domingo, 18 de junho de 2017

Bebe a água de São Vicente!

São Vicente Ferrer O. P. (1350 — 1419)
São Vicente Ferrer O. P. (1350 — 1419)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





São Vicente Ferrer, santo espanhol canonizado em 1458 fazia tantos milagres que o prior proibiu-lhe continuar a faze-los, porque já era demais.

E São Vicente obedeceu. Mas um dia andando pela rua viu um operário que caia do alto de uma obra.

Imediatamente mandou-lhe parar no ar e foi correndo até o prior para lhe pedir com profunda humildade que intercedesse para salvar o homem.

O prior não acreditou na história. Saiu correndo para o local e descobriu o homem pairando no ar sem acabar de cair.

São Vicente Ferrer, retábulo mexicano anônimo.
São Vicente Ferrer,
retábulo mexicano anônimo.
Então, reconheceu a santidade de frei Vicente e lhe permitiu acabar de salvar o homem.

               *              *             *

Certa feita, chegou até São Vicente Ferrer uma mulher que se lamentava de seu marido.

Ele era tão irascível e tão mal-humorado que a convivência tinha ficado impossível.

Pediu então a São Vicente um conselho para restaurar a paz na família.

— “Vai até o convento”, disse o santo, “e fala ao porteiro para te dar um pouco da água da fonte.

“Quando teu marido volte a casa, engole um pouco, mas não a tragues. Conserva-a na boca e verás o milagre que acontecerá”.

A mulher fez o que o santo tinha dito. No fim da tarde, quando o marido voltou a casa, nervoso como sempre, a mulher engoliu a água miraculosa e fechou os lábios.

E, em verdade, o milagre aconteceu: após poucos minutos o marido ficou tranquilo, e a tempestade na família acabou passando.

Nos dias sucessivos, a mulher fez uso desse remédio. E toda vez a água provocou o mesmo efeito milagroso.

São Vicente Ferrer, Convento de São Domingos, Buenos Aires, Argentina
São Vicente Ferrer, Convento de São Domingos, Buenos Aires, Argentina
O marido não ficava mais mal-humorado, até que pelo contrário tinha voltado a ser como fora anteriormente.

Sussurrava-lhe palavras tenras e afetuosas e louvava a paciência e a doçura dela.

A mulher ficou tão feliz com esta mudança do marido que acorreu até o santo para lhe contar o milagre operado por aquela água tão especial.

— “Não foi a água da fonte que fez esse milagre”, lhe disse São Vicente sorrindo, “mas somente teu silêncio. Antes, tuas objeções constantes enfureciam teu marido. Mas teu silêncio, pelo contrário, o deixou de novo tenro e afetuoso”.

Ainda hoje na Espanha existe a frase: “Bebe a água de São Vicente!”

Quem sabe se também nós, de vez em quando, bebêssemos algum gole! O que aconteceria?





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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Corpus Christi: Fé combativa no Santíssimo Sacramento

Procissão de Corpus Christi em La Orotava, ilhas Canárias, Espanha.
Procissão de Corpus Christi em La Orotava, ilhas Canárias, Espanha.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O Corpus Christi é a festa católica que glorifica especialmente a presença de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. A festa da instituição do Santíssimo Sacramento é na Quinta-feira Santa, na Última Ceia.

Mas a Igreja percebeu a necessidade da comemorar separadamente o Corpus Christi.

E essa festa vem sendo acompanhada de graças tão insignes, e assim o será até o fim dos tempos em que num dia glorioso mais desditado será comemorada pela última vez antes do fim do mundo.

Protestantes e hereges negam a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Esse é um dos piores escândalos da história.

Os medievais tinham uma profunda fé na presença real, que dizer que Nosso Senhor Jesus Cristo está presente verdadeira e substancialmente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade nas espécies consagradas pelo sacerdote na Missa.

Portanto, é uma devoção enorme à Santa Missa e à adoração do Santíssimo Sacramento.

Lutero e os protestantes, hoje também os progressistas, negam boçalmente a presença real.

Essa negação foi um dos pontos de fratura dos protestantes que os católicos receberam como um dos piores ultrajes jamais feitos contra Nosso Senhor.

