domingo, 22 de julho de 2018

“Adoro te devote” (“Adoro-Vos devotamente”) hino a Jesus Sacramentado

Igreja das Bernardinas, Cracóvia, Polônia
Igreja das Bernardinas, Cracóvia, Polônia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Adoro te devote é um dos cinco hinos que Santo Tomas de Aquino compôs em louvor de Jesus presente no Santíssimo Sacramento incluídos em el Missale Romanum de 1570 após o Concilio de Trento (1545–1563).

As circunstâncias em que foram escritos são famosas. O Papa Urbano IV instituiu para a Igreja a festa solene de Corpus Christi com a bula Transiturus em 8 de setembro de 1264, impulsionado definitivamente pelo Milagre de Bolsena.

Na ocasião o Papa estava em Orvieto quando numa pequena cidade vizinha chamada Bolsena, ocorreu o Milagre. Um sacerdote que duvidava da transubstanciação na Santa Missa, no momento de partir a Sagrada Hóstia, saiu dEla sangue em tal abundância que empapou o corporal (pano onde se apoiam o cálice e a patena durante a Missa) e se derramou pelo chão do altar.

O padre correu a Orvieto para contar ao Papa o acontecido. Urbano IV mandou conferir o fato e ante as evidências irrefutáveis instaurou a festa de Corpus Christi.

O corporal empapado do Divino Sangue é esplendidamente conservado na basílica de Orvieto construída para esse efeito e é levado na procissão de Corpus Christi todos os anos.

Em Bolsena é venerado o chão manchado com o mesmo Sangue do Milagre.

O mesmo Papa pediu também a Santo Tomás de Aquino e São Boaventura que se encontravam com ele que compusessem os hinos para a Missa de Corpus Christi.

Quando Santo Tomás de Aquino começou a ler o que tinha composto, São Boaventura rasgou os seus. Os outros hinos e sequências são:

Santo Tomás de Aquino compõe os hinos do ofício de Corpus Christi. Bandeira bordada, Santa Rosa, Springfield, EUA.
Santo Tomás de Aquino compõe os hinos do ofício de Corpus Christi.
Bandeira bordada, Santa Rosa, Springfield, EUA.
Adoro te Devote

Ave Verum (veja mais e ouça em: Na festa de Corpus Christi, o hino “Ave Verum” (“Salve, ó verdadeiro corpo”)

Lauda Sion (o muito cantado Panis Angelorum é a parte final)

— O Salutaris Hostia (parte final do Verbum supernum prodiens)

— Pange Lingua (veja mais e ouça em: São Tomás de Aquino e o hino Pange Lingua: “Canta ó língua, o glorioso mistério do Corpo e do Sangue precioso”)

Panis angelicus (parte mais cantada do hino Sacris solemnis)


O “Adoro te devote” foi cantado como Hino Eucarístico durante a Santa Missa em louvor do Ssmo. Sacramento – Corpus Christi.

Mas é tanta sua unção sobrenatural que passou a ser cantada também na Adoração Eucarística e bênçãos eucarísticas em geral.

Tudo indica que Santo Tomás de Aquino já a tinha composto previamente como uma oração privada para adoração pessoal do Ssmo. Sacramento.

A necessidade do momento revelou a sublimidade do relacionamento interior pessoal do “Doutor Angêlico” com Jesus presente na Hóstia verdadeira e substancialmente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

O “Adoro te devote” hoje é cantado em todo o mundo católico onde há sincera devoção a Jesus Sacramentado.

A continuação apresentamos o texto em seu original latino com a tradução em português.


1. Adóro te devóte, latens Déitas,

Adoro-Vos devotamente, ó divindade escondida,

Quæ sub his figúris vere laetitas:

que sob estas figuras está velada realmente.

Tibi se cor meum totum súbjicit,

Meu coração a Vós se submete plenamente,

Quia te contémplans totum déficit.

e contemplando-Vos, desfalece inteiramente.


2. Visus, tactus, gustus in te fállitur,

Vista, tato, paladar aqui se enganam,

Sed audítu solo tuto créditur:

mas o que ouço sustenta a minha Fé.

Credo quidquid dixit Dei Fílius:

Creio no que disse o Filho de Deus:

Nil hoc verbo veritátis vérius.

nada é mais verdadeiro, porque sua palavra é Verdade.


