segunda-feira, 29 de junho de 2020

Ó imperatriz da cidade bem-aventurada

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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O Llibre Vermell de Montserrat (Livro Vermelho de Montserrat) é um manuscrito conservado no famoso Mosteiro do mesmo nome, perto de Barcelona, onde é cultuada há muitos séculos Nossa Senhora de Montserrat.

O mosteiro era um dos locais mais importantes de romaria na era medieval e assim continuou sendo nos séculos seguintes até os presentes dias.

O nome de “vermelho” provêm da cor da capa com que foi encadernado no século XIX. Ele contém cantos e liturgias do fim da Idade Média. As páginas com partituras não são mais de uma dúzia.

Elas incluem cânticos e danças devocionais para os peregrinos que iam até Nossa Senhora. Os cantos estão em catalão, occitano e latim, sendo todos de autor desconhecido.

A coleção foi reunida no fim do século XIV, porém a maioria das músicas é anterior.

Por exemplo, o motete Imperayritz de la ciutat joyosa é de um estilo já em desuso nesse século:

Veja vídeo
Ó Imperatriz da
cidade bem-aventurada
Ó imperatriz da cidade bem-aventurada
Do Paraíso onde tudo é alegria
Onde não há crime algum e abunda a virtude
Mãe de Deus por obra divina
Ó doce Virgem de angélico rosto.

Porque és a mais amada de Deus
Tende piedade dos fiéis
Roga por eles nos Céus
Virgem de misericórdia sem igual
Livrai-nos de todo mal

Não Vos afasteis de nós
Por causa dos nossos diários pecados
Mas protegei-nos sob vosso manto régio
Vós cuja piedade é tão grande
A nós que somos baixa argila
Na nossa humana fraqueza.

Rosa perfumada de bondade verdadeira
Fonte de misericórdia que nunca acaba
Palácio de honra onde a aliança foi selada
Entre Deus e os homens para nossa salvação
Tu em quem Deus fez-se tão perfeitamente homem
Sem mancha alguma
Que o viste morrer homem
E Deus ressuscitar.



"Imperatriz da cidade bem-aventurada"


"Inperayritz de la ciutat joyosa". Intérprete: Alla Francesca. Imagens: Real Monasterio de Santa María de Poblet (Tarragona, Espanha). (Fotos de José Luis Mieza)



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domingo, 14 de junho de 2020

Santo Antônio, “Arca do Testamento”, “Martelo dos Hereges” e o milagre de tomada de Orã

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Santo Antônio de Pádua, ou de Lisboa, Confessor e Doutor da Igreja é chamado “Arca do Testamento” e “Martelo dos Hereges”, foi um frade franciscano do século XIII.

Estando em 1950 em Assis, eu tive ocasião de me documentar a respeito de como era Santo Antônio.

E ali se mostra, na Basílica de Assis, um quadro pintado por Giotto, que passa por ser o quadro mais provavelmente representativo da pessoa de Santo Antônio.

E se trata de uma pessoa de corpo hercúleo, de pescoço taurino, forte, de expressão de fisionomia séria, de olhar imperioso e majestoso.

Sua atitude corresponde a um Doutor da Igreja que ele era.

Comprei então algumas fotografias dessa imagem.

Ao mesmo tempo, comprei uma pilha de estampas iguais que eram vendidas às pessoas que iam à igreja também.

Santo Antônio, cf. representação de Giotto ( Legenda de São Franciso - Aparição de Arles - detalhe  )
Santo Antônio, Giotto, basílica de Assis
Santo Antônio - Iconografia eivada de sentimentalismoMas, elas representavam Santo Antônio, não de acordo com a probabilidade histórica do quadro de Giotto, mas de acordo com uma concepção que figura nas imagens comuns.

Então, um homenzinho imberbe, coradinho, com o Menino Jesus no braço, com um ar de quem não entende muito o que está fazendo com o Menino Jesus no braço.

O Menino Jesus também com uma cara de quem não entende muito o que está fazendo no braço de Santo Antônio, sorrindo os dois um para o outro como que dizendo: desculpe, aqui deve haver algum equívoco.

Nessas imagens de Santo Antônio, nada havia que falasse no Doutor da Igreja, nada que representasse o homem que era tido como o maior conhecedor do Novo e Antigo Testamento, - as Sagradas Escrituras.

Porque ele conhecia as passagens mais raras, mais excepcionais, mais ignotas de todas e tirava delas efeitos de pregação extraordinários.