Qual foi a tática pastoral usada pela Igreja em face dessa negação?

A Igreja teria podido dizer:

Ostensório: objeto litúrgico
para expor dignamente o Corpo de Cristo
“bem, nossos irmãos separados protestantes estão negando a presença real. Se nós vamos afirmar protuberantemente a presença real, nós aumentamos a separação. Como eles não querem saber de nenhum modo desse dogma, vale a pena então nós repensarmos o dogma da presença real.

“E tomando em consideração que os tempos mudaram, era muito natural que nós agora exprimíssemos a presença real num vocabulário diferente que agradasse aos protestantes.

“Não seria uma negação da presença real. Isto jamais! É um dogma definido por Nosso Senhor Jesus Cristo e, por causa disto, não vamos nos dizer contrários a esse dogma.

“Mas em vez de afirma-lo tão afirmativamente poderíamos dizer que Deus está presente por toda parte. Os bons amigos protestantes podem achar que Deus está presente ali, como também numa flor ou num pão qualquer.

“Nós entendemos que não é. Que Ele está realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, mas não vamos dizer isto para não criar uma cisão.

“Vamos usar um termo confuso, equívoco e assim eles ficam conosco.

“Depois, vamos começar o diálogo. No diálogo, diremos para eles: fulano, que tal seria se nós reestudássemos os fundamentos do dogma da presença real?

“Que tal verificamos juntos até que ponto esse dogma tem ou não seu fundamento da Sagrada Escritura?”

O protestante diria: “a sua dúvida é irmã da minha. E eu tenho vontade de re-pesquisar o assunto, como você tem também”.

Então, começa uma conversa a respeito do Santíssimo Sacramento em que o católico insincero diz: “olha, poderíamos chegar a um acordo, a uma terceira posição.

“Que não é inteiramente uma coisa nem inteiramente outra. Você cede um pouco, eu cedo um pouco. E afirmaremos juntos que Jesus Cristo está presente de fato na Eucaristia.

“Agora, se Ele está presente apenas enquanto Deus, ou enquanto Homem-Deus é um pormenor a respeito do qual cada um de nós reclama sua liberdade de posição. Então, nós teremos chegado finalmente a uma síntese”.

Desta forma poderia se ter evitado a ruptura entre protestantes e católicos.

Satanás, se tivesse que fazer uso da palavra, com mais inteligência e com mais charme, teria dito mais ou menos a mesma coisa.

Mas os santos, os teólogos e os papas seguiram uma política inteiramente diversa.

Procissão de Corpus Christi em Toledo, Espanha.

Eles pensaram que a Igreja Católica foi instituída por Jesus Cristo para ensinar a verdade.

E Ela não tem o direito de dar um ensinamento confuso porque o ensinamento confuso não é um ensinamento digno desse nome.

Ainda que seja involuntariamente, que seja por incompetência, ele não é digno. Porque a clareza é a primeira das qualidades do mestre.

O ensino exige, como pressuposto, a clareza.

Depois, exige a categoria do conteúdo. Um homem pode ser sábio e não ser claro.

Mas um professor confuso não pode ser professor. É mais ou menos como um homem que fabrica óculos com um cristal excelente e uma montagem muito boa.

Só que usa cristais um pouco embaçados: é uma porcaria! Pode ser o que for, é uma porcaria! Porque se não dá para ver com clareza, é uma porcaria!

Se o mestre intencionalmente não ensina com clareza, ele é pior do que um incompetente: ele é um desonesto.

Procissão de Corpus Christi na Itália.
Procissão de Corpus Christi na Itália.
Porque é uma desonestidade, é uma fraude, apresentar-se alguém com a segunda intenção de não lhe dar a verdade inteira.

Se aqueles grandes teólogos e Doutores, e a Igreja pela voz de seus Papas fizessem o silêncio a esse respeito, os fiéis receberiam um ensinamento confuso sobre uma verdade indispensável à salvação.

Então, eles estariam fraudando os fiéis e faltando com a sua missão.

Em segundo lugar, se a Igreja, fosse silenciar a respeito da Eucaristia, faria que os fiéis comungassem mal. Porque não tendo o ensinamento claro, não podiam receber bem o que eles estavam recebendo.