3. In cruce latébat sola Déitas,

Na Cruz estava oculta só a divindade;

At hic latet simul et humánitas:

aqui também se oculta a humanidade.

Ambo tamen credens atque Cónfitens,

Contudo, em ambos creio e confesso.

Peto quod petívit latro pénitens.

Peço o que pedia o ladrão penitente.


4. Plagas, sicut Thomas, non intúeor:

As chagas, como Tomé, não as vejo.

Deum tamen meum te confíteor:

Porém meu Deus, contudo, vos confesso.

Fac me tibi semper magis crédere,

Fazei-me em Vós sempre mais e mais crer,

In te spem habére, te dilégere.

em Vós esperar, e Vos amar.


5. O memoriále mortis Dómini,

Ó lembrança da morte do Senhor,

Panis vivus vitam præstans hómini,

Pão vivo que dais a vida ao homem.

Præsta meæ menti de te vívere,

Concedei à minha alma em Vós viver,

Et te illi semper dulce sápere.

e a ela seja doce Vos conhecer.


6. Pie pellicáne Iesu Dómine,

Piedoso pelicano, Senhor Jesus,

Me immúndum munda tuo sánguine,

a mim, imundo, purificai-me por vosso Sangue,

Cuius una stilla salvum fácere

do qual uma só gota

Totum mundum quit ab omni scélere.

pode salvar o mundo inteiro, de todos os seus crimes.


7. Iesu, quem velátum nunc adspício,

Ó Jesus, que velado agora vejo,

Oro, fiat illud quod tam sítio,

peço-Vos que se faça aquilo que tanto desejo.

Ut te reveláta cernens fácie,

Que eu possa Vos contemplar face a face, e

Visu sim beátus tuæ glóriæ. Amen.

veja, pleno de gozo, a vossa glória. Amém.



Uma meditação

Imaginemos Alguém faz comigo assim: eu sou ingrato para com Ele, mas apesar disso todos os dias Ele está no Santíssimo Sacramento a minha espera, e Ele me acompanha com a graça o dia inteiro.

Andando de carro, por vezes à noite, podemos passar perto de uma igreja. Ainda que do lado de fora podemos perceber que estamos a pequena distância da capela do Santíssimo.

Ali dentro está o tabernáculo.

Podemos pensar: que maravilha deve estar se passando dentro dessa capela.

E pensar que é assim em qualquer capela do Santíssimo Sacramento.

Às duas, às três horas da noite, no auge da solidão; Nosso Senhor está dizendo para as outras Pessoas da Santíssima Trindade coisas inenarráveis.

Os anjos e santos todos ali presentes, adorando.

Imaginar aquele silêncio próprio que impregna a capela do Santíssimo. É um desses silêncios onde os menores estalidos se ouvem.

Onde os ruídos da rua passam cortando o ar como profanações, mas cessam imediatamente também.

E depois o longo e grosso silêncio da solidão, do abandono, do recolhimento. Que coisa magnífica aquela soledade!

A luzinha daquela lamparina vermelha.

Como a gente gostaria de poder abrir a igreja, àquela hora da noite, entrar sozinho na capela do Santíssimo Sacramento e ficar o resto da noite rezando lá.

Ter essa sensação de que Nosso Senhor está ali só para a gente, e que a gente penetra, a bem dizer, no Coração dEle como penetra dentro da capela do Santíssimo Sacramento.

Ter ali uma imagem de Nossa Senhora para quem rezar.

Ficar envolto ali dentro nesse mistério de fluxo de orações até às primeiras claridades da aurora. E' verdadeiramente celeste, ainda que seja uma coisa insensível.

São João Batista ia para o deserto rezar, Nosso Senhor ia para o deserto rezar.

Deus está tão presente nos desertos quanto nas cidades, mas há uma graça da solidão total do deserto, onde se tem a impressão de que Deus, na solidão dEle, se manifesta melhor ao homem, em que Ele como que abraça o homem, e o homem como que pode abraçá-lo melhor também.

Este é exatamente o “deserto eucarístico” que reina numa capela do Santíssimo Sacramento à noite.

Pensando nisso, dá vontade de, numa noite, parar o automóvel bem junto à parede da capela do Santíssimo e ficar adorando, do lado de fora.