E Santo Antônio, conhecido como o “Martelo dos Hereges”, como polemista, como homem que era capaz de discutir - não de "dialogar" (no sentido irenístico do termo *).

Ele era capaz de entrar em debate com os hereges e de achatá-los. Não havia ninguém como ele.

E ainda ele ficou famoso pelos milagres que completavam sua pregação e faziam com que fosse o terror dos hereges.

O verdadeiro Santo Antônio histórico é apontado pela Igreja para nosso modelo.

Insígnias militares de Santo Antônio
Insígnias militares de Santo Antônio
A imagem verdadeira desse grande santo desapareceu quase completamente. É uma figura física que nada tem a ver sobretudo com sua fisionomia moral.

Santo Antônio, além de ser o “Martelo dos Hereges” e a “Arca do Testamento”, é venerado como o Patrono das Forças Armadas.

A razão disso está em que Santo Antônio, em certa ocasião, foi objeto de um ato de devoção especial da parte de um almirante espanhol.

Uma esquadra espanhola sitiava a cidade de Orã, no norte da África, povoada de muçulmanos e não havia meio de conseguir resultado eficaz.

Então, o almirante espanhol dirigiu-se a uma imagem de Santo Antônio, colocou o chapéu de almirante sobre a imagem, deu-lhe as insígnias de comando e pediu-lhe que investisse contra Orã.

Os mouros fugiram inesperadamente. Quando interrogados, disseram que tinha estado entre eles um frade vestido com o chapéu do almirante e que tinha ameaçado Orã com o fogo de céu, e que por causa disso eles tinham achado mais prudente ir embora.

Quer dizer, este aspecto do “Martelo dos Hereges” que ao mesmo tempo incute terror aos mouros e que se apresenta a uma cidade infiel e a ameaça com o fogo do céu, todo esse aspecto foi abolido.

Santo Antonio, Tenente-Coronel de Infantaria do Exército, no Brasil. Convento de Santo Antônio, Rio de Janeiro
Santo Antonio, Tenente-Coronel de Infantaria do Exército,
no Brasil. Convento de Santo Antônio, Rio de Janeiro**
Aí vemos a lamentável deterioração da devoção aos santos em nossos dias.

Quer dizer, como eles já não representam, na legenda que em torno deles se criou, a verdadeira santidade.

Quem, por exemplo, comentará a respeito da vida de Santo Antônio, este fato que se deu no Rio de Janeiro e que foi o seguinte:

o Rio de Janeiro estava sendo cercado pelos calvinistas franceses e já estava quase completamente rendido e a cidade não tinha meios de resistir.

Os frades então tomaram a imagem de Santo Antônio, desceram com ela o morro, colocaram numa pilastra que se encontrava ali.

E a simples exibição da imagem, de um modo maravilhoso comunicou tal ardor na cidade, que grande número de jovens se alistaram, sendo possível reorganizar a resistência aos franceses, que depois de pouco tempo, foram embora.

De maneira que o Rio de Janeiro não se tornou calvinista e talvez com repercussão em toda a História da América Latina, e portanto em toda a História da Igreja, por causa dessa ação simbólica de presença maravilhosa de Santo Antônio.

Todas essas são coisas que não se dizem, não se contam, não se comentam e os senhores podem, através disso, verificar duas coisas: em primeiro lugar, como é lamentável esta torção que a vida dos santos sofreu.

Mas, por outro lado, também, como é admirável lutar para restaurar todas essas coisas e mostrar os próprios santos no seu aspecto combativo, no seu aspecto guerreiro, no seu aspecto polêmico, no seu aspecto contra-revolucionário, que a Revolução tanto gosta de esconder e de disfarçar.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, conferência de 12/6/65. Sem revisão do autor)
___________________

(*) O Prof. Plinio aqui se refere ao conceito irenístico do termo "diálogo", magistralmente descrito em sua obra "Diálogo e baldeação ideológica inadvertida".

(**) S. Antônio com as insígnias de Capitão de Infantaria: "Santo Antonio, cuja imagem esteve colocada na muralha do Convento, defendeu o Rio de Janeiro contra os franceses, o que lhe valeu a patente de Capitão de Infantaria". (“Santo Antônio – vida, milagres, culto”, pgs. 144-146, Frei Basílio Röwer )


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terça-feira, 9 de junho de 2020

Origen de Corpus Christi e a solene procissão em Toledo

Santissimo Sacramento na procissão
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na Idade Média, o Papa Urbano IV (1195 — 1264) instituiu a festa de Corpus Christi após o portentoso milagre eucarístico de Bolsena.

