quinta-feira, 15 de julho de 2021

Nossa Senhora do Carmo, guia da luta dos profetas

Nossa Senhora do Carmo, Filipinas. Fundo: Monte Carmelo
Nossa Senhora do Carmo, Filipinas. Fundo: Monte Carmelo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







No 16 de julho a Igreja comemora a festa de Nossa Senhora do Carmo.

Sua invocação Virgem Flor do Carmo é a mais antiga e remonta a oito séculos antes de seu feliz natalício.

Como pode ser que a Mãe de Deus fosse venerada oitocentos anos antes de nascer?

A história é maravilhosa e intimamente ligada à montanha do Carmelo em Terra Santa.

Para aparentemente complicar mais as coisas, arqueólogos e historiadores registram que civilizações pagãs também cultuavam uma virgem que daria à luz o salvador do mundo.

Na elevação onde fica a cidade de Chartres, França, sede de uma das mais belas catedrais de Nossa Senhora, em tempos pré-cristãos, os bruxos dos pagãos druidas, ditos charnuts, tinham essa crença e a chamavam “Virgo Paritura” (“A virgem que dará a luz”).

De onde viera essa noção e quem a levou?

Os romanos invocavam a deusa Ceres que designavam como “Rainha dos Céus” e “Santa Virgem” e diziam que seria mãe de Baco, o salvador executado, mas que ressuscitou três dias depois.

A mesma saga aparece com nomes diversos e mitos deturpados na Babilônia, na Índia e nos egípcios para citar os principais. Cfr Montmin.

Como isso pode ser?

Não é tão difícil responder. A explicação está nos capítulos iniciais da Bíblia e foi dada por Deus Criador a Adão e Eva sendo endereçada também à serpente Satanás.

‘15. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar’”. (Gênesis, 3)
‘15. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela.
Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar’”. (Gênesis, 3)
Igreja de Laguardia, Álava, Espanha.
Após terem cometido o pecado original, Deus profetizou aquilo que seria a coluna vertebral da História:

“Então o Senhor Deus disse à serpente:

“‘15. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar’”. (Gênesis, 3)


Esta profecia foi conhecida pela humanidade que toda ela procede do primeiro casal.

Os pagãos a foram retransmitindo de geração em geração mas introduziram fantasias e deformações. Ela só ficou íntegra no povo eleito.

Por isso lemos Isaías profetizando a Virgem Mãe, a Natividade do Messias, seus atributos divinos, seu Reino Universal, seu Sacrifício salvador, aproximadamente sete séculos antes da vinda do Cristo. Isaías viveu entre 740 e 681 a.C.

Isaías profeta, Aleijadinho, Congonhas. “Uma virgem conceberá
e dará à luz um Filho, e ele será chamado Emmanuel,
isto é, Deus Conosco”
“Pois por isso o mesmo Senhor vos dará este sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emmanuel” (Isaías, 7,14).

São Mateus, em seu Evangelho destaca que o nascimento de Jesus é o cumprimento da profecia de Isaías:

“Uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e ele será chamado Emmanuel, isto é, Deus Conosco”. (Mt 1,22-23)

Ainda o profeta Isaías que nos retrata a alma de Maria Santíssima e nos diz que terá sua sede no Monte Carmelo:

“No deserto habitará a equidade, e a justiça terá o seu assento no Carmelo (vergel).

“A paz será a obra da justiça e o fruto da justiça é o silêncio e a segurança para sempre.

“O meu povo repousará na mansão da paz, nos tabernáculos da confiança”. (Isaías, 32, 16-18)


Carmo, ou Carmelo, em hebreu significa jardim. A alma de Nossa Senhora é um jardim de virtudes, é um oásis de silêncio e de paz, onde reina a justiça e a santidade, oásis de segurança, todo cheio de Deus.

Nossa Senhora do Carmo, Sao Joao del Rey
Nossa Senhora do Carmo, São João del Rey
Israel é a terra prometida, mas o Carmo é sua parte mais bela e perfumada porque é Nossa Senhora. É a parte reservada onde Deus encontra suas delícias. É o jardim de um requinte único.

Só uma alma completamente desprendida e que domina inteiramente as suas paixões, poderia, como Maria Santíssima, ser o verdadeiro Carmelo, onde Nosso Senhor Jesus Cristo faz suas delícias e esmaga a serpente que tem em grau insuperável todos os vícios opostos.

