domingo, 25 de novembro de 2012

"Salve Rainha": a maravilhosa origem


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A “Salve Rainha” é a mais famosa oração a Nossa Senhora depois do Ave Maria.

Ela tem a impronta de devoção medieval bem marcada: unção, espírito filial e sacral, lógica e suavidade.

Ela parece ter sido sugerida pela própria Mãe de Deus à alma que a recitou pela primeira vez. Quem foi ela?

Salve RainhaÉ próprio do espírito de humildade e pureza do espírito católico não querer atrair a atenção sobre si próprio.

E em casos como este, esquecer de si próprio para atrair todas as atenções para o objeto da oração: a Santíssima Mãe de Deus.

Por isso, como em tantas outras maravilhas medievais, não se tem notícia certa do primeiro que recitou o “Salve Rainha”.

Ademar de Monteuil descobre a Sagrada Lança durante a Primeira CruzadaPorém há muito boas razões para atribuí-la a D. Ademar de Monteil, bispo de Puy-en-Velay no século XI.

Nossa Senhora do PuyEm Puy-em-Velay, na região de Auvergne, no centro da França, há um famosíssimo santuário dedicado a Nossa Senhora do Puy.

Aliás muitíssimo mais visitado nos tempos medievais do que nos séculos de decadência religiosa que advieram depois.

No santuário de Puy-en-Velay venera-se também hoje a imagem de “Nossa Senhora das Cruzadas”.

Peregrinos e cruzados que iam a Terra Santa acostumavam passar antes pelo Puy para se encomendar especialmente a ela.

Por sinal D. Ademar foi o primeiro bispo cruzado, e o primeiro cruzado. Foi ele quem, o primeiro, pediu ao Papa Beato Urbano II de portar a Cruz em sinal de guerra aos maometanos.

O acatadíssimo Migne defende que “antes de sua partida à Cruzada, pelo fim do mês de outubro de 1096, ele compôs a canção de guerra da (Primeira) Cruzada, na qual ele implorava a intercessão da Rainha do Céu, a Salve Rainha” (Migne, "Dict. des Croisades", s. v. Adhémar).

Dom Ademar descobriu a Sagrada Lança durante essa Cruzada.

Igreja de São Miguel Arcanjo, Puy-en-VelayNão menos importante é a devoção a São Miguel Arcanjo naquela abençoada localidade.

O Puy exercia quase tanto ou igual atrativo à devoção ao Príncipe da Milícia Celeste do que o famosíssimo Monte Saint-Michel na Normandia.

Além do mais, o Puy era uma das etapas as mais prezadas pelos romeiros que depois seguiam a pé ‒ e ainda hoje seguem ‒ até o longínquo túmulo do Apóstolo Santiago em Compostela, Espanha.

Há ainda outros que com boas razões acham que a “Salve Rainha” foi obra do bem-aventurado alemão Hermann Contractus, também cultuado como santo.

Por certo, a ele é atribuída a melodia gregoriana.

Entretanto, tão grande foi a devoção medieval pela Salve Rainha que o próprio gregoriano elaborou muitas formas de cantá-la.

Acresce que Durandus, no seu “Rationale”, põe na origem o espanhol D. Pedro de Monsoro, falecido perto do ano 1000, bispo de Compostela.

É lugar muito comum que as exclamações finais “ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria” tenham sido inspiradas por Nossa Senhora a São Bernardo de Claraval.

Ouçamos uma das mais famosas versões em gregoriano da “Salve Rainha”, pelo Coral da TFP americana:

Salve Regína, Mater misericórdiae, vita, dulcedo et spes nostra salve!
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!

Ad te clamámus, éxsules filii Evae.
A vós bradamos os degredados filhos de Eva;

Ad te suspirámus geméntes et flentes in hac lacrimárum valle.
a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.

Eia ergo, advocata nostra, illos tuos misericórdes óculos ad nos convérte.
Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,

Et Jesum, benedíctum fructum ventris tui, nobis post hoc exsílium, osténde.
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre.

O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria!
Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria.

Jaculatória final: Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.




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domingo, 11 de novembro de 2012

As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 3

Santa Isabel rainha de Hungria
com hábito de terceira franciscana
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




continuação do post anterior

Mas, por um maravilhoso efeito da graça divina, é sobretudo entre as filhas dos reis que se recrutam as santas da Ordem daquele mendigo que havia procurado todos os excessos da pobreza.

Quer elas entrem na estrita observância das pobres Claras, quer, retidas nos laços do casamento, elas não possam adotar senão a regra da Ordem Terceira.

A primeira em data e celebridade é Santa Isabel da Hungria, de quem escrevemos a vida. Não foi em vão, como o veremos, que o Papa Gregório IX obrigou São Francisco a enviar-lhe (a Santa Isabel) seu pobre manto; como Eliseu recebendo o de Elias, ela devia encontrar aí força para tornar-se sua herdeira.

Inflamada por seu exemplo, sua prima irmã, Inês de Boêmia, recusa a mão do Imperador dos Romanos e do Rei da Inglaterra e escreve a Santa Clara dizendo que ela também jurou viver na absoluta pobreza. Santa Clara responde-lhe por uma carta admirável que nos foi conservada, e envia ao mesmo tempo à sua real noviça uma corda para cingir seus rins, uma tigela de terra e um crucifixo.

Como ela, Isabel de França, irmã de São Luís, recusa tornar-se esposa do imperador Conrado IV, para se tornar clarissa e morrer santa, como seu irmão.