Nos automóveis que passam a toda velocidade, qual a alma que se lembra de Deus ali enclaustrado na solidão?

Qual a alma capaz de fazer uma jaculatória, pelo menos, ao Santíssimo Sacramento?

Pior. Quantos estão vindo, indo ou descansando no pecado. Naquele trânsito o abandono de Nosso Senhor ainda fica mais pungente.

Quantas ofensas, àquela hora, estão sendo cometidos contra Ele naquelas danceterias ou locais de pecado!

Quantas almas que comungam todos os dias, passam pela capela e não têm um pensamento para essa situação.

Ninguém! Acontece, acontece.

Que mistério houve, para que considerações sumamente tocantes como estas tenham cessado de ser feitas ou não tocam mais os corações?

A Revolução gnóstica e igualitária instaurou na alma humana uma forma de dureza, de frieza, que “gastou” essas coisas e fechou as almas para isso.

(Adaptação de uma meditação composta por Plinio Corrêa de Oliveira)


Vídeo: “Adoro te devote” (“Adoro-Vos devotamente”) hino a Jesus Sacramentado






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domingo, 1 de julho de 2018

O Milagre de Teófilo

Nossa Senhora salva o clérigo que vendeu a alma ao diabo.
Na fachada lateral da catedral Notre Dame, Paris.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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É o caso de Teófilo que agora eu vou contar:
Um milagre tão precioso não é para se calar,
Porque ele nos faz entender e avaliar
O quanto é importante a Nossa Senhora rezar.

Não quero, se possível, no relato me alongar,
Contra vossa paciência poderia eu pecar,
Sei que a oração breve sói a Deus agradar,
Não foi o próprio Cristo o primeiro a nos ensinar?

Era uma vez, assim começa a legenda,
Um homem muito bom, nada mal de renda,
Teófilo, homem de paz, e nunca de contenda
De vida virtuosa, que dispensa emenda.

No lugar onde morava, em sua bela cidade,
Era chanceler do bispo, com muita autoridade
Gozava de boa fama e, para dizer a verdade,
Depois do senhor bispo, era dele a dignidade.

Teófilo era sóbrio e muito comedido,
Pessoa muito afável, por todos querido,
Homem culto e douto, de saber reconhecido,
Seu prestígio era muito difundido.

Dava aos pobres roupa e comida;
Aos peregrinos, abrigo e guarida,
Ensinava os pecadores a mudar de vida
E, pela penitência, evitar a recaída.

De modo que o bispo não tinha preocupação
Só a de cantar a missa e a de pregar sermão
Pois de tudo, tudo, nem cabe enumeração,
Cuidava Teófilo, com muita aplicação.

O bispo apreciava Teófilo sobremaneira
Pois ele o livrava de toda a trabalheira
E para o povo ele era como luz verdadeira
Seu fulgor iluminava a cidade inteira.

Mas, nesta vida, tudo tem sua hora,
E chegou, para o bispo, a vez de ir-se embora
Uma doença grave, sem chance de melhora
Levou-o à glória sem muita demora.

Santo Alberto Magno, bispo e Doutor.
O clero e o povo, como nunca adunado,
Todos diziam: “Teófilo no episcopado!
Com ele como bispo tudo será melhorado
Que seja ele o quanto antes consagrado”.

Teófilo respondeu com toda a simplicidade:
“Senhores, eu suplico, por favor, por caridade,
Eu não sou digno de uma tal autoridade
Outro que assuma essa grande dignidade”.

Os eclesiásticos da administração
Ante esta sua inabalável decisão
Não se sabe se contentes ou não 
Tiveram que fazer uma outra eleição.

Novo bispo, novo também o chanceler para mandar
E Teófilo, sem poder, começou a invejar
Porque o povo todo daquele lugar
Já não o ia mais, como antes, procurar.

E ele, que ao antigo bispo era tão chegado,
Começou a sentir-se, agora, postergado
E pela inveja cada vez mais dominado
Ele sentia-se totalmente transtornado.

E Teófilo achando-se muito desprezado,
Preterido, esquecido num canto, injustiçado
Por rancor, cada vez mais ferido e despeitado,
Caiu nas tramas de um grande pecado.

Foi a um famoso judeu cheio de vícios,
Versado em encantamentos e outros malefícios,
Que fazia feitiços e certos artifícios,
Guiado por Belzebu, em todos os seus ofícios.