Perto do topo do Monte Carmelo há uma venerada gruta. Nela moraram o profeta Santo Elias (século IX a.C.) e seus primeiros discípulos, segundo as Escrituras.

Santo Elias foi o fundador da Ordem do Carmo e o primeiro a ver profeticamente a Nossa Senhora.

E foi o primeiro a presta-lhe culto junto com seus primeiros seguidores, os primeiros carmelitas.

Elias e os seus iniciaram a devoção à Virgem Flor do Carmo.

A Ordem do Carmo – Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo – nasceu no Antigo Testamento e é a mais antiga instituição monástica. Ao mesmo tempo, está destinada a durar até o fim do mundo.

Seu fundador nasceu em Tesba, da tribo de Gad, no século IX a.C.

Ele criou comunidades na Terra Santa. A mais famosa morava no Monte Carmelo com vista para o Mar Mediterrâneo (hoje periferia de Tel Aviv-Haifa).

Os seguidores de Elias foram chamados “filhos dos profetas”. O mais conhecido foi Santo Eliseu (cf. I Re, XIX, 19-21; II Re, II, 1 e segs.).

Na segunda metade do século XII, um grupo de cruzados adotou a vida eremita no Monte Carmelo, ao redor da “fonte de Elias” se consagrando a Nossa Senhora à imitação do grande profeta do Antigo Testamento.

Nossa Senhora do Carmo. Espanha
O primeiro superior geral no Novo Testamento foi São Bertoldo de Malefaida. O segundo, São Brocardo († 1220), inspirou a Regra Carmelita aprovada por Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém, no início do século XIII.

Mas, os carmelitanos só têm como fundador a Santo Elias. Na Basílica de San Pedro, entre as estátuas dos santos fundadores, está a de Santo Elias como pai e chefe do Carmo.

Sete papas – Sisto IV, João XXII, Júlio III, São Pio V, Gregório XIII, Sisto V e Clemente VIII – em respectivas Bulas, dizem que os Carmelitas “preservam a sucessão hereditária dos santos profetas Elias e Eliseu e dos outros pais que moravam perto da fonte de Elias no santo monte Carmelo”.

Sisto V autorizou o culto de Elias e Eliseu como patronos da Ordem, dias de festa em sua honra e Ofícios em sua memória (cf. RP Cornelio a Lapide SJ, Commentaria in Scripturam Sacram, In librum III Regum - cap. XVIII, Ludovicus Vivès Bibliopola Editor, Paris).

Quando os sectários de Maomé invadiram a Palestina, os carmelitanos se refugiaram na Europa. A partir daí, por meios providenciais, se expandiram pelo mundo.

São Simão Stock recebeu o escapulário de Nossa Senhora em Cambridge, Inglaterra, e Santa Teresa de Jesus iniciou uma gloriosa restauração da Ordem em Ávila, Espanha.

O futuro retorno do profeta Elias, o arqui-devoto de Nossa Senhora do Carmo, está aludido no livro do Apocalipse. Esse fala das duas testemunhas que virão lutar contra o Anticristo no fim do mundo.

A quase totalidade dos autores interpreta que o primeiro será Santo Elias. Há disparidade de opiniões sobre quem será o segundo, uma boa metade defende com respeitáveis argumentos que será o patriarca Henoc.

Bem antes do fim do mundo, na nossa crise atual, Nossa Senhora do Carmo inspirará a vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos. Esses Apóstolos foram antevistos sobrenaturalmente por numerosos santos com luzes proféticas.

Santa Teresa de Jesus, em 1615 Peter Paul Rubens (1577-1640)
Kunsthistorisches Museum, Viena
Merece especial destaque as visões da restauradora do Carmelo Santa Teresa de Ávila, quem assim os viu misticamente e descreveu:

“12. Estando uma vez em oração com muito recolhimento, suavidade e quietude, parecia-me estar rodeada de anjos e muito perto de Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja.

“Deu-se-me a entender o grande proveito que, nos últimos tempos, há-de fazer uma Ordem e a fortaleza com que seus filhos hão-de sustentar a Fé.

“13. Estando uma vez rezando perto do Santíssimo Sacramento, apareceu-me um Santo cuja Ordem tem estado um tanto decaída:

“Tinha nas mãos um grande livro, abriu-o e disse-me que lesse umas letras, que eram grandes e muito legíveis e diziam assim:

“‘Nos tempos vindouros florescerá esta Ordem; haverá muitos mártires’.

