domingo, 13 de fevereiro de 2022

As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 3

Santa Isabel rainha de Hungria
com hábito de terceira franciscana
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




continuação do post As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 2


Mas, por um maravilhoso efeito da graça divina, é sobretudo entre as filhas dos reis que se recrutam as santas da Ordem daquele mendigo que havia procurado todos os excessos da pobreza.

Quer elas entrem na estrita observância das pobres Claras, quer, retidas nos laços do casamento, elas não possam adotar senão a regra da Ordem Terceira.

A primeira em data e celebridade é Santa Isabel da Hungria, de quem escrevemos a vida. Não foi em vão, como o veremos, que o Papa Gregório IX obrigou São Francisco a enviar-lhe (a Santa Isabel) seu pobre manto; como Eliseu recebendo o de Elias, ela devia encontrar aí força para tornar-se sua herdeira.

Inflamada por seu exemplo, sua prima irmã, Inês de Boêmia, recusa a mão do Imperador dos Romanos e do Rei da Inglaterra e escreve a Santa Clara dizendo que ela também jurou viver na absoluta pobreza. Santa Clara responde-lhe por uma carta admirável que nos foi conservada, e envia ao mesmo tempo à sua real noviça uma corda para cingir seus rins, uma tigela de terra e um crucifixo.

Como ela, Isabel de França, irmã de São Luís, recusa tornar-se esposa do imperador Conrado IV, para se tornar clarissa e morrer santa, como seu irmão. 

A viúva deste Santo rei, Margarida, as duas filhas de São Fernando de Castela, Helena, irmã do Rei de Portugal, seguem esse exemplo.

Mas, como se a Providência quisesse abençoar o terno laço que unia nossa Isabel a São Francisco e a Santa Clara, que ela tinha tomado como modelos, é principalmente sua família que oferece à Ordem seráfica como que uma pepineira de santos:

Santa Catarina de Siena, Blackfriars, Oxford.
Santa Catarina de Siena, Blackfriars, Oxford.
Depois de sua prima Inês, é sua cunhada, a Bem-Aventurada Salomé, Rainha da Galícia; depois sua sobrinha, Santa Cunegunda, duquesa da Polônia; e, enquanto uma outra de suas sobrinhas, a Bem-Aventurada Margarida da Hungria, prefere a Ordem de São Domingos, na qual ela morre aos vinte e oito anos, a neta de sua irmã, chamada, por causa dela, Isabel, Rainha de Portugal, abraça como ela a Ordem Terceira de São Francisco, e como ela merece aí a palma eterna.

Ao lado dessas santas franciscanas de nascimento real, é preciso não esquecer aquelas que a graça de Deus fazia surgir das últimas camadas do povo, como:

Santa Margarida de Cortona, que, de cortesã, torna-se o modela das penitentes; Santa Rosa de Viterbo, ilustre e poética heroína da Fé, que, apenas com dez anos, no momento em que o Papa fugitivo não tinha mais nenhum palmo de terra para si na Itália, desceu à praça pública de sua cidade natal, para pregar os direitos da Santa Sé contra a autoridade imperial que ela soube abalar, mereceu ser exilada aos quinze anos, por ordem de Frederico II, e retornou triunfante com a Igreja, para morrer aos dezessete anos, no meio daquela Itália onde seu nome é ainda tão popular.

Estas duas grandes Ordens, que povoavam o Céu comovendo a terra, encontravam-se, apesar da diversidade de seus caracteres e meios de ação, em uma mesma tendência no amor e culto de Maria.

Nossa Senhora dos 'encomendados'.
Bolsena, capela das reliquias do milagre eucaristico
Era impossível que a influência desta sublime crença na Virgem Maria, que tinha exercido um império sempre crescente sobre os corações, desde a proclamação de Sua Maternidade divina no Concílio de Éfeso, não fosse incluída no imenso movimento das almas cristãs do século XIII; também, pode-se dizer que, se, desde o século precedente, São Bernardo tinha dado à devoção popular pela Santa Virgem o mesmo impulso que tinha imprimido a todos os nobres instintos da Cristandade, foram essas duas grandes Ordens mendicantes as que levaram esse culto ao apogeu de brilho e de poderio do qual não mais desceria.

