domingo, 26 de outubro de 2014

Nossa Senhora do Grand Retour:
o milagre, o esquecimento e a promessa

Notre Dame du Grand Retour, na igreja de Boulogne-Billancourt, região parisiense.
Notre Dame du Grand Retour, na igreja de Boulogne-Billancourt, região parisiense.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Por volta do ano 638, sob o reinado do bom rei Dagoberto (604-639), uma imagem de Nossa Senhora “trazida pelos anjos”, segundo tradição imemorial, veio aportar na praia do estuário do rio Liane, em Boulogne-sur-Mer, na região que depois foi denominada Pas-de-Calais, na França.

De onde vinha? Ninguém sabia.

Talvez – segundo se dizia – tivesse sido embarcada no Oriente, onde cristãos perseguidos a teriam confiado às ondas do mar antes de cair nas mãos de ferozes perseguidores.

A cronografia levanta incertezas. Mas o certo é que a misteriosa imagem foi cultuada pelos habitantes da região.

Esculpida em carvalho, ela representava Nossa Senhora de pé, envolta num halo de paz e luz que emanava dela, segurando o Menino Jesus em seu braço esquerdo.

E sua voz se fez ouvir:

“Eu sou a advogada dos pecadores, o manancial da graça, a fonte da piedade, e desejo que uma luz divina desça sobre vós e sobre vossa cidade.

“Meus amigos, façam edificar uma igreja em meu nome”, narram os manuscritos da época.

A imagem foi entronizada numa capela construída na parte mais alta da cidade, num local onde outrora houve um templo pagão romano.

Notre Dame du Grand Retour: o quadro lembra a miraculosa chegada da imagem num navio vazio.
Notre Dame du Grand Retour: o quadro lembra a miraculosa chegada da imagem num navio vazio.
Mas a devoção se espalhou a fundo na Cristandade quando Santa Ida, mãe de Godofredo de Bouillon, o conquistador de Jerusalém, mandou construir uma catedral em honra de Nossa Senhora do Grand-Retour.

A própria Santa Ida (1040-1113) era descendente de Carlos Magno.

Ela nasceu na mesma região do milagre, e ficou conhecida como Santa Ida de Boulogne, ou da Lorena, pelo seu casamento com o duque de Boulogne, Eustáquio II.

Santa Ida recebia relíquias da Terra Santa enviadas pelo seu filho Godofredo de Bouillon, comandante da I Cruzada, e as distribuía nos mosteiros para convidá-los a maiores orações pelo êxito da empresa militar.

A santa princesa fundou e restaurou numerosas abadias e igrejas na região da Picardia, e foi enterrada no convento das beneditinas de Bayeux, na Normandia. O rei Luís XI tornou-a padroeira do condado de Boulogne.

Santa Ida de Boulogne mandou construir uma catedral para Nossa Senhora do Grande Retorno
Santa Ida de Boulogne mandou construir uma catedral
para Nossa Senhora do Grande Retorno
O prestígio do santuário era tanto, que o rei Felipe V, o Alto (1293-1322) ergueu uma igreja em Boulogne-sur-Seine, então periferia de Paris, copiando a basílica de Santa Ida, na floresta de Rouvray (cujo último vestígio é o famoso Bois de Boulogne de Paris).

O bairro hoje é conhecido como Boulogne-Billancourt.

Na época das cruzadas, antes de empreender o caminho para Jerusalém, os cavaleiros iam a Boulogne-sur-Mer para fazerem benzer suas espadas ao pé da Virgem.

O culto a Nossa Senhora de Boulogne, hoje também conhecida como do Grand-Retour, é o mais antigo da França junto com o de Puy-en-Velay.

Muitos milagres aconteceram antes da Revolução anticristã.

Em 1478, o rei Luís XI concedeu a Nossa Senhora a suserania do Condado de Boulogne, e desde então os reis da França a veneraram como “Nossa Padroeira especial”.

No transcurso dos séculos, o santuário foi objeto de romarias de reis como São Luís IX, Luís XI, Francisco I acompanhado pelo rei da Inglaterra – naquela época ainda católico – Henrique VIII.

Também foi venerada por santos da estatura de São Bernardo, São João Batista de la Salle, e muitos outros.