“14. Outra vez, estando no Coro em Matinas, apareceram-me e se puseram diante dos [meus] olhos seis ou sete religiosos que me parece seriam desta mesma Ordem; com espadas na mão.

“Penso que nisto se dá a entender que hão de defender a Fé; porque, de outra vez, estando em oração, se me arrebatou o espírito e pareceu-me estar num grande campo onde muitos combatiam, e estes, os desta Ordem, pelejavam com grande fervor.

“Tinham os rostos formosos e abrasados e deitavam muitos por terra, vencidos, e a outros matavam. Parecia-me que esta batalha era contra os hereges.

“15. Tenho visto algumas vezes este glorioso Santo, e tem-me dito algumas coisas, e agradecido pela oração que faço pela sua Ordem e prometido de me encomendar ao Senhor.

“Não declaro as Ordens, para que não se agravem outras; se o Senhor for servido, que se saiba, Ele o declarará.

“Mas cada Ordem, ou cada membro de per si, deveria procurar que por seu intermédio fizesse o Senhor tão ditosa a sua Ordem que, em tão grande necessidade como agora tem a Igreja, a servissem. Ditosas vidas que nisto se acabarem!”

(Santa Teresa de Jesus O.C.D., “Libro da Vida”, cap.40, apud Obras Completas, BAC Nº 212, Madrid, 1979, 6ª ed. revisada, 1184 págs, pp. 186-187).

Estátua de Santo Elias e Beato Palau. Fundo Monte Carmelo
Estátua de Santo Elias e Beato Palau. Fundo Monte Carmelo
Um outro carmelitano dotado de luzes proféticas – o Beato Pe. Francisco Palau – deduz de um diálogo espiritual com a Ssma. Virgem do Carmo que a Mãe de Deus fará surgir esses enviados de Deus das gloriosas hostes carmelitanas :

“Definirei tua missão em três pontos. (...): 1º. a revelação de minhas glórias ao mundo, 2ª a restauração da Ordem do grande profeta Elias, 3ª a missão deste profeta na terra.

“1. Com relação ao primeiro, (...) vou direcionar tua caneta, pincel e lápis; e por trás das sombras, das figuras, das espécies e dos enigmas, me darei a conhecer àqueles que escolhi para que, quando chegar a tremenda hora de combate, me amem e sejam fiéis.

“2. Distribui as armas do santo Monte do Carmelo, para os escolhidos serem filhos do grande profeta Elias e se acolham à sua proteção e os prepararm para receberem o espírito duplo desse grande profeta. (...)

“Entende-te sobre eles com teu pai Santo Elias; e diz a eles que estão sob sua proteção e direção, que o reconheçam como seu general, e que peçam que Deus lhes dê o espírito forte do Profeta” (Pe. Francisco Palau, “Mis relaciones con la Iglesia”, in “Obras Selectas”, Editorial Monte Carmelo, Burgos, 1988, 818 págs., pp. 457-458).

Nossa Senhora do Carmo, São João del Rey, Procissão
Nossa Senhora do Carmo, São João del Rey, Procissão
O prof. Plinio Corrêa de Oliveira comentou a respeito que o mais nobre e mais alto apostolado consiste em levar a Humanidade inteira para a Igreja.

O Bem-aventurado carmelitano Francisco Palau via que na nossa época se jogava a salvação eterna da Humanidade constituída por nações que são corpos morais.

Os demônios e a Revolução tratam de conquistar as nações. Os filhos da luz querem conquistar a Humanidade inteira para Nossa Senhora e, por meio dEla, para Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quer dizer, o objeto mais nobre e mais alto do apostolado hoje não consiste em levar para a Igreja esta ou aquela alma, mas as nações e a Humanidade inteira para Deus.

Ligado a Nossa Senhora pela sagrada escravidão a Ela há o filão dos escravos dEla, cujo alfa e ômega é o profeta Elias.

Seria uma bela réplica à Revolução que tentou destruir a Cavalaria, que irrompesse na História essa família de almas angélica e cavalheiresca dos Apóstolos dos Últimos tempos.

Essa cavalaria angélica tem sua cabeça em Elias Profeta e seus continuadores.

Ao longo dos milênios Nossa Senhora do Carmo comanda esse filão espiritual. Filão inaugurado por Santo Elias nos primeiros séculos da História que esse varão do Carmelo, e que depois virá ele próprio no encerramento.

