domingo, 10 de agosto de 2014

Um milagre espiritual: a conversão de um príncipe

Luis Dufaur


É difícil para muitos, em nossos dias, compreender o temperamento apaixonado dos medievais, embora os desregramentos e pecados de hoje sejam em geral muito mais graves do que os de outrora.

Um caso interessante é o da família dos Plantagenetas, à qual pertencia Henrique II, duque de Anjou, que se tornou rei da Inglaterra.

Era seu contemporâneo de Luís VII, Rei da França, o qual se casou, ainda muito jovem, com Aliénor ou Eleonora, filha de Guilherme de Poitiers, duque da Aquitânia.

Com o falecimento prematuro de seu pai, Eleonora herdou o extenso e poderoso ducado da Aquitânia, cujas terras compreendiam quase todo o Sudoeste da França, do Poitou aos Pireneus.

Neta de Guilherme o Trovador, Eleonora era uma mulher brilhante, cheia de vida e de curiosidade, de espírito vivaz, inteligente e mundano.

Luís VII, ao contrário, era muito recatado e piedoso, tendo recebido sua educação do sábio abade Suger, que ergueu a primeira catedral gótica do reino em Saint-Denis.


Consciencioso, o rei quis expiar suas culpas indo à segunda cruzada, pregada por São Bernardo em Vézelay. Eleonora quis ir também com seu séquito.

Eleonora de Aquitânia em seu túmulo.  Abadia de Fontevraud, França.
Eleonora de Aquitânia em seu túmulo.
Abadia de Fontevraud, França.
No Oriente, a rainha encontrou-se com seu tio e ex-tutor, príncipe de Antioquia (que não era muito mais velho do que ela). Essas relações foram de tal sorte a causar escândalo.

Ora, a corte francesa já não via com bons olhos a leigeireza de costumes meridionais da rainha. Com o caso de Antioquia, as relações do casal real se deterioraram ao extremo.

Luís VII quis repudiá-la, Suger tentou contemporizar. Finalmente, um concílio reunido em Beaugency decidiu pela nulidade do matrimônio.

Dois meses depois, Eleonora casava-se com o turbulento Henrique II de Anjou, rei da Inglaterra, cognominado o Plantageneta. Com a herança de Eleonora, a monarquia inglesa tornava-se assim mais poderosa do que a francesa.

Henrique teve quatro filhos com Eleonora. Entretanto, as relações de família nunca foram boas. Em determinado momento, o rei encarcerou a rainha. Três de seus filhos se revoltaram e tomaram armas contra o pai.

Nossa Senhora de Rocamadour
Nossa Senhora de Rocamadour
O rei procurava favorecer como herdeiro o seu favorito, João-Sem-Terra, prejudicando os demais.

Um deles, Henrique Court-Martel, devastou então o vice-condado de Turenne e o Quercy, região onde se encontra Rocamadour.

Para puni-lo, Henrique II cortou-lhe a pensão e passou suas terras para o seu irmão, o célebre Ricardo Coração de Leão.

Como vingança, Court-Martel pilhou a abadia de Rocamadour e roubou o cofre com o tesouro de santo Amadour, constituído de pedras e jóias doadas por peregrinos, por vezes ilustres, que iam ao santuário.

Porém, quando o príncipe deixava a aldeia, os sinos começaram a tocar milagrosamente…

Abadia de Rocamadour, França.
Abadia de Rocamadour, França.
Interpretando o ocorrido como uma advertência de Deus, Henrique Court-Martel fugiu para a cidade de Martel, não muito distante, onde chegou doente, arrependeu-se e confessou os seus crimes.

Seu pai despachou um mensageiro concedendo-lhe o perdão, mas o príncipe, agonizante, deitado sobre um leito de cinzas e com uma enorme cruz sobre o peito, logo expirou, enviando um supremo adeus a sua mãe.

Sem dúvida, os medievais cometiam por vezes crimes bárbaros, mas a sua alma não estava fechada à graça de Deus como a de tantos homens de hoje.



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