domingo, 11 de agosto de 2019

Santiago Apóstolo: milagres do santo cruzado,
condutor da guerra santa contra os muçulmanos

Busto do Apóstolo Santiago, catedral de Compostela
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






As proporções que a devoção a Santiago de Compostela tomou em toda a Espanha medieval somente pode ser entendidas no contexto da invasão muçulmana.

Tudo começou pelo ano de 813, quanto um eremita de nome Pelayo, seguido de alguns pastores, deparou-se com uma estranha luminosidade.

Ela se espalhava sobre um pequeno bosque nas proximidades de um monte do interior da Galícia chamado Libredón.

A paisagem, em certos momentos, ficava tão clara que se parecia a um campo estrelado (Campus Stellae = Compostela).

Teodomiro, o bispo local, informado do estranho fenômeno, soube que a luz focara no chão uma antiga arca de mármore.

Nela se teria encontrado os restos humanos do que se atribuiu ser o Apostolo Santiago (isto é, São Iago, São Jacó, o filho de Zebedeu, irmão de João Evangelista).

Uma história antiga que corria de boca em boca entre os cristãos ibéricos dizia que o Apóstolo andara, séculos antes, em missão pela Espanha determinado a evangelizá-la.

Porém não conseguiu porque ao voltar à Palestina teria sido decapitado pelo rei Herodes Agripa, no ano de 44.

Altar mor, catedral de Compostela
O corpo dele então, acomodado num sepulcro de mármore, fora colocado a bordo de um barco no porto de Jaffa e lançado ao mar.

Sem tripulação, sem leme nem nada, soprada apenas pelo vento, a nau teria vindo aportar nas costas da Galícia, região da Espanha que os romanos chamavam então de Finis Mundi.

Recolhida da praia, a arca fora enterrada num “compostum”, quer dizer um cemitério romano-galego daquele tempo.

Durante os séculos seguintes, ninguém mais tomou conhecimento dela, até que começaram a ocorrer aquelas iluminações esplendidas que o bispo Teodomiro consagrou.

O sensacional e miraculoso achado, que logo atraiu o rei astur-leonês Afonso, o casto (789-842), e sua corte para lá, fez com que lá fixassem a pedra da primeira igreja dedicada ao Apóstolo.

Não demorou em que a boa nova, comunicada por Afonso ao próprio Carlos Magno, circulasse como um raio pelo Império do Ocidente, abrindo caminho para que se dessem os milagres.

E as peregrinações então não mais cessaram, fazendo com que num curto espaço de tempo, o santuário de Compostela tivesse a mesma importância para os cristãos das romarias dirigidas à Roma.

Na batalha de Clavijo, em 834, o rei Ramiro I, de Aragão, no aceso do combate, viu-se ajudado por um desconhecido ginete montado num cavalo branco que dava espadadas na mourama.

Sentiu que estava ao lado do Apóstolo, desde então transformado em Santiago Matamouros, aparição fundamental na vitória dele contra o emir Abderraban II:

“Santiago da Espanha/ matou os meus mouros/ desbaratou minha companhia/ quebrou minha senha/ Santiago glorioso fez os mouros morrerem: Maomé o Preguiçoso, tardou, não quis vir”.

Outras dessas repentinas ações milagrosas do santo ocorreram na longa batalha movida pelos reis espanhóis contra o Califado de Córdoba ou contra os ditos reinos dos Taifas, que mais tarde o sucederam.

Percebendo a importância simbólica do sepulcro de Compostela para o ânimo dos cristãos, Almanzor (El-Mansur), o Seyd, ministro do califa de Córdoba, realizou no ano de 997 uma inesperada sortida relâmpago na região da Galícia.

Não só saqueou e destruiu o santuário com a primeira basílica, como levou consigo o sino e as portas dela, transportadas até o sul, até Córdoba, nos ombros de cristãos escravizados.

Santiago Matamouros, Burgos, Espanha
São Fernando III, rei de Castela, quando recuperou Sevilha, obrigou os mouros a fazerem o caminho inverso carregando os mesmos sinos e portas.

O santo tornou-se o maior ícone dos cristãos na sua oposição desesperada à presença dos interesses de Maomé na Espanha, fazendo com que o seu sepulcro se tornasse fonte de atração permanente para os peregrinos vindos de todos os lugares da Europa, percorrendo os Caminhos de Santiago.

Para dar proteção a eles duas ordens militares então surgiram: a de Calatrava (1158) e a de Santiago (1173).