Compreende-se então, que Nossa Senhora tenha querido aparecer em Fátima no dia do milagre do sol revestida também com o manto do Carmo, além de Fátima e do Rosário.

Nesse contexto, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira compôs uma oração pessoal a Nossa Senhora do Carmo, que reza assim:

“Senhora do Carmo, que por desígnio de Deus mesmo antes de nascer, foste fundadora do grande veio de profetas que começou com Elias e que irá até o fim do mundo com o carisma da profecia na Santa Igreja Católica.

“Vós que ensinastes antes mesmo de existirdes;

“Vós que fostes o modelo daqueles que creram no Salvador que viria;

“Vós que fostes o apogeu da esperança daqueles varões de Deus, porque Vós fostes a nuvem da qual choveu o Salvador;

“Vós sois hoje a Arca da Aliança, da qual virá a vitória sobre o mundo.

“Enchei-me, ó minha Mãe, da certeza dessa vitória, da coragem de estar de pé na derrota e na adversidade, esperando o dia da glória. Assim seja”.



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domingo, 11 de julho de 2021

A Santa Mão

Vallbona de les Monges Real Monasterio de Santa María
Vallbona de les Monges, Real Monasterio de Santa María
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Na igreja do convento das Bernardas, de Vallbona, se conserva uma mão humana seca e apergaminhada.

A legenda conta que ela pertenceu a um monge do mosteiro de Santa Creus.

Neste mosteiro havia dois monges que, mesmo antes de entrar no convento, eram amigos inseparáveis.

Dentro do mosteiro continuaram com a boa amizade, fazendo sempre juntos suas orações, seus passeios e suas meditações.

Então prometeram-se mutuamente que, se um deles morresse, o que sobrevivesse rezaria todos os dias pelo outro, dizendo diante de seu túmulo um responsório.

Passaram-se os anos, e os dois monges não se separaram nunca, até que um deles morreu.

Seguindo o costume do mosteiro, foi sepultado no subterrâneo, no lugar destinado a ele, num sarcófago de pedra, como todos os companheiros que o haviam precedido.

No dia seguinte à morte, seu amigo desceu ao subterrâneo.

Ajoelhado diante da tumba, rezou devotamente o responsório, tal como havia prometido.

Ao terminar, viu, mudo de espanto, que a tampa do sarcófago se levantava para deixar passagem a uma mão.

Esta lhe deu a bênção, ficando um momento fora da tumba, quieta, como que esperando que ele a tomasse.

Nada disse o monge do que havia ocorrido, por temor de que se tratasse de uma alucinação, devido ao muito afeto que sentia por seu amigo.

Desceu no dia seguinte, rezou, e ao terminar, outra vez saiu a mão do amigo da tumba e lhe deu a bênção.

Todos os dias descia o monge, e todos os dias a mão do amigo o bendizia piedosamente.

O monge não se pôde calar por mais tempo.

Deu contas ao prior do que sucedia.

No outro dia desceram com ele o prior e toda a comunidade.

Iluminaram a tumba com círios bentos e cantaram todos um responsório pelo companheiro.

Quando terminaram, levantou-se a tampa do sarcófago, como ocorria todos os dias, e apareceu uma mão pálida, benzeu a seus companheiros e ficou depois um momento imóvel.

Santa Maria de Vallbona
Santa Maria de Vallbona
O prior aproximou-se então da tumba, e com olhos cheios de lágrimas pela emoção, tomou entre as suas a mão do monge.

Sem puxar, sem fazer esforço algum, a mão se desprendeu do corpo e ficou entre as do prior, que caiu de joelhos ante o milagre.

Durante muitos anos a mão se conservou na capela do mosteiro de Santa Creus.

Mais tarde foi trasladada ao convento das Bernardas, Vallbona, onde até hoje se encontra.



(Fonte: V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)



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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Festa do Preciosíssimo Sangue: ninguém provou mais que Cristo seu amor por nós

Jesus, piedoso pelicano que da Seu Sangue para alimentar os filhotes. Igreja de Nossa Senhora das Dores. Phoenix, Arizona
Jesus, piedoso pelicano que da Seu Sangue
para alimentar os filhotes.
Igreja Nossa Senhora das Dores. Phoenix, Arizona
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Das festas em que se honra Nosso Senhor Jesus Cristo, talvez nenhuma fala tanto ao espírito e impressione tão profundamente, quanto a festa do Preciosíssimo Sangue.

