiros meses de pontificado o Papa favoreceu o liberalismo nos Estados Pontifícios, conjunto de feudos medievais que tinham Roma como capital e dos quais era rei.

Depois de uma revolução, ele teve que se refugiar no reino de Nápoles, que lhe era fiel no sul da península italiana.


Ali, reflexionou sobre o que era a revolução, mudou de orientação e passou a ser um dos Papas mais contrarrevolucionários da história.

Dois atos particularmente contrarrevolucionários dele foram:

a definição do dogma da Imaculada Conceição e, mais tarde,

a definição do dogma da Infalibilidade Papal.



(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra do dia 15.6.73, sem revisão do autor)



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