O êxito da campanha da Reconquista, que culminou bem mais tarde com a ocupação do Reino Nasarí de Granada em 1492, foi largamente depositado pelos cristãos nos feitos impressionantes, assombrosos, de Santiago Matamouros.

Este, por sua vez, fora promovido por Ramiro I, desde sua aparição em Cravijos, a protetor oficial da luta contra os mouros a quem toda Espanha devia obrigações:

Santiago Matamouros, catedral de Compostela
“... ordenamos e fizemos voto que por toda a Espanha, que se há de guardar por todas as partes da Espanha, que Deus nos conceda livrar-nos dos sarracenos pela intercessão do Apóstolo Santiago, de pagar perpetuamente a cada ano, a maneira de primícias sobre cada jeira de terra uma medida da melhor colheita, o mesmo de vinho, para a manutenção dos padres que residem na igreja do bem aventurado Santiago e para os ministros da mesma igreja...”

Referências bibliográficas

Braunschvig, Marcel - Notre Littérature étudiée dans les textes, Paris, Librairie Armand Colin, 1948
Brissaud, Alain - Islão e Cristandade, Lisboa, Pluma Editora, 1993
Dozy, R.-P. - Historia de los musulmanes de España, - 2 v., Barcelona, Editorial Iberia, 1954.
Köhler, Erich - L´aventure chevaleresque: ideál et réalité dans les romans courtois, Paris, Éditions Gallimard, 1956
Nájera, Rúben E. - La invención de Rolán - in CABALLERIAS Y MORERIAS
Oliveira Martins- História da Civilização Ibérica, Lisboa, Guimarães & c. Editores, 1972



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 28 de julho de 2019

Peixes recuperaram as formas eucarísticas

Local e mosaico do 'Milagre dos Peixes', Alboraya, Valencia, Espanha
Local e mosaico do 'Milagre dos Peixes', Alboraya, Valencia, Espanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








O “milagre dos peixes” (em valenciano, língua local: miracle dels peixets) foi um prodígio eucarístico acontecido em julho de 1348, entre os atuais municípios de Alboraya e Almácera, na região autônoma de Valencia, uma das mais importantes da Espanha. Cfr. Wikipedia, verbete Milagro de los Peces.

O milagre é comemorado com uma romaria na segunda-feira de Pentecostes. Ela costuma ir até a capela neogótica construída em lembrança do fenômeno sobrenatural e que é conhecida como “Ermita do Milagre” ou também “'Ermita dels peixets”.

Centenas de fiéis da região e de cidades vizinhas comparecem para as cerimônias nessa ermita. Assim foi no último ano segundo informou o jornal regional “Las Provincias”.

No remoto ano de 1348, o pároco de Alboraya levava o Santíssimo Sacramento para os doentes. Notadamente para um mouro recém convertido de nome Hassam-Arda, gravemente ferido.

Naquela época, o Santíssimo era conduzido com honras exteriores, coroinhas, sinos, etc. e acompanhado por pessoas.

A âmbula do 'Milagre dos Peixe'. paróquia de Almácera
A âmbula do 'Milagre dos Peixe'. paróquia de Almácera
Porém, cruzando o córrego Carraixet que estava muito crescido por fortes chuvas, o cavalo do pároco escorregou.

No acidente, a âmbula que continha as sagradas formas se abriu e as hóstias caíram nas águas e foram puxadas por forte correnteza.

Sem poder recuperá-las, o padre voltou para sua igreja.

Segundo antiga crônica, o fato causou consternação entre os camponeses. E saíram todos a procurar as hóstias perdidas.

Aqueles que foram até a praia viram que dois peixes – outros falam três – punham sua cabeça fora da água e seguravam as hóstias em suas bocas.

A população local correu a ver o prodígio enquanto alguns foram bater à porta do pároco contando que tinham percebido umas luzes brilhando junto ao barranco.

O sacerdote, revestido de sobrepeliz e estola, com um cálice na mão entrou na água. Assim que viram ele, os peixes se aproximaram e depositaram as Formas Eucarísticas no cálice.

Afresco do 'Milagre dos Peixes'
Afresco do 'Milagre dos Peixes'
Esse cálice se conserva até hoje em Alboraya, enquanto que a âmbula do milagre é venerada o ano todo na paróquia da Assunção de Nossa Senhora, na mesma cidade.