Notre Dame du Grand Retour, na Porte des Dunes, Boulogne-sur-Mer.
Notre Dame du Grand Retour,
na Porte des Dunes, Boulogne-sur-Mer.
Durante as guerras religiosas desatadas pelo protestantismo, a imagem foi escondida num poço e ficou desaparecida por volta de um século.

Em 1630 a igreja foi restaurada, e a estátua reinstalada em seu lugar.

Em 1793, durante a sacrílega Revolução Francesa, a imagem foi queimada. Cinco anos depois os revolucionários arrasaram o santuário de Santa Ida.

Só foram salvos dois dedos da mão direita que abençoa, os quais estão guardados num relicário que é levado aos doentes e moribundos.

Entre os anos 1827 à 1857 edificou-se um novo santuário, e em 1885 uma nova estátua de madeira de Nossa Senhora de Boulogne foi coroada pelo Núncio Apostólico.

Em 1938, após um Congresso Mariano, foram feitas quatro imagens de estuco, de tamanho natural e coroadas.

Essas imagens, a partir de 1942, em plena ocupação nazista, foram levadas de cidade em cidade e de casa em casa.

A acolhida foi excepcional, ficando muitos quadros, monumentos, fotos, cartazes, reproduções e até filmes dela.

Uma delas chegou até Lourdes, cidade geograficamente posta no outro extremo da França, em meio a um movimento extraordinário de devoção por onde passava.

De Lourdes, a imagem começou o retorno. E ele foi apoteótico e muito demorado.

Notre Dame du Grand Retour: uma das imagens peregrinas. Os fiéis usam roupas típicas da região.
Notre Dame du Grand Retour: uma das imagens peregrinas.
Os fiéis usam roupas típicas da região.
Ali vincou a invocação de “Notre-Dame du Grand Retour”, ou “Nossa Senhora do Grande Retorno”.

Dizia-se que quando essas estátuas voltassem a Boulogne, a guerra acabaria.

Quando a terceira imagem chegou, em 1948, a guerra tinha acabado. Havia um descompasso de tempo, e aconteceu que uma imagem nunca voltou. Pois…

Uma das quatro estátuas conseguiu atravessar a fronteira do território francês ocupado pelos nazistas e foi levada para a ilha da Martinica, no Caribe.

Lá foi construída uma igreja em sua honra. E lá ficou como que a indicar que a II Guerra Mundial não terminou segundo dizem muitos comentaristas e até o Papa Francisco I, sentindo-se já os efeitos de seu novo desenvolvimento numa III Guerra Mundial.

Por razões mal esclarecidas de origem não religioso – ou anti-religioso – um pesado véu de silêncio desceu sobre o colossal fenômeno de devoção popular.

Nossa Senhora do Grand-Retour fala de um regresso triunfal d’Ela, para estabelecer seu reino sobre a humanidade hoje tão decaída, ainda que uma III Guerra Mundial possa vir a atingi-la.


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domingo, 11 de maio de 2014

O milagre eucarístico de Santarém


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Corria o ano de 1247, segundo uns cronistas, ou o de 1266, segundo outros.

Em Santarém, hoje cidade e então vila de Portugal, vivia uma pobre mulher a quem o marido muito ofendia, andando desencaminhado com outra.


Cansada de sofrer, foi pedir a uma bruxa judia que, com os seus feitiços, desse fim à sua triste sorte.

Prometeu-lhe esta remédio eficaz, para o que necessitava de uma Hóstia Consagrada.

Depois de naturais hesitações, a mulher consentiu no sacrilégio.

Foi à Igreja de Santo Estêvão, confessou-se e pediu comunhão.

Recebida a sagrada partícula, com cautela tirou-a da boca, embrulhando-a no véu.

Saiu logo da igreja e encaminhou-se para a casa da feiticeira.

Sem que ela notasse, do véu começou a escorrer Sangue. V

isto o fenômeno por várias pessoas, perguntaram que ferimentos tinha, que tanto sangue fazia jorrar.

Confusa em extremo, a mulher correu logo para casa e encerrou a Hóstia miraculosa numa de suas arcas.

À tarde voltou o marido. Alta noite, acordam os dois e vêem a casa toda resplandecente.

Da arca saíam misteriosos raios de luz.

Inteirado o homem do ato pecaminoso da mulher, passaram de joelhos o resto da noite, em adoração.