São Domingos, pelo estabelecimento do Rosário, e os franscicanos, pela pregação do dogma da Imaculada Conceição, elevaram nesse culto duas majestosas colunas, uma de prática, outra de doutrina, do alto das quais a doce majestade da Rainha dos Anjos presidia a piedade e a ciência católica.

São Boaventura, o grande e douto teólogo, torna-se poeta para cantá-la, e parafraseia duas vezes os Salmos completos em Sua honra .

Todas as obras e as inspirações dessa época; sobretudo todas as instituições da arte como nos foram conservadas em suas grandes catedrais e nos cantos dos poetas , mostram-nos um desenvolvimento imenso, no coração do povo católico, de sua ternura e de sua veneração por Maria.

(Autor: Charles de Montalembert, “Histoíre de Sainte Elisabeth de Hongrie”, Pierre Téqui, Libraire Éditeur, Paris, 1930, )



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domingo, 6 de fevereiro de 2022

As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 2

Santos Dominicanos
Santos Dominicanos
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post: As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 1


Sobre os passos de São Domingos, deste santo atleta da Fé, deste coadjutor do Lavrador eterno , precipita-se, primeiro, o Bem-Aventurado Jourdain, digno de ser seu primeiro sucessor, como Geral de sua Ordem; depois São Pedro de Verona decorado pelo título de Mártir por excelência, e que, assassinado pelos hereges, escrevia sobre a terra com o sangue de suas chagas, as primeiras palavras do Símbolo (Credo) cuja verdade proclamava com o preço de sua vida.

Depois, São Jacinto e Ceslau, seu irmão, esses jovens e fortes poloneses que o encontro com São Domingos em Roma foi suficiente para fazer renunciar a todas as grandezas terrenas, a fim de levar essa nova luz à sua pátria, de onde ela deveria se espalhar com rapidez na Lituânia, Moscóvia e Prússia.

Depois, São Raimundo de Peñafort, que Gregório IX escolheu para coordenar a legislação da Igreja, autor das Decretais e sucessor de São Domingos; enfim, este Teobaldo Visconti, que deveria presidir os destinos da Igreja sobre a terra, com o nome de Gregório X, antes de ter eternamente direito às suas orações, como Bem-Aventurado no Céu.

São Alberto Magno, Santa Maria dell'Anima, Roma
São Alberto Magno, Santa Maria dell'Anima, Roma
Ao lado desses homens cuja santidade a Igreja consagrou, uma multidão de outros traziam-lhe o tributo de seus talentos e estudos: Santo Alberto Magno, esse colosso do saber, pregador de Aristóteles e mestre de São Tomás; Vicente de Beauvais, autor da grande enciclopédia da Idade Média; o Cardeal Hugo de Sant-Cher, que fez a primeira Concordância das Escrituras; o grande Cardeal Henrique de Suze, autor da “Suma Dourada”.

E, acima de todos, pela santidade como pela ciência, o grande São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, pensador gigantesco, em quem parece resumir-se toda a ciência dos séculos da fé, e cuja grandiosa síntese não pôde ser igualada por nenhuma tentativa posterior; o qual, inteiramente absorto na abstração, não é, por isso, menos um admirável poeta, e merece ser escolhido por São Luís como conselheiro íntimo nos casos mais espinhosos de seu reino.

“Escreveste bem sobre Mim, diz-lhe Cristo um dia, que recompensa Me pedes?” – “Vós mesmo”, responde o santo . Toda sua vida, todo seu século está nesta palavra.