É claro que tais reações são individuais e dependem do modo da graça tocar cada pessoa.

O sangue é uma parte de nossa pessoa e deve-se ao Sangue de Cristo toda a adoração que se deve ao próprio Cristo.

É condição natural do sangue estar dentro do organismo de maneira que toda efusão apresenta um caráter catastrófico.

Numerosas doenças se anunciam por uma perda de sangue. É uma desordem-desastre, um sinal de alarme violento de que as condições orgânicas não estão boas.

O sangue vertido fala-nos da luta e do crime. O sangue de Abel, vertido por Caim segundo a Escritura subia a Deus clamando por vingança.

O sangue derramado pelo crime, aponta uma dilaceração profunda do ser que nos dá a ideia de algo de injusto, violento, iníquo, uma perturbação profunda que clama a Deus pelo restabelecimento da ordem.

Quando pensamos no Sangue infinitamente Precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, consideramos q Ele foi gerado no seio de Nossa Senhora, e sai de Seu Santíssimo Corpo de onde nunca deveria ter saído, como o vinho que sai da uva.

Esse é o sangue de Davi, de Maria, do Homem-Deus e que, por atos de violência deicida inomináveis, pela flagelação, pela coroação de espinhos, pela cruz carregada, pelos tormentos da alma quando Nosso Senhor, na agonia, começou a sofrer e que o sangue transudava de todo o seu Corpo.

“Ecce Homo”, disse Pilatos à multidão que pedia a morte de Jesus
“Ninguém prova mais a amizade do que dando a vida por seu amigo”
Esse Sangue é uma tal manifestação de onde pode ir a maldade humana, o mistério da iniquidade, a manifestação de quanto Deus tolera, é um memorial para nós compreendermos até onde é capaz de ir a natureza humana decaída, sobretudo quando dirigida pelo pecado e pelo demônio.

O mal é capaz de tudo, das piores infâmias e contra ele, se podem empregar todas as violências preventivas segundo a Lei de Deus e dos homens.

Tudo quanto é otimismo bobo, deixar para depois, é um verdadeiro crime, porque até lá o mal foi capaz de ir e, portanto, ele foi capaz de tudo.

Esta consideração é muito desagradável para a nossa índole bonacheirona, dulçurosa, amiga de pactuar, inimiga das divisões.

Mas, devemos meditar, diante do Precioso Sangue, até onde a Revolução vai.

A Revolução não recua diante de nada, ela se voltou contra o Homem-Deus.

Diante do Sangue derramado é importante notar a misericórdia de Deus, que quis derramar numa abundância inaudita.

Todo o Sangue que havia no Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo foi derramado, sem reserva de uma só gota, pelo imenso desejo de Nosso Senhor de nos salvar.

Uma gota de Seu Sangue teria servido para tudo, mas Ele derramou todo o sangue que tinha.

A tal ponto que, ainda aquilo que lhe restava, na lança com que Longino lhe cravou, foi vertido juntamente com água. Ele quis que dEle não restasse nada, para nos remir.

Essa abundância de sangue, de sofrimento, essa entrega completa de si, lembra uma palavra de Nosso Senhor: “Ninguém prova mais a amizade do que dando a vida por seu amigo”.

Ora, no cerne da festa do Preciosíssimo Sangue está essa afirmação: “ninguém pode ser mais amigo de cada um de nós do que aquele que dá a vida por nós”.

Ele fez mais, porque quis sofrer toda a morte das pancadas, da angústia em cada gota de sangue que ia saindo de seu corpo sagrado.

Cada gota de sangue que caia era uma pequena morte. Ele quis passar por todas essas pequenas mortes para mostrar até que ponto infinito Ele tinha amizade a nós.

Procissão do Preciosíssimo Sangue, em Weingarten, Alemanha
Procissão do Preciosíssimo Sangue, em Weingarten, Alemanha
Daí confiar em Sua misericórdia.

Cobrindo-nos de Seu Sangue e apresentando-nos ao Padre Eterno pedindo perdão para nós, devemos ter confiança de que obteremos.

Mas, por outro lado, mostra o horror do destino eterno do condenado. Para evitar essa condenação eterna, Nosso Senhor chegou até esse ponto.