A secular âmbula só é usada na festa de São Vicente Ferrer, para levar a comunhão aos doentes em suas casas e na procissão de Corpus Christi.

O “milagre dos peixes” impressionou até a Santa Sé que concedeu datas especiais para comemorar o Corpus Christi a cada uma das cidadezinhas envoltas no fato.

No escudo da cidade de Alboraya aparecem três peixes e no de Almácera, dois, em lembrança do milagre. Almácera considera que uma hóstia já havia sido dada a um doente, por isso fala em duas.


Vídeo: Adoro te devote: hino eucarístico





GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 14 de julho de 2019

O escapulário de Nossa Senhora do Carmo e a mais antiga devoção marial do mundo

Nossa Senhora do Carmo, São João del Rei
Nossa Senhora do Carmo, São João del Rei
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A Ordem do Carmo foi fundada pelo Profeta Elias, tendo sido Santo Eliseu seu sucessor e sendo conhecida no Antigo Testamento como a “escola dos profetas”. Tal vez o próprio São João Batista tenha se ligado a ela.

Alguns acham que até Nosso Senhor Jesus Cristo os frequentou durante o período de sua vida no deserto.

O fato é que a Ordem do Carmo representa o primeiro filão da devoção marial no mundo, em virtude da famosa visão do profeta Elias de uma nuvenzinha que preanunciou uma imensa chuva após uma seca devastadora.

A nuvenzinha foi uma prefigura de Nossa Senhora, Mãe dAquele que atrairia um sem-fim de graças para o mundo.

domingo, 30 de junho de 2019

A Ladainha Lauretana: significados pouco conhecidos

Nossa Senhora do Rosário, México
Nossa Senhora do Rosário, México
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A palavra ladainha vem do grego e significa súplica.

Mas desde o início da Igreja ela foi utilizada para indicar as rezadas em conjunto pelos fiéis em procissão às diversas igrejas.

Há numerosas ladainhas, dependendo do que é pedido nas diversas procissões.

Quando a Santa Casa na qual morou Nossa Senhora em Nazareth foi transportada milagrosamente para a cidade de Loreto (Itália), em 1291, a feliz novidade deu início a numerosas peregrinações.

Uma série de súplicas a Nossa Senhora foi sendo composta pelos peregrinos que A invocavam por seus principais títulos de glória.

Posteriormente essa ladainha era cantada diariamente no Santuário, e os peregrinos que de lá voltavam a popularizaram em todo o orbe católico.

Chama-se lauretana por ter sua origem em Loreto.

Algumas invocações foram acrescentadas pelos Papas e outras foram agregadas para honrar a proteção de Nossa Senhora a alguma Ordem religiosa.

Assim fazem os carmelitas que rezam a ladainha lauretana carmelitana, com quatro invocações a mais.

Mas o corpo central das ladainhas permanece o mesmo.

Composição da Ladainha

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Corpus Christi:
O milagre eucarístico de Lanciano
segundo o cientista que comprovou sua autenticidade

Lanciano: carne de Cristo em custódia de prata
Lanciano: carne de Cristo em custódia de prata
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Neste ano 2019 a festa de Corpus Christi se comemora o dia 20 de junho.



O doutor Edoardo Linoli afirma que portou em suas mãos um verdadeiro tecido cardíaco, ao analisar anos atrás as relíquias do milagre eucarístico de Lanciano (Itália), o mais antigo dos conhecidos.

O fato miraculoso se remonta ao século VIII.

Em Lanciano, na igreja dedicada a São Legonciano, um monge basiliano que celebrava a missa em rito latino começou a duvidar da presença real de Cristo sob as sagradas espécies após a consagração.

Nesse momento, o sacerdote viu como a sagrada hóstia se transformava em carne humana e o vinho em sangue, que posteriormente se coagulou.

domingo, 16 de junho de 2019

A Santa Casa de Loreto (2)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









O lugar onde se acha o santuário da Santa Casa de Loreto fica no meio do caminho que conduz ao porto de Recanati.

O outeiro sobre o qual pousou foi depois nivelado, e se acha agora no centro da cidade que ali se ergueu, e que tomou o nome de Loreto.

As múltiplas transladações da santa casa de Nossa Senhora não fizeram senão despertar cada vez mais a curiosidade e a devoção dos fiéis, não somente das províncias próximas, mas até dos países mais remotos, enriquecendo-se este augusto santuário com os mais preciosos donativos.