Agindo assim atendeu o apelo insistente de muitas almas que ardiam de devoção pelo Ssmo. Sacramento.

Sobre como aconteceu a instituição da festa de Corpus Christi, veja embaixo: “Origem da Festividade de Corpus Christi”.

Esta festa, uma das mais solenes da Igreja, é marcada por grandes procissões eucarísticas, inclusive nos nossos tão conturbados dias de abandono da fé, em que se contraria o que a Igreja Católica ensina.

Apresentamos a seguir uma descrição por Felipe Barandiarán de uma das mais belas procissões nesta magna festa. Ela acontece todos os anos na cidade de Toledo (Espanha).

Muitos dos aspectos relatados pelo jornalista podem ser vistos no vídeo embaixo.
Todos os corpos sociais participam oficialmente

A manhã está luminosa. Subo a pé, ofegante, as empinadas encostas de Toledo.

Deixei o carro embaixo, estacionado junto ao rio Tejo, pois se é tarefa difícil circular habitualmente pela cidade, no dia de Corpus Christi torna-se impossível.

As estreitas ruas do centro histórico estão impedidas, porque a cidade está situada no alto de uma pronunciada elevação, defendida pelo próprio rio e pelas muralhas medievais.

No caminho, vou me unindo a muitos outros toledanos ou visitantes que se apressam como eu para assistir à grandiosa procissão.

Embora os ventos de vulgaridade que varrem o mundo moderno tenham desterrado o bom costume de se vestir melhor nos domingos e dias de festa, em Toledo, hoje, todos ostentam suas melhores vestes.

E não há mulher que não estreie algo. Divirto-me ao ver as pessoas, encantadas, mostrando suas novidades em matéria de vestuário.

Ainda não cheguei à Praça de Zocodover, ao alto, centro nevrálgico desta pequena e imperial cidade, quando ouço uma salva de morteiros.

Voluntárias de Lourdes
Ela indica que a Missa Pontifical terminou e que a procissão começa a sair da chamada Porta Plana da catedral.

As pessoas estão postadas ao longo de todo o percurso.

Somente os participantes do cortejo — metade de Toledo — e alguns convidados puderam assistir ao ofício divino no interior do templo.

Restringindo-se às preces, imóvel, para deixar livre o caminho, a outra metade de Toledo aguarda impaciente.

A rua está salpicada de areia molhada e plantas odoríferas, e os balcões engalanados com ricos tecidos bordados, bandeiras, mantas coloridas, grinaldas, vasos e alegres cestos de flores.

Em sinal de respeito e para acolher o Santíssimo Sacramento, antigos toldos de lona branca, provenientes das confrarias de tecelões e de especialistas em sedas, cobrem as ruas, estendidos ao longo das casas.

Agora já pode ser vista, abrindo o cortejo, a cavalaria da Guarda Civil.

Atrás, a banda de música desta corporação e os timbaleiros da Prefeitura.

Riquíssima custódia reservada para a procissão
Em seguida, ostentando uma vara da mesma altura da custódia do Santíssimo Sacramento, com a qual medira na véspera os espaços das ruas, para que nada impedisse o reluzimento do cortejo, vinha, vestido de negro, o mestre de cerimônias.

Segue-lhe a cruz processional do século XV, presente do Rei Afonso V de Portugal, o Africano.

Valendo-me de minha credencial de jornalista, avanço discretamente em sentido oposto ao da procissão, cujo percurso é coberto pelos cadetes da Academia de Infantaria, instituição protagonista da legendária defesa do Alcácer de Toledo, na guerra de 1936 contra o comunismo.

A procissão transcorre em duas filas paralelas, tendo ao centro os priores, capelães ou dignidades de cada irmandade, cada qual portando báculo, medalha ou algum elemento que o distingue dos restantes de seus membros, e precedidos pelo estandarte correspondente.

Passo junto à confraria dos Cultivadores de Hortelã.

Logo vêm os meninos e as meninas que fizeram a Primeira Comunhão, os grupos de Apostolado Secular e da Adoração Eucarística Perpétua, mais de 20 Confrarias e Irmandades com seus pendões correspondentes, a Hospitalidade de Lourdes e as Ordens Terceiras.

Ao som de seus instrumentos, a banda de música da Prefeitura arranca lágrimas de emoção.

Continuo avançando. Quero chegar até a porta da Catedral. O espaço é exíguo.