E foi logo a esse falso traidor,
Fiel vassalo de tão mau senhor,
Que Teófilo, ó que horror!,
Foi solicitar um nefasto favor.

Ele, que se sentia tão desesperado
Foi perguntar ao judeu endiabrado,
Que tinha parte com o grande Renegado,
Como fazer para voltar a seu anterior estado.

Respondeu o judeu sem nenhuma hesitação:
“Não tenha você a menor preocupação
Pois vamos fazer uma boa combinação
Com `alguém` que certamente dará solução”.

Na calada da fria noite combinada
Teófilo, às escondidas, saiu de sua pousada
Para a entrevista que estava marcada
Com “alguém” numa tenebrosa encruzilhada.

O judeu que ia com ele no meio da escuridão
Disse: “As coisas muito bem estão.
Não me vá você estragar tudo, então,
Fazendo o sinal da cruz com sua mão”.

Teófilo assustou-se, quando pôde divisar
Grande multidão, com velas a queimar,
Com seu rei no meio, uma cena de arrepiar
E, por um instante, até pensou em voltar.

Deteve-o, com um gesto, aquele judeu traidor
E, determinadamente, levou-o a seu senhor,
Que era Satanás, o demo fingidor,
Para tentar dele obter o favor.

Disse o judeu: “Senhor rei coroado
Este homem foi chanceler do bispado
E, como tal, era por todos muito honrado
Mas, foi despedido e agora, é desprezado”.

Disse o diabo: “Não é lá de muito bom direito
De vassalo alheio, um outro tirar proveito
Mas renegue a Cristo, razão de nosso despeito
E farei que tudo lhe volte em estado perfeito”.

“Para seu caso há uma boa terapia:
Renegue a Cristo e a Santa Maria
Assine esta carta em uma única via
E voltará ao que era e até com melhoria”.

Teófilo a todo custo queria o sucesso
E não percebeu o engano o pobre obsesso,
Cúmulo de exagero e de incrível excesso:
Perder sua alma em tão barato processo.

Ninguém soube do tal contrato e do credor
Só Deus, que de tudo é bom conhecedor
E permitiu que ele voltasse ao esplendor
Só que, agora, meio pálido e sem cor.

O bispo, reconhecendo o quanto havia errado,
Fê-lo voltar àquele seu antigo estado:
Foi pelo povo da cidade ainda mais venerado
Teófilo ia recebendo a paga de seu pecado.

O resultado dessa sua imensa euforia,
Pelo sucesso que tinha na chancelaria,
Foi que ele, agora, se jacta e se vangloria,
Todo orgulhoso em sua vaidade vazia.

Mas é tão bom Deus, Nosso Senhor
E não deseja que pereça o pecador:
Teófilo foi acometido de mortal dor,
Para ver se de algo lhe valia o Traidor.

Todo o bem que ele fizera no passado
Não quis Deus que fosse malbaratado
E Teófilo recobrou o juízo adormentado,
Abriu os olhos e caiu em si despertado.

Aconteceu que nesse breve lúcido momento
Para ele tão rápido e também tão lento
Teófilo viu o que fez, com grande desalento
E, arrasado, sucumbiu ao desfalecimento:

“Ai de mim, pecador mesquinho e malfadado
Das alturas do bem, quem me terá derrubado?
Quanto ao corpo, estou no fim e desprezado
E quanto ao espírito, totalmente arruinado”.

“Morrerei como quem naufraga no mar
Não há quem vá por mim ante Deus rogar
Nem mesmo de Nossa Senhora posso esperar
Ela, a piedosa, que eu me atrevi a renegar”.

“Maldita hora em que cobicei a chancelaria
Procurar o diabo, que amaldiçoado dia!
Qual Judas, qual traidor pecado maior faria?
Não tivesse eu nascido, muito melhor seria”.

“Por que eu mesmo fui procurar acabar comigo?
Não passava necessidade, eu não era mendigo
Todos me respeitavam, o povo era meu amigo
Agora, a quem recorrer, onde encontrar abrigo?”.

“Bem sei que desta febre eu não vou escapar
Que não há médico que me possa curar
Só Santa Maria, a estrela do mar,
Mas com que cara poderia eu lhe rogar?”.