Quatro anos depois deste último e maravilhoso acontecimento, o concurso dos romeiros, já tão prodigioso, tornou-se ainda maior na ocasião do primeiro jubileu do ano santo, que se realizou em Roma em 1300.

domingo, 9 de junho de 2019

De joelhos, sozinho, na meia luz e no silêncio ante o Santíssimo Sacramento


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Neste ano a festa de Corpus Christi se comemora o dia 20 de junho.



O maná que Deus enviou para alimentar os judeus durante a travessia do deserto, após abandonar o Egito sob a direção do profeta Moisés rumo à Terra Prometida, mudava de gosto.

Por causa disso diante do Santíssimo Sacramento exposto, antes de dar a bênção, o padre ajoelhado usando uma muito bonita capa pluvial cantava: Panem de caelo, prestistis eis alelluia, Vós destes a eles pão do Céu, aleluia. Quer dizer, o maná.

O coro respondia: Omne delectamentum in se habentem, alelluia, Que tinha em si todos os sabores aleluia.

Isso fazia parte daquela distinção, daquela classe, daquela categoria, de uma bênção do Santíssimo Sacramento bem dada.

Com o Santíssimo resplandecente dentro de um sol de ouro, a interlocução entre o oficiante e o povo representado pelo coro, era esta: vós destes a eles um pão do Céu.

E o coro respondia: que contém em si todos os sabores.

domingo, 2 de junho de 2019

A Santa Casa de Loreto (1)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A santa casa de Loreto é a casa que testemunhou o grande mistério da Encarnação, quando o Arcanjo, resplandecente de luz, foi enviado do Céu à terra para trazer ao gênero humano a maior e mais consoladora nova.

Naquela casa morava uma donzela humilde e modesta; provavelmente nela nascera, era a casa de seus pais. Era virgem, e chamava-se Maria.

Foi ali que Jesus Cristo habitou, submisso a José e Maria, durante os trinta primeiros anos de sua vida mortal.

A casa foi milagrosamente transportada pelos anjos, no fim do século XIII.

A piedosa imperatriz Santa Helena fizera encerrar a santa casa de Nazaré num magnífico templo, conservando intacta a casa preciosa na qual a Sagrada Família habitara.

Em todos os tempos essa casa foi um santuário visitado pelos mais ilustres e santos personagens, entre os quais a História faz menção de São Luís IX, rei de França, que ali recebeu a sagrada comunhão, com extraordinárias consolações, no dia Anunciação de 1252.

Pouco depois, os muçulmanos do Egito irromperam no território da Palestina e destruíram o magnífico templo no qual se achava a santa casa de Nazaré, que assim ficou exposta a todas as profanações.

domingo, 19 de maio de 2019

O milagre de Nossa Senhora de Nazaré
e o retorno da imagem fugitiva

O milagre
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A origem da devoção a Nossa Senhora de Nazaré se prende a um fato ocorrido por volta do ano de 1150 em Portugal.

“Estando um jovem e vistoso cavalheiro português Dom Fuas Roupinho à caça de um veado entre intensa neblina vê-se subitamente no alto de um rochedo à beira-mar, e se seu cavalo não houvesse estancado, ter-se-ia precipitado ao mar.

“Cheio de terror e considerando o perigo, agradeceu ao Senhor de toda alma a sua salvação.

“Mas o perigo não passara de todo, pois o cavalo não podia avançar nem recuar sem precipitar-se no abismo.

“Procurando uma saída, nota o cavaleiro uma imagem de Nossa Senhora numa caverna do rochedo.

“E cheio de fé, lança-se aos seus pés implorando socorro.

“Ao tomar a imagem nas mãos nota um pequeno pergaminho preso a ela que narra ter sido venerada essa imagem já em Nazaré, há muito tempo - portanto em Nazaré da Palestina.

domingo, 5 de maio de 2019

O Anjo do Senhor: mais uma oração do tempo das cruzadas


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Outrora, ao som das Ave-Marias, todos se ajoelhavam para rezar o “Anjo do Senhor”.

São Carlos Borromeu não se acanhava de descer da carruagem para recitá-lo de joelhos na rua, muitas vezes na lama.

A recitação do Angelus data do tempo das cruzadas, e foi prescrita pelo Papa Urbano II em memória da Anunciação de Maria — cuja festa é celebrada a 25 de março — verdadeiro início dos novos tempos de graça e reconciliação da humanidade com Deus.

