domingo, 21 de julho de 2013

A Prosa parisiense da Dedicação da catedral de Notre Dame

Dedicação de uma igreja. Iluminura medieval.
Dedicação de uma igreja. Iluminura medieval.

A consagração de uma igreja é o momento mais importante de sua história.

O templo que até então não era mais que um prédio, de maior ou menor beleza segundo os casos e de um valor apenas material, em virtude da consagração litúrgica se transforma no local sagrado onde Deus passa a morar.

Pela ceremonia da dedicação Deus estabelece uma Aliança com o templo, da maneira análoga à Aliança que fez com a humanidade se fazendo homem.

O nome de dedicação vem do fato do templo ser consagrado, ou dedicado, a um titular, quer dizer, ao próprio Deus, a Nosso Senhor, a Nossa Senhora, a um anjo ou a um santo.

A festa da dedicação todo ano relembra esse acontecimento fundador. A igreja toda canta e exulta suas núpcias com Cristo Nuestro Señor, seu Rei, Pai e Esposo.

No século XII, Adam de Saint-Victor (1112 – 1192) concebeu um hino excecional para essa festa. La “Prose de la Dédicace”, ou “Prosa da dedicação” da catedral Notre Dame de Paris se espalhou rápidamente pela Europa toda e é cantada até nossos días, malgrado a cacofonía que foi atropelando muitas cerminônias.


Adam de Saint-Victor foi o principal autor da escola de música de Paris que ele renovou aperfeiçoando e lhe conferindo uma riqueza espiritual sublinhada pelo desenvolvimento musical.

O repertório de suas obras passou a ser cantado em toda a Europa Ocidental, já no século XIII desde Palermo no extremo sul da Itália, passando por Zagreb no mundo eslavo, até Aquisgrão na Alemanha ou Dublin na Irlanda no extremo norte.

Dedicação de uma igreja.  Biblioteca Univ. de Tecnologia Sydney, manuscrito MS 03
Dedicação de uma igreja.
Biblioteca Univ. de Tecnologia Sydney, manuscrito MS 03
Adam de Saint-Victor fez parte da escola parisiense dos “vitorinos” que desenvolveu a beleza das obras criadas como um caminho privilegiado para chegar até Deus, escola obviamente contraditada pelo materialismo miserabilista.

De ali que a pompa, o resplandor e o maravilhamento fossem estradas reais, segundo a conceituada escola vitorina, para a formacao e salvacao das almas, para o conhecimeto e a adoracao de Deus, de Nossa Senhora, dos Anjos e dos Santos.

Em sentido contrário a procura do quebrado, depauperado, despojado de beleza culposamente, aparecia como o meio e a consequência de se afastar de Deus e procurar o pecado e seu mentor, Lucifer.

La “Prose de la Dédicace” passou por melhoras em séculos pasados que apefeicoaram sua tradicional beleza.

A poesía de Adam de Saint-Victor contem verdadeiros tesouros teológicos pela visão da Igreja que desenvolve.

Adam de Saint-Victor morreu na abadia que lhe confere o nome – Saint-Victor – que ficava sobre a montanha de Santa Genoveva. Nessa “montanha” a poucos quarteirões de Notre Dame de Paris, do lado do Quartier Latin, repousam também os restos da padroeira da cidade Santa Genoveva, na igreja de Saint-Etienne du Mont.

Partitura da Prosa da Dedicação parisiense
Partitura da Prosa da Dedicação parisiense
O furor sacrílego e soez da Revolucao Francesa querendo sempre achincalhar o catolicismo seu culto, seus templos e sua liturgia, arrasou o mosteiro de Saint-Victor e o santuário medieval consagrado a Santa Genoveva.

Mas, as reliquias da santa foram salvas e o prestigio de Adam de Santi-Victor continua até hoje como sendo o melhor e maior poeta latino litúrgico da Idade Média.

Segundo muitos, a inspiração de Adam teve parte nos magníficos hinos de Santo Tomás de Aquino ao Santíssimo Sacramento.

A letra desta “Prosa da dedicação” contém todo o conceito católico da festa, com a candura, a força e a beleza das almas medievais.

Ela diz:

Ó filhas de Jerusalém e Sião, habitantes das santas moradias do Céu, cantai juntas uma canção de alegria. Aleluia!

Neste dia em que Jesus Cristo, o modelo de justiça, escolhe como esposa a igreja, nossa mãe, ele a tira do abismo de miséria em que estava mergulhada.

É do lado aberto do Homem-Deus cravado na cruz que o precioso sangue e a água misteriosa fluem da fonte sagrada que lhe foram dadas para lavá-la e santificá-la.

A formação da Igreja de Jesus Cristo foi prefigurada pela de Eva, a mãe comum da humanidade, que foi tirada de uma costela de nosso primeiro pai Adão.

Eva passou a morte para seus filhos, mas a Igreja é uma mãe que dá a vida a seu povo: para ele é a porta de salvação, o seu refúgio e seu forte apoio.

É o barco em que navegamos com segurança através dos recifes do século, o aprisco onde permanecemos imunes aos ataques do inimigo: a coluna da verdade sobre a qual nos apoiamos como sobre um fundamento inabalável.

Quais devem ser nossa alegria e gratidão nesta cerimónia augusta, em que nós comemoramos a união de Cristo com sua Igreja, santa união pela qual se opera a grande obra de nossa salvação!

Por esta união misteriosa os justos entram na posse da recompensa eterna, os pecadores recebem o perdão de seus crimes, e até os anjos sentem crescer sua alegria.

Essas maravilhas são o resultado da sabedoria suprema de Deus, pela única razão de sua misericórdia, que previu sua efetivação desde toda a eternidade.

Que Jesus Cristo, nosso Salvador, de quem nos tornamos filhos pela união que Ele contraiu com a Igreja nossa mãe, nós conceda degustar as verdadeiras delícias e participar das alegrias eternas do Céu dos eleitos. Amém.





Texto em latim. No vídeo acima, o coro canta algumas linhas só:
JERUSALEM et Sion fíliæ, / Cœtus omnis fidélis cúriæ, / Melos pangant jugis lætítiæ. / Allelúia.
CHRISTUS enim norma justítiæ / Matrem nostram despónsat hódie, / Quam de lacu traxit misériæ / Ecclésiam.
HANC sánguinis et aquæ múnere, / Dum pénderet in crucis árbore, / De próprio prodúxit látere / Deus homo.
FORMARETUR ut sic Ecclésia, / Figurátur in prima fémina, / Quæ de costis Adæ est édita / Mater Eva.
EVA fuit novérca pósteris ; / Hæc est mater elécti géneris, / Vitæ portus, ásylum míseris, / Et tutéla.
HÆC est cymba qua tuti véhimur ; / Hoc ovíle quo tecti cóndimur ; / Hæc cólumna, qua firmi nítimur / Veritátis.
O sólemnis festum lætítiæ, / Quo únitur Christus Ecclésiæ, / In quo nostræ salútis núptiæ / Celebrántur.
JUSTIS inde solvúntur præmia, / Lapsis autem donátur vénia, / Et sanctórum augéntur gáudia / Angelórum.
AB æterno fons sapiéntiæ, / Intúitu solíus grátiæ, / Sic prævídit in rerum série / Hæc futúra.
CHRISTUS jungens nos suis núptiis, / Recréatos veris delíciis, / Intéresse fáciat gáudiis / Electórum. Amen.



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