“Eu, miserável, mais fedorento que um cão
Cão sarnento e podre, não o que come pão
Ela não me vai ouvir, eu bem sei que não,
Pois foi contra ela que eu fui torpe e vilão”.

“Mas, seja como for, a ela vou me achegar,
Prostrar-me-ei na igreja, ante seu altar
Meus pecados, em jejuns, hei de chorar
Esperando a graça da Gloriosa quero finar”.



“Embora em minha loucura eu a tenha renegado
E, como um tolo, pelo judeu fui enganado
Apego-me firmemente a ela, confiado,
Dela nasceu o Salvador, por mim crucificado”.

“Não sei se Deus isto me irá autorizar:
Quero ante todos minha loucura proclamar
Mesmo não sabendo por onde começar
Nem se minha boca conseguirá falar”.

E sem contar nada sobre o plano que tinha
Foi ajoelhar-se ante o trono da Rainha,
“Dos desesperados és refúgio e madrinha
Haverá misericórdia para esta alma mesquinha?”.

“Tu que és a porta do Paraíso, Senhora;
Tu, de quem o Rei da Glória se enamora.
Olha com compaixão a este que implora
E seu horrendo pecado noite e dia chora”.

Quarenta dias durou esta penitência;
Noite e dia em constante permanência
Teófilo com inquebrantável paciência
Rogava assim à Senhora da clemência.

Até que ela apareceu, com ar meio zangado
“Por que tanto imploras, ó desgraçado?
Não tens teu senhor, o eterno Renegado?
Não sei quem quererá ser teu advogado?”.

“Mãe, disse Teófilo, por Deus e por caridade,
Não olhes a meus méritos, mas à tua bondade
Eu bem sei que tudo que dizes é verdade
Porque eu sou sujo e cheio de maldade”.

“Mas, não posso estar na penitência esperançado?
Não foi por ela que Davi foi perdoado?,
Madalena e até Pedro, após o Senhor ter negado?
E o povo de Nínive, que já estava condenado?”.

Quando ele se calou, falou Santa Maria:
“O teu caso, Teófilo, um grave problema me cria:
A ofensa a mim, eu bem que perdoaria
Mas a meu Filho, essa, eu não me atreveria”.

“Tenho um conselho para te dar com coerência:
Volta a meu Filho, roga a Ele com veemência
Senhor da vida, Sua onipotência
Manifesta sobretudo em perdão e clemência”.

“Senhora bendita, Rainha porta do Céu,
Teu nome é perfume e mais doce que o mel,
Há uma dificuldade, não esqueças, sou réu
Pois assinei aquele maldito papel”.

Disse Maria: “Saiba, antes de mais nada,
Senhor trapalhão, Senhor praga malvada,
Que a carta que em má hora deixou assinada
Está nos quintos dos infernos bem guardada”.

“Como a meu Filho eu pediria
Que empreendesse uma tal romaria?
Para lugar fétido, hodienda porcaria
Teria eu essa descabida ousadia?”.

“Senhora, bendita entre as mulheres
Atende-me sem demora, não esperes
Basta-Lhe o menor sinal que deres:
Teu Filho sempre quer o que tu queres”.

“Da falta, Teófilo, já recebeste o castigo
Fica tranqüilo, ouve o que te digo,
Eu vou ver, filho, como consigo
Resolver teu problema, deixa o caso comigo”.

Dizendo isto, desfez-se a aparição
E Teófilo que já tinha à Senhora tanta devoção
Foi tomado de imenso amor e infinita compunção
Passando dias e noites em jejum, pranto e oração.

A rainha da glória, Santa Maria,
Visitou-o ao final do terceiro dia
Com um rosto fulgurante, que trazia
As melhores notícias, paz e alegria:

“Fica sabendo, filho, que tuas orações
Teus grandes gemidos, tuas aflições
Chegaram ao Céu em grandes procissões
Para isto há anjos: para estas missões”.

“Eu intercedi por ti com empenho e vontade
Prostrei-me de joelhos ante a divina Majestade
E Deus te perdoou em sua infinita caridade
É importante agora tua firmeza na bondade”.

“Mãe, disse Teófilo, muitíssimo obrigado
Mas não estarei de todo despreocupado
Até o momento em que tenha recobrado
Aquela carta em que teu Filho foi renegado”.