Então, medimos a profundeza do inferno considerando uma gota do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Qualquer consideração sobre o Sangue de Cristo nos faz lembrar as lágrimas de Maria. E depois da Eucaristia.

Nosso Senhor não quis que Nossa Senhora vertesse uma gota de Seu sangue. Permitiu tudo contra Ele, mas não permitiu que as potências do mal tocassem sequer com a ponta do dedo em Sua Mãe Imaculada.

Ela não teve tormento físico. A Redenção viria inteira do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas Nossa Senhora verteu uma forma de sangue: foram Suas lágrimas.

As lágrimas são o sangue da alma. E Ela sofreu toda a dor da morte dEle nas lágrimas dEla que se juntaram a esse Sangue.

Foi o primeiro tributo da Cristandade para completar aquilo que Deus quis que fosse completado em Sua Paixão, pelo sofrimento dos fiéis, para que as almas se salvassem em quantidade.

Representação piedosa do momento tremendo do golpe no corpo exânime de Jesus Cristo Passo da Hermandad de la Lanzada, Semana Santa, Sevilha.
Representação piedosa do momento tremendo do golpe no corpo exânime de Jesus Cristo
Passo da Hermandad de la Lanzada, Semana Santa, Sevilha.
Por fim, é preciso pensar na Sagrada Eucaristia. O Sangue de Cristo vertido pelas ruas, pelas praças, no Pretório de Pilatos, no alto do Calvário, está inteiro na Sagrada Eucaristia.

Então, quando recebermos o Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos nos lembrar disso.

Esse Precioso Sangue, derramado por nós, é por nós recebido na Comunhão.

Ele entra dentro de nós como o sangue de Abel, não para clamar castigo, mas para clamar misericórdia por nós.

Então, recebermos a Eucaristia com muita confiança, com muita alegria, porque recebemos o Sangue de Cristo que sobe ao céu e brada pedindo por nós.



(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 1° de julho de 1965; apud Pliniocorreadeoliveira.info).





Vídeo: Procissão do Preciosíssimo Sangue de Cristo (Weingarten, Alemanha)





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domingo, 27 de junho de 2021

São Bernardo: oração da confiança inabalável em Nossa Senhora

Nossa Senhora de Segovia
Nossa Senhora de Segovia
Luis Dufaur
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São Bernardo compôs uma oração a Nossa Senhora que figura com o nome “Ato de abandono cego e de amorosa confiança na doce Virgem Maria”, no “Livre d'Or - Manuel complet de la parfaite dévotion à la très sainte Vierge d'après S. Louis-Marie de Montfort” (6e. édition, Pères Montfortains, Louvain, 1960, pages 689-692) que nos bons tempos se encontrava a disposição dos fiéis.

Ela reza assim:

“Ó doce Virgem Maria, minha augusta soberana, minha amável Senhora, minha Mãe amorosíssima, ó doce Virgem, eu coloquei em Vós toda minha esperança e eu não serei confundido.

“Doce Virgem Maria, eu creio tão firmemente que do alto do Céu Vós velais dia e noite sobre mim e sobre aqueles que esperam em Vós.

“Eu estou tão intimamente convencido de que jamais pode faltar nada quando se espera tudo de Vós, que resolvi viver daqui para o futuro sem nenhuma apreensão, e me descarregar inteiramente sobre Vós em todas as minhas iniquidades.

“Doce Virgem Maria, Vós me estabelecestes na mais inabalável confiança.

“Ó, mil vezes obrigado por uma graça tão preciosa. Eu ficarei daqui por diante em paz sob vosso Coração tão puro.

“Eu não pensarei mais senão em Vos amar, em Vos obedecer, enquanto Vós gerireis, Vós mesma, minha boa Mãe, os meus mais caros interesses.

domingo, 13 de junho de 2021

Santo Anselmo e as misteriosas vias de Deus

Santo Anselmo de Cantuária, catedral de Covington
Santo Anselmo de Cantuária,
catedral de Covington
Luis Dufaur
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Santo Anselmo de Cantuária (1033 ca. – 1109), Bispo, Confessor e Doutor da Igreja, foi intrépido nos combates da Fé e defendeu a Igreja contra o Rei Guilherme, o ruivo...

Na sapiente “Vida dos Santos”, do Padre Réné François Rohrbacher (1789 – 1856), vol. VII, Editora das Américas, 1959, págs.133 e ss., lemos que os bispos ingleses decidiram sagrar Santo Anselmo como arcebispo de Cantuária mas ele recusou terminantemente, pois sabia da intromissão real neste cargo.