Quer dizer, na primeira hipótese a Igreja sacrificaria a vida espiritual de seus fiéis para manter uma unidade pútrida.

A força de toda instituição consiste em levar seus próprios princípios às últimas consequências. A partir do momento em que ela acha que tem que adoçar os seus princípios para sobreviver, ela reconhece que já morreu.

A partir do momento em que um Ministro da Guerra dissesse: “o Brasil é um país ao qual repugna tanto o estado militar que, ou o militar toma ares de civil, ou não haverá mais militares”.

Não adianta mais o militar tomar ares de civil. Porque, se repugna tanto a coerência do estado militar é preciso reconhecer de frente que o estado militar morreu. Não vale a pena entrar com voltas.

Vocações clericais: um padre deve ser, pensar, se vestir e viver como padre. Se alguém vem e diz: “bem, então, não haverá mais padres no Brasil”. A resposta só pode ser: “não adianta pôr padre de macacão para ver se alguém quer ficar padre”.

Se o país não quer ter mais padres, é porque ficou pagão. Vamos tomar a questão de frente.

Sobre a instituição da família: alguém poderá dizer: “bem, se não se fizer o divórcio, no Brasil muita gente começa a não se casar mais e a viver no amor-livre”.

A resposta é: então diga que morreu a instituição da família no Brasil. Não vale a pena fazer uma famélica, moribundinha, caricatura abastardada daquilo que deve ser, mas diga logo de uma vez: morreu a família.


Na festa de Corpus Christi: o hino Pange Lingua

Então, vamos logo dizer: morreu o Brasil. Porque um país onde não há compreensão para o estado militar, para o estado eclesiástico e nem apreço pela família, isso é um país morto.

Eu estou falando do Brasil, porque eu estou no Brasil. Eu poderia, a igual título, falar de qualquer outro país onde me encontrasse. É um exemplo hipotético que eu estou tomando.

Foi a política da honestidade, da lealdade, da integridade, da coerência.

Então, os padres do Concílio de Trento entenderam que era preciso fazer o contrário da posição dialogante.

Em oposição ao protestantismo, acentuaram o culto do Santíssimo Sacramento, instituíram uma festa para a adoração do Santíssimo Sacramento e uma procissão em que o Santíssimo Sacramento sai à rua, adorado por todos, para as multidões todas ver.

O adoram de joelhos postos em terra, reconhecendo que debaixo das aparências eucarísticas, ali está Nosso Senhor Jesus Cristo.

Foi a política de enfrentar, de não conceder, de lutar, de afirmar, de proclamar.

Daí veio para a Igreja uma torrente de graças. Exatamente a Contra-Reforma, que representou uma das maiores chuvas de graça que a Igreja tem recebido.

Enquanto o protestantismo dura e a Igreja é católica em todo o seu conteúdo, essas respostas se acentuam.

No século XIX ainda, a proclamação da infalibilidade papal, do dogma da Imaculada Conceição. No século XX, o dogma da Assunção, etc.

Até que outros ventos sopraram. Vamos dizer a verdade de frente: há incontáveis católicos que já não têm mais a coerência de sua Fé, a pugnacidade, a integridade que caracteriza a instituição quando está viva.


Hino Ave Verum


A Igreja é imortal porque é divina. Mas a correspondência de seus filhos a Ela pode diminuir e a densidade de fé decair no espírito de muitos deles.

Na festa de Corpus Christi no dia de hoje vemos como a coragem de proclamar os dogmas diminuiu. E como, portanto, há uma diminuição da Fé, em incontáveis desses que se dizem católicos.

Em 1970, no Congresso Eucarístico de Brasília, segundo os jornais, compareceram menos de 50.000 pessoas.

No ano de 1943, em São Paulo foi realizado um Congresso Eucarístico que encheu o vale de Anhangabaú inteiro, desde a Praça das Bandeiras até a praça do Correio oito vezes mais, muito aproximadamente!

A comparação é verdadeira e oportuna para mostrar como é verdadeira a afirmação da Escritura de que viria um dia em que as verdades estariam diminuídas entre os filhos dos homens.