“Estou cuidando de tudo, disse a Rainha,
Desde que decidiste pecar, sair da linha
Não resolverei, este probleminha?
Deixa também isto como incumbência minha”.

Dito isto, a Senhora desapareceu de seu lado
E Teófilo, caindo em si, até ficou assustado
De sua confiança: como tinha sido ousado!
E retomou a penitência decidido e esperançado.

Na terceira noite, com seu objetivo cumprido,
Veio Maria à casa em que ele estava recolhido
A Gloriosa, como sempre, discreta e sem ruído,
Trazia a carta com que ele a tinha traído.

Teófilo, ao ver que a carta tinha recuperado
E, da febre sentindo-se totalmente curado,
Prorrompeu em canto de louvor exaltado
Àquela que, maternalmente, o tinha livrado.

Dizendo: “Senhora boa, sempre sejas louvada
Sempre sejas bendita sempre glorificada
Tua misericórdia está mais que comprovada
Não há doçura que possa à tua ser comparada”.

No dia seguinte, festa de solene celebração
Juntou-se na igreja uma enorme multidão
Teófilo subiu ao púlpito com a carta na mão
E diante de todos narrou seu caso e conversão.

Mostrou a todos a carta que em sua mão trazia
Em que toda a força do mau contrato residia
O bispo, muito assustado, o sinal da cruz fazia
Mal acreditando nas coisas que ouvia.

Acabada a missa disse: “Vede este companheiro
Que tomado de loucura buscou mau conselheiro
E foi procurar o diabo, astuto e arteiro,
Para recobrar o ofício que tinha primeiro”.

“Se a Virgem gloriosa não lhe tivesse valido
Que torturas o infeliz não teria sofrido!
Mas, pela sua santa graça, ele foi socorrido
Recobrando a carta senão estaria perdido”.

O “Te Deum laudamus” foi fortemente entoado,
“Tibi laus tibi gloria” também foi rezado,
E “Salve Regina” foi pelo povo todo recitado
E outros doces hinos, canto e reza misturado.

Para a tal da carta, o bispo deu pronta solução,
Pois uma grande fogueira mandou fazer então
Teófilo, confessando, recebeu a absolvição
E, logo em seguida, também a Santa Comunhão.

O rosto de Teófilo estava todo iluminado,
Refletia-se nele a presença do sagrado
E o povo vendo-o, de luz transfigurado,
Mais o nome da Mãe de Deus era exaltado.

Logo a seguir, Teófilo do cargo se demitiu,
Todos os seus bens entre os pobres repartiu,
Aos que o conheciam, perdão ele pediu
E, após três dias, para a outra vida partiu.

Senhores, o grande milagre que acabo de narrar
Traz uma lição que se deve muito bem guardar:
Que para a salvação devemos penitência praticar
E a Gloriosa Mãe de Deus sempre, sempre honrar.

Ó mãe, de teu Gonçalo, não deixes de lembrar;
Ele, que teus milagres, tanto gosta de narrar
Por ele, Senhora, ao Criador podes rezar,
Pois é teu privilégio aos pecadores ajudar

E com a graça de Deus, Nosso Senhor, os salvar. Amém.


(Fonte: “El milagro de Teófilo” de Gonzalo de Berceo - o equilíbrio emocional medieval”, Tradução de Jean Lauand)



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domingo, 17 de junho de 2018

Santo Eduardo o Confessor, rei, e seu anel


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Certo dia, o rei Santo Eduardo o Confessor (1005-1066), rei da Inglaterra, já velho assistia à cerimônia de consagração de uma igreja construída em honra de São João Evangelista.

Nessa hora, um homem muito pobre aproximou-se dele e mendigou-lhe uma esmola “pelo amor de São João”.

O grande monarca passou a mão na bolsa, mas não encontrou nem prata nem ouro.

Santo Eduardo, então, mandou vir seu tesoureiro, mas não foi localizado no meio da multidão. E o pobre seguia implorando esmola.

Santo Eduardo sentia-se muito mal à vontade. Nesse momento lembrou que trazia um anel grande e muito precioso.

Então, ele o tirou do dedo, e pelo amor de São João o deu ao miserável, que lhe agradeceu gentilmente e desapareceu.

Eis o que aconteceu com o anel.