O santo era velho e mal conseguia carregar a si próprio, como poderia levar o fardo de toda uma Igreja?

Levaram-no ao rei Guilherme II que se encontrava gravemente enfermo.

O rei aflito disse-lhe:

“Anselmo, que fazes? Por que me envias ao Inferno? Não me deixes perecer, porque sei que estou condenado a morrer conservando este Arcebispado”.

Todos os assistentes acusavam Santo Anselmo de matar o rei.

O Santo voltou-se para os dois monges que o acompanhavam e disse: “Meus irmãos, por que não me socorreis?”

Um deles respondeu: “Se esta é a vontade de Deus, quem somos nós para resistir-lhe?”

domingo, 6 de junho de 2021

São Nicolau de Flue: oração do guerreiro, místico e camponês perfeito

São Nicolau de Flue, o guerreiro perfeito, místico e camponês
São Nicolau de Flue, o guerreiro perfeito, místico e camponês
Luis Dufaur
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No livro do Pe. Charles Profillet “Les Saints Militaires” (Nabu Press, 2012), lemos a respeito do santo patrono da Suíça.

“Nicolau de Flue nasceu no dia 25 de março de 1417, falecendo no mesmo dia no ano de 1487.

“Era natural do cantão de Untervalden, na Suíça. Filho de modestos agricultores, demonstrou desde criança, aptidões invulgares de inteligência e piedade.

“Por isso seus pais procuraram dar-lhe uma educação um pouco melhor do que a que seria ministrada a um futuro lavrador.

“Nicolau sentia enorme inclinação para a vida contemplativa. Tinha visões que o convidavam a isso.

“Mortificava-se tão violentamente que sua mãe temeu por sua saúde e procurou orientá-lo nesse sentido.

“Mesmo com tal vocação, Nicolau casou-se, tendo numerosa prole e atingindo seus descendentes as mais altas dignidades do país.

“Casado, continuou com seu gênero de vida; levantava-se cada noite para rezar e todos os dias recitava o Saltério em honra de Nossa Senhora.

“Aos 23 anos foi ele chamado a lutar contra o cantão de Zurique, que se rebelara contra a confederação Helvética”.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Na festa de Corpus Christi, o hino “Ave Verum”
(“Salve, ó verdadeiro corpo”)

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na Idade Média foram compostas muitas músicas e poesias religiosas em louvor do Santíssimo Sacramento.

Esta grande devoção teve, aliás, imenso incremento no período medieval.

Podemos então dizer que ela ‒ aperfeiçoada pela Contra-Reforma ‒ chegou até nós impregnada do perfume da Idade Média.

A presencia real de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade na Sagrada Eucaristia está fundamentada nas próprias palavras de Cristo na Última Ceia: “Este é meu corpo, esta é minha sangue”.

A Fé na presença real de Cristo na Eucaristia foi professada universalmente por toda a Igreja desde sua fundação.

Só com o protestantismo que apareceram contestações, aliás mais próximas da chicana do que qualquer outra coisa. 
 
Foram sobejamente refutadas pelos Doutores e notadamente pelo Concílio de Trento.

Na crise da fé no século XX, reapareceram falsos teólogos que pretenderam reviver os erros protestantes com outro nome.

É o malfadado progressismo, que tem menos fundamento na verdade que os próprios protestantes. 
 
Todos esses erros acabarão ficando à margem da História, como já ficaram os de Calvino, Zwinglio, Melanchton ou Lutero.

domingo, 30 de maio de 2021

Os Servitas de Maria e a escravidão a Nossa Senhora: Contra-Revolução

Sete Santos Fundadores da Ordem dos Servitas
Sete Santos Fundadores da Ordem dos Servitas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Os Servitas de Maria foram sete Santos Fundadores, confessores, membros da aristocracia florentina que deram à sua Ordem a missão de propagar o culto das Dores da Bem-Aventurada Virgem Maria no século XIII.

É uma das mais antigas ordens fundadas para propagar a devoção a Nossa Senhora.

O muito bonito título de Servitas de Maria quer dizer escravos de Maria.

Como é evidente, prenuncia a devoção de São Luís Maria Grignion de Montfort, que é a devoção da escravidão no sentido próprio da palavra: um despojamento completo de todos os bens, passados, presentes e futuros inclusive os espirituais, os méritos de nossas boas obras que são postos nas mãos de Nossa Senhora.