Fascina-me a maravilhosa simbiose entre cortejo e público estuante de vida, mas conservando a ordem com naturalidade.

Sucessivamente, passo pelas religiosas de vida apostólica, pelos Cavalheiros da Ordem de Malta, pelo Capítulo dos Cavalheiros Mozárabes e pelo do Santo Sepulcro, pelos Fidalgos de Illescas e os Cavalheiros de Corpus Christi, além de outros, que ostentam com galhardia suas cruzes distintivas nas capas.

Agora é a vez de passarem os seminaristas, o clero regular e secular, a Irmandade da Santa Caridade, a famosa Cruz de Mendoza, os acólitos e o Cabido Primado.

Estou felizmente diante da Catedral, junto à companhia militar perfilada para prestar honras ao Santíssimo Sacramento.

Das paredes externas do magnífico templo gótico, em cuja entrada sorri encantadora a famosa imagem de Nossa Senhora, La Virgen Blanca.

Crianças da Primeira Comunhão
Da parede pendem 48 enormes tapetes flamengos com alegorias eucarísticas, datados do século XVII e confeccionados especialmente para esta festividade.

A famosa custódia toledana, encomendada pelo Cardeal Cisneros ao grande ourives do século XVI, Henrique de Arfe, está a ponto de cruzar o limiar da Porta Plana.

Sinto, em torno de mim, a respiração contida. Um emocionante silêncio precede a custódia do Santíssimo.

Sua aparição estala numa apoteose de aplausos, afogados pelo estrondo de salvas de 21 tiros de canhão (as mesmas devidas a um rei) e o repique dos sinos.

A formação militar saúda e a banda de música interpreta com força a Marcha Real. Através da nuvem de incenso que nos envolve, o Santíssimo Sacramento avança lentamente. Deus está aqui!

A rica custódia gótica, de 183 quilos de prata e dezoito de ouro, é transportada numa carruagem florida sob a escolta dos cadetes da Academia de Infantaria.

A procissão em andamento
Atrás, na segunda parte da procissão, vêm as máximas representações: o Arcebispo-primaz de Toledo com seu séquito, as autoridades regionais e provinciais, o prefeito da cidade acompanhado de seu gabinete, e o corpo docente universitário.

Encerrando o cortejo, desfila a Companhia de Honras da Academia de Infantaria com sua bandeira e banda de música.

Diante de um pequeno palanque montado na Praça de Zocodover repleta de gente, a custódia se detém e um orador sacro pronuncia um sermão de exaltação eucarística.

Ao terminar, acompanhando a procissão de regresso à catedral, a multidão entoa com devoção o popular hino de adoração ao Santíssimo:

“Cantemos ao Amor dos amores, cantemos ao Senhor. Deus está aqui! Vinde, adoradores; adoremos a Cristo Redentor.

“Glória a Cristo Jesus! Céus e Terra, bendizei ao Senhor. Louvor e glória a Ti, ó Rei da glória; Amor para sempre a Ti, Deus de amor!”

Se o sol de Toledo ilumina de verdade, mais do que ele resplandece e ofusca, elevado na custódia, o Santíssimo ao passar pelas suas ruas.


Clique aqui para ouvir (Coro da TFP americana):



o corporal ensanguentado está na basílica de Orvieto onde pode é visto e venerado pelos fiéis
Corporal com gotas do Preciosíssimo Sangue do milagre de Bolsena,
na basílica de Orvieto
Origem da Festividade de Corpus Christi

Em fins do século XIII surgiu em Liège, na Bélgica, um movimento eucarístico cujo centro foi a Abadia de Cornillon, fundada em 1124 pelo bispo Albero de Liège.

Este movimento deu origem a vários costumes eucarísticos, como, por exemplo, a Exposição e Bênção do Santíssimo Sacramento, o uso da campainha durante a elevação na Missa e na festa de Corpus Christi.

A festividade foi celebrada pela primeira vez em 1246, tendo sido fixada para a quinta-feira posterior à comemoração do dia da Santíssima Trindade.

O Papa Urbano IV (1195 — 1264) tinha então sua cúria em Orvieto, um pouco ao norte de Roma.

Muito próximo dessa localidade encontra-se Bolsena, onde em 1264 ocorreu o famoso Milagre de Bolsena: um sacerdote que celebrava a Santa Missa teve dúvidas de que a Consagração fosse real.