Aquela mesma noite, muito longe na Palestina, dois peregrinos ingleses extraviaram-se no caminho e ficaram andando no deserto.

O sol já tinha desaparecido por trás das montanhas e os dois homens estavam sós num local desolado.

Eles sabiam que não havia jeito de voltar e que não encontrariam refúgio contra os ladrões e os animais selvagens.

Enquanto se perguntavam o quê fazer, um bando de jovens com roupas brilhantes apareceu diante deles.

No meio dos jovens estava um ancião, alvíssimo, de cabelos grisalhos, e maravilhoso de se olhar.

‒ “Caros irmãos”, disse ele aos romeiros. “De onde vindes? Qual é vosso credo e vosso berço? De qual reino e de qual rei? O quê vós procurais aqui?”

‒ “Nós somos cristãos e da Inglaterra. Viemos a expiar nossos pecados, procurado os lugares sagrados onde Jesus viveu e morreu. Nosso rei chama-se Eduardo, e nós perdemos a estrada”.

‒ “Vinde atrás de mim, e eu vos conduzirei a uma boa hospedagem pelo amor do rei Eduardo”.

Assim, ele conduziu-os até uma cidade onde encontraram albergue que tinha a ceia servida numa mesa.

E, após terem jantado, eles foram dormir.

Na manhã seguinte o ancião veio até eles, e disse:

‒ “Eu sou João o Evangelista. Pelo amor de Eduardo eu não vos faltarei, e vós chegareis sãos e salvos à Inglaterra.

“Então, ireis até Eduardo, e lhe direis que comprastes o anel que ele me deu no dia da consagração da minha igreja, quando eu implorei a ele vestido com pobres roupagens. E dizei-lhe que dentro de seis meses ele vai estar comigo no Paraíso”.

Os romeiros voltaram à Inglaterra sem percalços e entregaram o anel ao rei Eduardo junto com a mensagem de São João.

Quando o monarca ouviu que iria morrer em breve, doou todo seu dinheiro aos necessitados, e consagrou o tempo que lhe restava às suas devoções.

Na Catedral de Santo Alban, na Inglaterra, venera-se a imagem de Santo Eduardo mostrando seu símbolo: o anel.

E sua festa celebra-se no dia 13 de outubro.



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quinta-feira, 31 de maio de 2018

A festa de Corpus Christi para adorar o Santíssimo Sacramento

O corporal com as gotas do divino Sangue do milagre de Bolsena na saída da basílica de Orvieto
O corporal com as gotas do divino Sangue do milagre de Bolsena na saída da basílica de Orvieto
Luis Dufaur
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A festa de Corpus Christi é dedicada a honrar e adorar o Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo realmente presente na Eucaristia, sob as aparências do pão e do vinho.

Corpus Christi é a manifestação pública da fé no dogma da Presença Real na Hóstia consagrada. Daí as belas procissões realizadas no mundo inteiro.

No Brasil, de norte a sul, cidades enfeitam suas ruas com encantadores “tapetes” de flores para glorificar o Deus humanado.

A festa de Corpus Christi foi inspirada a uma religiosa agostiniana, Santa Juliana de Cornillon (1193–1258), a quem Deus revelou a conveniência para a Igreja dessa celebração.

Santa Juliana foi superiora da abadia de Mont-Cornillon de Liège (Bélgica), fundada em 1124.

A partir dela surgiu um movimento eucarístico que incentivou várias práticas de adoração à Hóstia Consagrada, como a Exposição e a Bênção do Santíssimo Sacramento.

Deus pediu a Santa Juliana, abadessa de Mont-Cornillon,
a celebração da festa do Corpus Christi
Em 1246, Santa Juliana pediu ao bispo de Liège, Dom Roberto de Thorote, a instituição da festa de ação de graças pela presença real, em Corpo e Alma, de Nosso Senhor na Eucaristia.

O Bispo concordou com a celebração na diocese, mas não chegou a ver cumprida a solenidade, pois falecera no mesmo ano.

Em 1250 o Cardeal Cher, também de Liège, instituiu em toda a diocese a nova festividade com o nome de “Fête-Dieu”.

A primeira vez foi realizada no interior da igreja de Saint-Martin, num cerimonial dirigido pelo próprio Cardeal.