Não propriamente negadas, mas murchas, reduzidas, apoucadas, amesquinhadas entre os filhos dos homens.

Por isso devemos nos voltar, pela intercessão imerecida mas incessante de Nossa Senhora para conosco, para aumentar a vitalidade, a correspondência à Fé, a energia e a plenitude no crer, na intransigência e na combatividade da Fé na presencia real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento.


Procissão de Corpus Christi, Friburgo, Suíça, 20.06.1956


A festa de Corpus Christi é a festa do Santíssimo Sacramento. Hoje só pode ser uma grande lição de combatividade.

Aprendamos essa lição, e procuremos ser cada vez mais combativos por amor a Nossa Senhora e por adoração ao Santíssimo Sacramento.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra proferida na quinta-feira 28.5.1970. Sem revisão do autor)



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domingo, 4 de junho de 2017

A morte de São Bento: em pé como um guerreiro que entrega a alma a Deus, contada pelo Papa São Gregório Magno

Morte de São Bento em 21 de março de 547 rodeado por discípulos (Iluminura de Monte Cassino, século XI)
Morte de São Bento em 21 de março de 547 rodeado por discípulos.
(Iluminura de Monte Cassino, século XI)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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“No mesmo ano em que havia de sair desta vida, anunciou o dia de sua santíssima morte a alguns discípulos que com ele viviam e a outros que viviam longe.

“Aos que estavam presentes, recomendou-lhes que guardassem silêncio sobre o que haviam ouvido, e, aos ausentes, indicou que sinal se lhes daria quando sua alma saísse do corpo.

São Bento, capela em San Domenico, Bologna.
São Bento, capela em San Domenico, Bologna.
“Seis dias antes da morte mandou abrir sua sepultura. Logo depois, atacado pela febre, começou a ressentir-se do seu ardor violento.

“Como a enfermidade se agravasse dia a dia, no sexto fez-se conduzir pelos discípulos ao oratório e ali se fortaleceu para a partida deste mundo recebendo o Corpo e o Sangue do Senhor.

“E, apoiando seus enfraquecidos membros nos braços dos seus discípulos, permaneceu de pé com as mãos erguidas para o céu e exalou o último suspiro entre as palavras da oração.

“No mesmo dia, dois de seus discípulos, um que se achava no monastério e outro distante dele, tiveram uma mesma e idêntica revelação.

“Viam um caminho adornado por tapetes e resplandecente de inumeráveis luzes que saía de seu mosteiro pela parte do Oriente e se dirigia ao Céu.

“No alto, um personagem de aspecto venerável e luminoso lhes perguntou se sabiam que caminho era aquele que estavam contemplando.

“Eles responderam que não sabiam. E então lhes disse:

– Este é o caminho pelo qual Bento, o amado do Senhor, subiu ao Céu.

Velório de São Bento. Lorenzo di Niccolò di Martino (1373 – 1412).
Velório de São Bento. Lorenzo di Niccolò di Martino (1373 – 1412).
“Assim, ao mesmo tempo em que os discípulos presentes assistiram à morte do santo varão, os ausentes a conheceram graças ao sinal que lhes havia anunciado.

“Séculos após o falecimento, São Bento apareceu a Santa Gertrudes, sua ilustre filha espiritual.

“Arrebatada em admiração contemplando suas grandezas, recordou-lhe sua gloriosa morte quando, na Igreja de Monte Cassino, após ter recebido o Corpo e o Sangue do Senhor, sustentado nos braços de seus discípulos e de pé como um guerreiro, entregou a santa alma a Deus em prece derradeira.

“Gertrudes ousou pedir-lhe, em nome de tão preciosa morte, que se dignasse assistir com sua presença, em sua última hora, a cada uma das religiosas que então compunham o mosteiro de que fazia parte.

Túmulo de São Bento e de sua irmã Santa Escolástica, abadia de Montecassino, Itália.
Túmulo de São Bento e de sua irmã Santa Escolástica, abadia de Montecassino, Itália.
“O santo patriarca, seguro do seu crédito junto ao soberano Senhor de todas as coisas, respondeu-lhe com a doce autoridade do seu falar neste mundo:

“– A todo aquele que reconhecer o favor com que meu Mestre dignou-Se honrar meus últimos momentos, obrigo-me a assisti-lo eu mesmo na hora de sua morte.