Mal rompeu o dia, foi o pároco informado do prodígio sobrenatural. Espalhada a notícia, meia Santarém acorreu pressurosa a contemplar o milagre.

A Sagrada Partícula foi então levada processionalmente para a Igreja de Santo Estêvão, onde ficou conservada dentro duma custódia feita de cera.

Passado algum tempo, ao abrir-se o sacrário para expô-la à adoração dos fiéis, como era costume, encontrou-se a cera feita em pedaços.

Com espanto se viu estar a Sagrada Partícula encerrada numa âmbula de cristal, miraculosamente aparecida.

Esta pequena âmbula foi colocada numa custódia de prata dourada, onde ainda hoje se encontra. Santo Estêvão é hoje a Igreja do Santíssimo Milagre.







(Texto de postal distribuído em Santarém, o qual apresenta foto da âmbula com a Sagrada Partícula)


MILAGRES EUCARÍSTICOS - VEJA MAIS EM:






















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domingo, 8 de dezembro de 2013

Árvore de Cristo

Árvore de Natal, Mittenwald, Baviera, Alemanha
Árvore de Natal, Mittenwald, Baviera, Alemanha
Luis Dufaur
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Depois do Presépio, a Árvore de Natal é o símbolo mais expressivo da época natalina — sobretudo em tempos passados, nos quais o aspecto comercial do Natal não era tão protuberante e agressivo.

O inventor da árvore de Natal foi São Bonifácio, o apóstolo e evangelizador da Alemanha.

Em 723 São Bonifácio derrubou um enorme carvalho dedicado ao deus Thor, perto da atual cidade de Fritzlar.

Para convencer o povo e os druidas de que não era uma árvore sagrada, ele abateu-a.

Esse acontecimento é considerado o início formal da cristianização da Alemanha.

Na queda, o carvalho destruiu tudo o que ali se encontrava, menos um pequeno pinheiro.

Segundo a tradição, São Bonifácio interpretou esse fato como um milagre. Era o período do Advento e, como ele pregava sobre o Natal, declarou:

São Bonifácio derruba árvore sagrada pagã.  Emil Doepler (1855 – 1922).  Uma santa truculência atraiu a bênção da árvore de Natal.
São Bonifácio derruba árvore sagrada pagã.
Emil Doepler (1855 – 1922).
Uma santa truculência atraiu a bênção da árvore de Natal.
“Doravante, nós chamaremos esta árvore de árvore do Menino Jesus”.

O costume de plantar pequenos pinheiros para celebrar o nascimento de Jesus começou e estendeu- se pela Alemanha.

E no século XIX, a Árvore de Natal — também conhecida em alguns países europeus como a “Árvore de Cristo” — espalhou-se pelo mundo inteiro como símbolo da alegria própria ao Natal para se festejar o nascimento do Divino Infante.



(Fonte: Guia de Curiosidades Católicas, Evaristo Eduardo de Miranda)



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domingo, 1 de dezembro de 2013

Algumas lendas natalinas antigas da França e da Inglaterra

Toque de sino exorcístico
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“O momento em que o Maligno finalmente fica reduzido à impotência é o do tilintar do primeiro toque da meia-noite de Natal”.(1)

A raiva do demônio

“Um antigo conto de Natal nos apresenta uma descrição forte e ingênua da raiva do demônio pela vinda do Messias:

“'Eu me enraiveço'.

O demônio, certamente, dentro de seu coração se enraivece, porque Deus vem presentemente salvar os filhos de Adão e de Eva, de Eva, de Eva!

Ele reinava absolutamente sem nos dar trégua, mas esse santo acontecimento livra os filhos de Adão e de Eva, de Eva, de Eva!

Cantemos o Natal altamente, saiamos de nosso pesadelo, bendigamos a salvação de todos os filhos de Adão e de Eva, de Eva, de Eva”.(2)

Sortilégios perdem o poder

“No Limousin, França, percorrendo os campos, encontra-se a crença de que os malefícios, os sortilégios e todas as obras do espírito do mal perdem seu poder na noite de Natal; e que é permitido chegar até os tesouros mais escondidos, pois a vigilância dos monstros –– ou dos seres preternaturais que os guardam –– torna-se nula, ou seu poder suspenso”.(3)

Shakespeare recorda uma lenda

“Dizem que, sempre na época em que é celebrado o Natal de nosso Salvador, o pássaro da aurora canta durante toda a noite; e então, nenhum espírito mau ousa vagar pelo espaço; as noites não trazem malefícios, os planetas não exercem má influência, nenhum encantamento consegue atrair, nenhuma bruxa tem o poder de fazer mal: tão abençoado é esse tempo, e tão sagrado!”.(4)

______________
Notas:
1. http://www.joyeux-noel.com
2. Bíblia dos Natais, p. 33.
3. M. G., de la Société archéologique du Limousin.
4. Shakespeare, Hamlet, ato I, cena I.