Entretanto a primeira procissão de Corpus Christi realizada publicamente, ocorreu em 1264 — há mais de 750 anos — nas ruas da cidade de Orvieto na Itália.

Ela vem sendo realizada todos os anos e certamente constitui a mais bela manifestação pública em honra do Santíssimo Sacramento, embora muitas outras, como a de Toledo, possam ser mencionadas pelo seu brilho e piedade.

Em 11 de agosto de 1264, o Papa Urbano IV estendeu a todo o Orbe católico a Festa de Corpus Christi.

Ele ordenou com a bula Transiturus de hoc mundo que fosse celebrada publicamente e de modo solene pelas ruas e praças.

A data foi fixada para a quinta-feira após o dia da Santíssima Trindade.

Ela é rezada em memória da primeira Missa celebrada por Nosso Senhor, na Última Ceia com os Apóstolos, na Quinta-Feira Santa, quando instituiu o incomparável Sacramento da Eucaristia.

O que determinou decisivamente o Papa para atender os pedidos que se originaram em Santa Juliana na Bélgica?

Um milagre. Mas na Itália e com um sacerdote checo!

Santo Tomás de Aquino compôs os hinos do oficio de Corpus Christi.
Bandeira bordada, Santa Rosa, Springfield, EUA.
Ele aconteceu em Bolsena, na província de Viterbo, diocese de Orvieto, em 1264.

O Padre Peter, oriundo de Praga, empreendeu uma viagem desde a Boêmia, sua região natal, até Roma.

Ele desejava revigorar sua fé na Cidade Eterna, pedir ao Papa alguns esclarecimentos e expor-lhe dúvidas a respeito da doutrina da transubstanciação, a mudança da substância do pão e do vinho em Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, permanecendo, contudo, as aparências do pão e do vinho.

Chegando à cidade de Bolsena, o sacerdote celebrou a Missa na igreja de Santa Cristina.

Foi essa a última vez que o atormentaram as dúvidas de fé sobre a presença Real de Jesus na Santíssima Eucaristia!

No momento da Consagração, na Sagrada Hóstia ocorreu uma transbordante efusão do preciosíssimo Sangue.

Gotas se verteram sobre o corporal (tecido de linho branco que fica debaixo do Cálice), tingindo-o de sangue.

Assustado com aquele inexplicável acontecimento, o sacerdote dubitativo procurou esconder o sagrado corporal, pois julgava que isso ocorrera em castigo devido às suas dúvidas de fé.

Mas o sangue transpôs o linho e quatro gotas caíram sobre os degraus do altar, deixando impressos no mármore sinais evidentes do adorável Sangue.

Não podendo mais ocultar o milagre, foi à procura do Papa Urbano IV que se encontrava em Orvieto, cidade bem próxima de Bolsena.

Ele narrou o acontecido e o Papa fez trazer à sua presença aquele corporal e ordenou uma apuração meticulosa, que resultou na comprovação inequívoca do milagre.

Essa é a origem da edificação da Catedral de Orvieto: a guarda e veneração do sacrossanto Corporal, venerado hoje por muitas peregrinos do mundo inteiro.

O corporal do milagre de Bolsena na procissão de Corpus Christi em Orvieto.
O corporal do milagre de Bolsena na procissão de Corpus Christi em Orvieto.
O mármore sobre o qual pingaram gotas do preciosíssimo Sangue, conserva-se até hoje na Igreja de Santa Cristina de Bolsena, para prodigiosa comprovação da presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Hóstia consagrada.

Naquelas circunstâncias, o próprio Papa Urbano IV pediu a Santo Tomás de Aquino compor cânticos para se festejar com maior esplendor o dia de Corpus Christi.

O Doutor Angélico então compôs cinco hinos em louvor ao Santíssimo Sacramento — o “Lauda Sion”, “Adoro Te Devote”, “Pange Lingua”, “Sacris Sollemnis” e “Verbum Supernum”.

Conta-se que para a criação dos hinos, o Papa também apelou ao grande São Boaventura que estava presente na cidade.

Mas quando o Romano Pontífice fez leitura em voz alta do ofício composto por Santo Tomás, São Boaventura, despretensiosamente, foi rasgando a sua composição enquanto lia o célebre e belíssimo hino “Lauda Sion” (Louva Sião).





Vídeo: Corpus Christi: procissão em Granada






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