Ao partir a Hóstia, dela saiu sangue, o qual foi empapando o tecido chamado corporal. A venerável relíquia foi levada em procissão a Orvieto em 19 de junho de 1264.

Um dia, em plena Missa, ao partir a Sagrada Forma, saiu dEla sangue que empapou o corporal.
O padre celebrava mas com sérias dúvidas
sobre Presença Real de Cristo na Hóstia consagrada
quando essa começou a pingar sangue.
Hoje se conservam em Orvieto os corporais — onde o cálice e a patena se apoiam durante a Missa do milagre —, podendo-se também ver a pedra do altar de Bolsena manchada de sangue.

Movido por aquele prodígio e a pedido de vários bispos, o Santo Padre determinou que a festa de Corpus Christi se estendesse a toda a Igreja por meio da bula Transiturus, fixando-a para a quinta-feira depois da oitava de Pentecostes.

Depois, segundo alguns biógrafos, o Papa Urbano IV encomendou um Ofício — liturgia das horas — a São Boaventura e a Santo Tomás de Aquino; quando o Pontífice começou a ler em voz alta o Ofício composto pelos dois santos, foi rasgando o de sua autoria em pedaços...

Nenhum dos decretos exarados então se refere à procissão com o Santíssimo Sacramento como um ato da celebração.

Entretanto, a mesma foi dotada de indulgências pelos Papas e o Concílio de Trento enaltece esse piedoso costume.

domingo, 31 de maio de 2020

São Gregório Magno: o leão que acordava os bispos moles

São Gregório Magno, Menlo Park, Califórnia.
São Gregório Magno, Menlo Park, Califórnia.
Luis Dufaur
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São Gregório Magno foi papa entre 3 de setembro de 590 e sua morte, em 12 de março de 604. Também ficou conhecido como Gregório, o Dialogador na Ortodoxia por causa de seus “Diálogos” muito diversos dos atuais que procuram o relativismo e o meio termo.

Ele foi um herói da ortodoxia, quer dizer do ensinamento reto, no qual foi um leão. Tal foi a força de seu pensamento que até o heresiarca João Calvino no século XVI teve que se render diante de seus feitos e declarar em seus péssimos escritos antipapistas ou “Institutos” que São Gregório teria sido o “último bom papa”.

São Gregório Magno é Doutor e Padre da Igreja.

Foi o primeiro papa a ter sido monge antes do pontificado e sua obra no Papado, contrariamente à crise atual, foi de um rigor e de uma mansidão que corrigiu todos os abusos ou fraquezas que encontrou.

Nasceu por volta do ano 540 em Roma e seus pais o batizaram Gregorius, que em grego significa “vigilante”, em inglês 'watchful'. O nome deriva de outro semelhante que significa “despertado do sono” ou “acordar alguém”.

São Gregório Magno, milagre eucarístico
São Gregório Magno, milagre eucarístico
E o nome resultou apropriado pois acordou do sono os católicos amolecidos e dorminhocos, notadamente aos bispos mundanizados.

Sua família era altamente distinta e ligada a reis e pontífices. Ele morava na mesma rua – atualmente chamada de “Via di San Gregorio” - onde estavam os palácios dos imperadores romanos, no Monte Palatino.

A partir de 542, a chamada “Praga de Justiniano” arrasou as províncias imperiais, provocando fome, pânico generalizado e, por vezes, revoltas populares.

Sem dúvida foi muito mais danosa que o nosso coronavírus pela carência da medicina. Em algumas regiões, até um terço da população morreu, provocando profundos traumas emocionais e espirituais nos sobreviventes.

Mas Gregório não era de sair em pânico diante das complicações.

Ele recebeu uma educação de elite se destacando em todas as ciências e artes. Chegou a ser prefeito de Roma, o mais alto posto civil na cidade, com apenas 33 anos de idade.

Mas ele não se conformava com a mediocridade burocrática. Quando seu pai morreu, converteu a villa da família num mosteiro dedicado a Santo André, hoje rebatizado San Gregorio Magno al Celio.

Gregório compreendia a grandeza da solidão e fazia jus a seu nome porque “naquele silêncio do coração, enquanto permanecemos vigilantes no interior através da contemplação, estamos como que dormindo para tudo que está no exterior”.

Para Gregório monge é aquele que está numa “busca ardente pela visão de nosso Criador”.

São Gregório Magno, seu trono na abadia de Monte Celio
São Gregório Magno, seu trono na abadia de Monte Celio
Em 579, o Papa Pelágio II escolheu Gregório como embaixador papal na corte imperial em Constantinopla, equivalente à função moderna do Núncio apostólico, o mais alto posto diplomático da época que ocuparia até 586.