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domingo, 10 de novembro de 2013

Por quê se glorifica o Santíssimo Nome de Jesus?

Santíssimo Nome de Jesus, catedral de Salvador, Bahia
Santíssimo Nome de Jesus, catedral de Salvador, Bahia

A Festa do Santíssimo Nome de Jesus é celebrada de diversas formas desde tempos imemoriais. Porém, entrou no calendário Católico Romano no fim da Idade Média.

A festa foi alargada para toda a Igreja Católica Romana em 20 de Dezembro de 1721, pelo papa Inocêncio XIII. Mas, o dia exato varia segundo o calendário de Natal.

Por que essa insistência especial no Nome de Jesus?

Por que grandes santos da Igreja afugentavam os demônios com o Nome de Jesus?

Quando fazemos algo de muito importante. Por exemplo, no início da Missa o padre se persigna; por ocasião da leitura de um testamento, diz-se: “Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo, eu, Fulano de tal, faço meu testamento.”

Pela ordem profunda das coisas – que foi truncada pelo pecado original – , a linguagem humana era capaz de exprimir adequadamente as coisas, dando-lhes um nome adequado.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sublime equilíbrio ante a lepra (2)

O Bom Samaritano, igreja paroquial de Buckland, Inglaterra



Foi principalmente depois das peregrinações na Terra Santa e nas Cruzadas que a lepra se tinha espalhado pela Europa. Essa origem aumentava seu caráter sagrado.

Uma Ordem de Cavalaria, a de São Lázaro, fora fundada em Jerusalém para se consagrar exclusivamente aos cuidados dos leprosos, e tinha um leproso como grão-mestre; e uma Ordem feminina devotara-se ao mesmo fim na mesma cidade, no hospital Saint-Jean l’Aumônier.

Certa vez que o Bispo Hugo de Lincoln – do Franco-Condado por nascimento e cartuxo por religião – celebrava a Missa, admitiu os leprosos ao ósculo da paz; e como seu chanceler o lembrasse que São Martinho curava os leprosos beijando-os, o Bispo respondeu:

‒ “Sim, o ósculo de São Martinho curava a carne dos leprosos, mas a mim é o ósculo dos leprosos que cura minha alma”.

Entre os reis e os grandes da terra, nossa Isabel não foi a única a honrar Cristo nos sucessores de Lázaro. Príncipes ilustres e poderosos consideravam esse dever como uma das prerrogativas de suas coroas.

Roberto, Rei da França, visitava sem cessar seus hospitais.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sublime equlíbrio ante a lepra (1)

Os leprosos continuavam sempre a ser o objeto da predileção de Santa Isabel de Hungria (1207 - 17 novembre 1231) e de algum modo até de sua inveja, pois a lepra era, entre todas as misérias humanas, aquela que melhor podia desapegar suas vítimas da vida.

Frei Gérard, Provincial dos franciscanos da Alemanha, que era, depois de mestre Conrad, o confidente mais íntimo de seus piedosos pensamentos, vindo um dia visitá-la, ela pôs-se a falar longamente sobre a santa pobreza.

Pelo fim da conversa exclamou:

‒ “Ah!, meu Pai, o que eu quereria antes de tudo e do fundo do meu coração, seria ser tratada em todas as coisas como uma leprosa qualquer. Quisera que se fizesse para mim, como se faz para essa pobre gente, uma pequena choupana de palha e feno, e que se pendurasse diante da porta um pano, para prevenir os transeuntes, e uma caixa, para que nela se pudesse colocar alguma esmola”.

Com essas palavras, perdeu o conhecimento e ficou numa espécie de êxtase, durante o qual o Padre Provincial, que a sustentava, ouviu-a cantar hinos sacros; depois disto voltou a si.