Esse título é muito bom para marcar a diferença entre a boa piedade católica e a Revolução.

Há teólogos contemporâneos que consideram a expressão que São Luís Grignion de Montfort usa em seu Tratado uma coisa indigna do homem do século XX.

Era uma coisa que podia ser utilizada no passado, mas em nossa época, em que não há mais servos, ninguém é servo de Nossa Senhora.

domingo, 16 de maio de 2021

São Patrício, o apóstolo leão da Irlanda

São Patrício, catedral de Christ the Light, Oakland, CA
São Patrício, catedral de Christ the Light, Oakland, CA
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No livro de Ernest Hello, “A fisionomia dos Santos” (Ed. Cultor de Livros, 2014, 328 p.), há dados biográficos de São Patrício.

“São Patrício aos 12 anos foi raptado por piratas e levado para a Irlanda.

“Aí foi feito pastor, recebendo o dom da oração. Ajoelhava-se no meio do campo e rezava, cercado por seus animais.

“Depois de seis anos sai dessa região fazendo várias viagens cheias de peripécias e se tornou novamente escravo”.
A grama da Irlanda é de um verde famoso que os poetas antigos comparavam a uma esmeralda encastoada no mar ao norte da Europa.

Que cena bonita: São Patrício, pequeno, pastorzinho pobre e humilde, rezando sobre a relva esplendidamente verde da Irlanda e os animais fazendo círculo em torno dele.

Há cenas da Idade Média que dão para iluminuras ou vitrais de catedral. Porque a história e a fantasia se reúnem pelo poder da candura, da oração, da inocência fortalecida por carismas de Deus.

“Enfim, chegou ao mosteiro de São Martinho de Tours, na França. E como sempre sentira que sua vocação estava na Irlanda, partiu para evangelizá-la. Mas apesar de seus desejos, de sua santidade e de seu zelo e do chamamento sobrenatural, fracassou completamente. Foi tratado como inimigo”.
Como Deus prova os seus santos, fazendo que caminhem sem conseguir o objetivo que o próprio Deus tem em vista!

Num belo momento esse objetivo lhe vem às mãos. Aí a gente compreende como é natural sofrermos revezes.

Os que não são santos, entretanto, progridem rapidamente nas suas obras.

domingo, 2 de maio de 2021

São Gregório Magno: abriu as portas da Idade Média
e criou o gregoriano

São Gregório Magno, autor napolitano anônimo, Museu do Castel Nuovo
São Gregório Magno, autor napolitano anônimo, Museu do Castel Nuovo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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São Gregório Magno, Papa, é considerado o fundador da Idade Média no Ocidente. Sua festa é no dia 12 de maio, mas no calendário atual se celebra no dia 3 de setembro. É o pai do canto gregoriano que tem esse nome em honra a ele.

Do "Dictionnaire de la Conversation et de la Lecture" (William Duckett, 2ª Edição, de 1868, Volume 10, págs. 556 e 557)

“São Gregório nasceu em Roma, em torno do ano 540, filho do rico Senador Gordien. Foi elevado à dignidade de Pretor pelo imperador Justino, o Jovem. Gregório se fez notar pelas luzes de seu espírito, a maturidade de seu julgamento e um amor extremo da justiça. A única coisa que se imputava a ele era um grande luxo e um esplendor inteiramente mundano em suas roupas e em seus hábitos

“Gregório, cuja piedade tinha lutado incessantemente contra seu fausto, de repente fundou sete mosteiros, distribui aos pobres seus ricos trajes, seus preciosos móveis, e tomou o hábito monástico e em breve, se tornou abade, contra sua vontade.

“Impressionando pela beleza de alguns jovens ingleses expostos como escravos à venda obteve do papa Bento I a autorização de ir pregar a fé na Grã-Bretanha. Mas mal se pôs a caminho, o clero e o povo forçaram o Papa chamá-lo de volta.

“Na morte do papa Pelágio, as aclamações de Roma inteira o chamaram ao pontificado. Gregório fugiu da Cidade Eterna e escreveu ao imperador para lhe suplicar de não o confirmar na sua eleição e escondeu-se numa caverna. Mas o povo o descobriu, levou-o a Roma e o entronizou, apesar dele, no dia 13 de Setembro de 590.