“Serei para ele um baluarte que o defenderá com segurança contra as investidas do demônio.

“Fortificado por minha presença, escapará às ciladas dos inimigos de sua alma e o céu se abrirá diante dele”.


(Fonte: excerto de “Vida e Milagres de São Bento”, escrita pelo Papa São Gregório Magno, in Aleteia)



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domingo, 21 de maio de 2017

Esplendor e gáudio dos bem-aventurados no Céu segundo Santos e Doutores

Coroação de Nossa Senhora no Céeu.
Fra Angelico, Galeriadegli Uffizi, Florença.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Um dogma de nossa Fé – o Céu e a felicidade eterna –, cuja importância torna-se patente, é, no entanto pouco conhecido pelos fiéis e, de modo geral, insuficientemente explanado.

Explica-se, pois, que, às vezes, ouçam-se frases como esta:

“O Céu deve ser um local sem animação (a qual, na mentalidade do homem moderno, é com­ponente indispensável da felicidade), onde todos fi­cam eternamente parados, sentados em nuvens, ouvindo as infindáveis melodias dos coros angélicos...”

Essa distorcida noção do que seja a bem-aventurança celeste – infelizmente não rara até entre católicos–, revela uma ignorância crassa a res­peito do prêmio que Deus reserva a seus eleitos, e da própria natu­reza divina.

Todos os católicos bem formados devem desejar ardentemente alcançar o Céu e tê-lo sempre presente em suas cogitações.

Especialmente em nossos dias, em que a civilização neopagã contemporânea tende para o oposto, em que os modos de ser, as manifestações de pseudo-cultura e pseu­do-arte – a moderna e a pós­moderna – pendem para o horrível, o monstruoso... e, no fim desse processo, para o diabólico!

Exagero... pensará algum leitor. Para convencê-lo do contrário, basta lembrar um indício significativo: os temas cada vez mais frequentes na música o rock'n'roll são o inferno e Satanás.

Falando da glória dos santos no Céu, São João Crisóstomo diz que o último dos eleitos possui no Céu um esplendor e uma glória maiores que os manifestados por Jesus Cristo em sua transfiguração, pois, no Tabor,

Ele amenizou tal glória e esplendor para adequá-los à vista de seus três Apóstolos, São Pedro, São Tiago e São João.

Por outro lado, os olhos corporais não podem suportar um brilho que os olhos da alma podem agüentar perfeitamente. Logo, os Apóstolos não viam senão a glória exterior, enquanto no Céu veremos ao mesmo tempo a glória exterior e interior de Deus e de cada um dos eleitos.

Santa Teresa conta que, certo dia, o Divino Redentor mostrou-lhe sua mão glorificada. Para dar-nos uma ideia do esplendor desta mão, estabeleceu ela a seguinte comparação:

“Imaginai, diz a Santa, um rio muito límpido, cujas águas correm tranqüilamente por um leito do mais puro cristal. Imaginai ainda, quinhentos mil sóis tão ou mais brilhantes que o Sol que ilumina a Terra.

“Figurai-os reunindo neste rio todos os seus raios refletidos pelo cristal sobre o qual o rio corre.

“Pois bem, esta luz deslumbrante não é senão uma noite escura, comparada com o esplendor da mão de Jesus Cristo”.

Santa Teresa refere-se apenas, à mão de nosso Salvador. Qual não será, pois, a luz e o brilho que emitem sua humanidade e sua divindade reunidas!

Juntai ao esplendor do Filho, o do Pai e o do Espírito Santo, o da Mãe de Deus, o dos coros dos Anjos, dos Patriarcas e o dos Profetas, o dos Apóstolos e dos mártires, dos confessores e das virgens e o de todos os santos, e tereis uma ideia do que é a glória celeste.

“Os bem-aventurados – observa Santo Agostinho – veem a Deus e sempre desejam vê-Lo, tão agradável é esta visão. E neste deleite descansam cheios de Deus.