Em alguns países (Itália e Alemanha) começaram os fiéis a recitá-lo também de manhã. A forma atual do “Anjo do Senhor” valia por uma profissão de fé.

Quem não o rezasse ao toque das Ave-Marias ficava suspeito de ser protestante ou herege.




domingo, 7 de abril de 2019

Nossa Senhora de Avioth:
reanimadora das crianças mortas sem batismo

Nossa Senhora de Avioth: ranimava as crianças mortas sem batismo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A fé pode mover montanhas, e Nossa Senhora não fica alheia aos esforços das pessoas cheias de fé.

É o que nos mostra a história desta devoção mariana na França

O contraste não poderia ser mais notório: uma igreja enorme, para uma cidadezinha muito pequena.

Os 125 habitantes de Avioth, vila francesa a poucos quilômetros da fronteira com a Bélgica, podem entrar todos juntos na igreja e ainda sobra muito, mas muito espaço mesmo.

A primeira pergunta que ocorre ao espírito é se a cidadezinha já foi bem maior e, sei lá por que motivos, hoje mora pouca gente no local.

Mas não é isso. A resposta está ligada à história da imagem de Nossa Senhora de Avioth.

No ano de 1100 os lavradores descobriram uma imagem num matagal de espinhos, no local chamado “d’avyo”, que com o tempo se transformou em Avioth.

Passada a surpresa, decidiram levá-la à igreja de Saint Brice, a dois quilômetros dali. Mas na manhã seguinte a imagem tinha voltado ao exato local de onde a tinham tirado.

Resultado: decidiram deixá-la no lugar e venerá-la ali mesmo.

Análises mostram que a imagem foi esculpida em madeira, antiga de uns 900 anos. Nossa Senhora tem um cetro na mão e segura o Menino Jesus.

domingo, 10 de março de 2019

“Os estandartes do Rei avançam” (Vexilla regis prodeunt) hino da Semana Santa

Santa Radegunda
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Em 19 de novembro do ano do senhor de 569 ‒ há mais de 1.400 anos! – numa procissão no mosteiro da Santa Cruz, em Poitiers, França, ressoou um hino que durante os quinze séculos seguintes haveria de ser entoado nas igrejas e mosteiros do mundo todo nos ofícios da Semana Santa.

O hino é o “Vexilla regis prodeunt” (“Os estandartes do rei avançam”) e fora composto por São Venancio Fortunato (530-609), bispo de Poitiers, a pedido da rainha-mãe Santa Radegunda.

Santa Radegunda após a morte do rei Clotário I seu marido, fundou o mosteiro da Santa Cruz. Ela recebeu de presente um fragmento do Santo Lenho doado pelo imperador de Bizâncio Justino II e sua esposa a imperatriz Sofia.

Felizes tempos em que os governantes dos Estados privilegiavam a fé e a ortodoxia religiosa e moral!

A Santa encomendou então ao santo religioso, famoso pelas suas qualidades poéticas postas a serviço de Nosso Redentor, um hino que seria cantado durante a translação da relíquia da Verdadeira Cruz até o altar-mor.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O misterioso barrilzinho do ermitão corajoso e o impenitente

BA catedral de Bayeux, Normandia, na bruma
A catedral de Bayeux, Normandia, na bruma
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Havia nos confins da Normandia um destemido cavaleiro, cujo nome causava terror na região. De seu castelo fortificado junto ao mar, não receava nem mesmo o rei.

De grande estatura e belo porte, era no entanto vaidoso, desleal e cruel, não temendo a Deus nem aos homens.

Não fazia jejum nem abstinência, não assistia à Missa nem ouvia sermões. Não se conhecia homem tão mau.

Numa Sexta-feira Santa, bradou ele aos cozinheiros:
— Aprontai-me para o almoço a peça que cacei ontem.

Ouvindo isto, seus vassalos exclamaram:
— Senhor, hoje é Sexta-feira Santa. Todos jejuam, e vós quereis comer carne? Crede-nos: Deus acabará por vos punir.
— Até que tal aconteça, terei enforcado e roubado muita gente.
— Estais seguro de que Deus tolerará mais isso? Vós devíeis arrepender-vos sem demora. Em um bosque vizinho há um padre eremita, varão de grande santidade. Vamos até lá e confessemo-nos — insistiram os vassalos.
— Confessar-me? Aos diabos! — respondeu com desprezo o senhor.
— Vinde ao menos fazer-nos companhia.
— Para me divertir, concedo. Por Deus, nada farei.