Gregório passou se relacionou com a elite bizantina da capital e tornou-se tão popular na classe mais alta que se tornou “um pai espiritual para um grande e importante segmento da aristocracia de Constantinopla”.

Gregório disputou com o patriarca Eutíquio que já defendia os erros que dariam no cisma e os fez com tanta sabedoria e fogo na presença do imperador Tibério II que esse ordenou queimar todas as obras de Eutíquio.

Gregório voltou para Roma em 585 para viver em seu mosteiro no Monte Célio, mas em 590, foi eleito por aclamação para suceder a Pelágio II, morto em mais uma epidemia de peste que assolou a cidade.

No trono de São Pedro sua primeira preocupação foi exaltar a vida contemplativa dos monges.

São Gregório enviou a Santo Agostinho de Cantuária, seu sucessor no Mosteiro de Santo André a evangelizar os anglo-saxões das ilhas britânicas.

Ele foi o primeiro a fazer uso frequente do termo “Servo dos Servos de Deus” (Servus Servorum Dei) como título papal conservado até hoje mas tal vez não tão posto seriamente na prática.

Mas a situação era muito difícil.

Os bispos da França estavam sob forte influência de famílias ricas e politicamente poderosas; na Espanha, os bispos pouco ligavam para Roma; na Itália estavam envolvidos nas intrigas e guerras locais.

São Gregório Magno,  igreja de Nossa Senhora da Assunção e São Gregório, Londres
São Gregório Magno, Nossa Senhora da Assunção e São Gregório, Londres
Em 590, a Itália romana encontrava-se em ruínas. Roma estava lotada com refugiados de todos os tipos, vivendo nas ruas sem nenhuma condição de saúde ou alimentação. Todos, inclusive os nobres e importantes, tinham pouco para comer.

O Santo Papa Gregório administrou os recursos da Igreja com tanto talento e rigor contável que seus métodos foram imitados durante séculos.

Substituiu os administradores moles e o bom clero foi muito bem provido. A Teologia da Libertação hoje o execraria como um homem do agronegócio porque pôs a produzir as terras da Igreja com metas e estrutura administrativa.

Então os cereais, vinho, queijo, carne, peixe e azeite começaram a chegar a Roma em grandes quantidades. Ele doava tudo em forma de esmolas.

Ele criou um pequeno exército de voluntários, principalmente monges, que levavam comida quente aos pobres diariamente. Ele só jantava depois de assegurar que todos os indigentes haviam sido alimentados.

Aos necessitados de famílias nobres, Gregório enviava na forma de presentes refeições que ele mesmo preparava, preservando-os da indignidade de receber caridade.

Por conta disto tudo, Gregório conquistou completamente as mentes e corações dos romanos, e o papado se estabeleceu desde então como o poder mais influente na Itália.

Em seus escritos ficaram abundantes exemplos do fogo que o animava.

Citamos um a seguir, apertando os bispos que cumprem relaxadamente seus deveres, extraído de “Regra Pastoral” (fim do capítulo 2), coleção de conselhos aos eclesiásticos, por certo grandemente válidos e necessários nos dias de hoje:

Com efeito, ninguém faz mais mal à Igreja do que um homem que, conduzindo-se de maneira indigna, tem renome de santidade ou ocupa um cargo santo.

Porque ninguém ousa denunciar a infâmia desse culpado e é com força que o crime se apresenta como exemplo quando seu autor é honrado em razão do respeito devido à função que ocupa.

Como fugiria dessas pessoas indignas o peso esmagador dessa falta se sua alma prestasse atenção a esta sentença da Verdade:

“Quem escandalizar um desses pequenos que creem em mim, seria melhor que se lhe amarrasse ao pescoço a mó que um asno gira e que se o atirasse ao fundo do mar”?

Ora, “a mó que o asno gira” designa o trabalho e os caminhos tortuosos da vida mundana.

Quanto “ao fundo do mar”, significa a suprema condenação.

Quem desceu ao ponto de ostentar santidade ou que, por palavras ou exemplos, é causa da perdição de alguém, seria melhor que levasse uma vida licenciosa sob hábito secular, encadeado à morte, antes do que ser visto pelos outros como modelo de pecado por causa das funções sagradas que exerce.

Porque se ao menos se perdesse sozinho, a tortura de seu inferno lhe teria sido menos grave.



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