“Nunca se afastando da bem-aventurança, são felizes. Contemplando sem cessar a eternidade, são eternos.Unidos à verdadeira luz, convertem-se também em luz.

“Ó bem-aventurada visão mediante a qual se contempla em toda sua beleza o Rei dos Anjos, o Santo dos Santos, a quem todos devem a existência” (De Anima et Spiritu).

E São Bernardo, meditando a felicidade celeste, exclama:

“Lá veremos o brilho da glória, o esplendor dos Santos, a majestade de um poder verdadeiramente real; conheceremos o poder do Pai, a sabedoria do Filho, a bondade infinita do Espírito Santo.

“Ó bem-aventurada visão, que consiste em ver a Deus em si em si mesmo em vê-Lo em nós, e em ver-nos n’Ele com uma feliz alegria e com uma inefável felicidade” (In I Medit., c. IV).

Os eleitos são iluminados pelo esplendor de Deus e pelo seu próprio esplendor que é o reflexo do de Deus.

O Criador, o eterno sol de Justiça, enche o Céu e os seus eleitos com o divino brilho.

Os santos são como outros tantos sóis submersos nos raios do sol supremo do qual recebem todo o seu brilho, ao mesmo tempo que cada um deles participa também do esplendor de todos os seus companheiros.

“No Céu, diz Santo Agostinho, não haverá ciúmes que provenham da desigualdade de amor. Todos se amam da mesma maneira.

“O Céu, acrescenta, será testemunha de um belíssimo espetáculo: nenhum inferior invejará a sorte dos que estiverem acima dele, como no corpo humano o dedo não tem ciúme do olho, nem os ouvidos da língua, nem os pés da cabeça”.

Um pequeno vaso cheio de líquido está tão repleto como um grande. Uma fonte cujas águas transbordam, está tão cheia quanto o mar.

Assim sucede com os eleitos. Deus está igualmente em todos. Porém, aquele que tiver acumulado mais, não dinheiro, mas fé, terá mais capacidade relativamente a Deus.

Tal caridade une perfeitamente os eleitos entre si: o bem que um eleito não recebe diretamente, ganha-o, de certo modo, pela felicidade que experimenta, vendo-o recebido por outro.

Ficam tão satisfeitos com o bem que cabe a seus companheiros, como se fosse o próprio bem.

E acrescenta Santo Agostinho:

“Uma terna mãe alegra-se com as carícias que fazem a seu filho querido, considera-as como se as concedessem a ela própria. Da mesma forma, cada um dos eleitos estima como feitos a si mesmo os bens que Deus oferece a seus companheiros de bem-aventurança”.

“Felicidade inefável a dos eleitos!

“O que cada eleito quiser, seja quanto a si mesmo, seja em relação a seus companheiros, ou ao próprio Deus, imediatamente se verificará.

“Existe outro reino comparável na Terra? Todos juntos com Deus serão reis, constituindo como que um só rei, como um só poder.

“Vi – diz São João no Apocalipse (7, 9) – uma multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, de todas as tribos, de todos os povos e de todos os idiomas.

“Estavam de pé diante do trono e diante do Cordeiro portando vestimentas brancas com palmas na mão”. 

Estas palmas significavam a vitória. Aos vencedores concedem-se honras reais.

Os eleitos verão a face de Deus. Seu nome estará escrito sobre suas frontes. Reinarão por todos os séculos dos séculos.

Gozarão constantemente da visão de Deus, como seus amigos e íntimos. Diante do Criador serão mais príncipes e reis do que servidores.

“Ó Senhor, exclama Santo Agostinho, quão glorioso será vosso reino, onde todos os Santos reinam convosco, revestidos de luz como de um manto e tendo sobre suas cabeças uma coroa de pedras preciosas!

“O reino da eterna bem-aventurança, onde sois, Senhor, a esperança dos Santos e o diadema de sua glória!” (Solilóquios, C. XXXV).

(Fonte: Tesoros de Cornélio a Lapide. Extratos dos comentários deste autor sobre as Sagradas Escrituras feitos pelo Padre Barbier. tradução da 2ª edição francesa. 2ª edição espanhola. Vich, Madri, 1882, pp. 226 e ss.)



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