O exército de São Francisco não marchava ao combate sob chefes menos gloriosos. Em vida de São Francisco, doze de seus primeiros filhos foram colher a palma do martírio entre os infiéis. O Bem-Aventurado Bernardo, o Beato Egídio, o Beato Guido de Cortona.

Toda essa companhia de Bem-aventurados, companheiros e discípulos do santo fundador, sobrevivem-lhe e conservam o depósito inviolável desse espírito de amor e de humildade que o havia inflamado.

Tão logo o serafim foi tomar sua posição diante do trono de Deus, seu lugar na veneração e no entusiasmo dos povos é ocupado por aquele que todos proclamavam seu primogênito: Santo Antônio de Pádua, célebre como seu pai espiritual por este império sobre a natureza, que lhe valeu o cognome de Taumaturgo, aquele que o Papa Gregório IX chamou a Arca dos dois testamentos; que tinha o dom das línguas como os Apóstolos; que, depois de ter edificado a França e a Sicília, passa seus últimos anos pregando a paz e a união às cidades lombardas, obtém dos paduanos o privilégio da cessão de bens para os devedores desafortunados, ousa sozinho censurar ao feroz Ezzelin sua tirania, fá-lo tremer, segundo seu próprio depoimento, e morre aos trinta e seis anos, no mesmo que Santa Isabel.

Mais tarde, Rogério Bacon reabilita e santifica o estudo das ciências, e prevê, se não as leva a termo, as maiores descobertas dos tempos modernos. Duns Scoto disputa a São Tomás o império das escolas; e este grande gênio encontra um rival e um amigo em São Boaventura, o Doutor Seráfico, o qual, quando seu ilustre rival, o Doutor Angélico, perguntou-lhe de que biblioteca tirava sua surpreendente ciência, mostrou silenciosamente seu crucifixo, e que lavava a louça de seu convento quando lhe foi trazido o chapéu de Cardeal.

São Domingos de Gusmão
São Domingos de Gusmão
São Domingos introduziu uma reforma fecunda na regra das esposas de Cristo, e abriu uma nova via às suas virtudes. Mas não foi senão mais tarde, em Margarida da Hungria, Inês de Monte-Pulciano, Catarina de Siena, que este ramo da Ordem dominicana deveria produzir os prodígios de santidade que foram depois tão numerosos. Francisco, mais feliz, encontra desde o início uma irmã, uma aliada digna dele.

Ao mesmo tempo que ele, pobre filho de comerciante, começava sua obra com alguns outros humildes burgueses de Assis, Clara Sciffi, nesta mesma cidade, filha de um conde poderoso, sente-se tomada de um zelo semelhante.

Um dia, aos dezoito anos, num Domingo de Ramos, enquanto as palmas que os outros fiéis levam vão secando e fanando, a sustentada por sua jovem mão refloresce e reverdece subitamente.

É para ela um preceito e uma advertência do alto. Na mesma noite, foge da casa paterna, penetra na Porciúncula, ajoelha-se aos pés de Francisco, recebe de suas mãos a corda, o vestido de grossa lã, e condena-se com ele à pobreza evangélica.

Em vão seus parentes a perseguem, sua irmã e inumeráveis virgens vêm juntar-se a ela, e rivalizar com ela em privações e austeridades.

Em vão os Soberanos Pontífices suplicam-lhe de moderar seu zelo, de dignar-se possuir alguma coisa de fixo, posto que uma severa clausura proíbe às monjas sair, como os Irmãos Menores, a implorar a caridade dos fiéis, e a reduz a esperá-la do acaso.

Ela resiste obstinadamente, e Inocêncio IV concede-lhe enfim o ‘privilégio da pobreza perpétua’, o único, dizia ele, que ninguém jamais pediu: “Mas Aquele, acrescentava, que alimenta os passarinhos, que vestiu a terra de verdura e de flores, saberá bem sustentar-vos até o dia em que Ele dar-Se-á a Si mesmo como alimento eterno a vós, quando, com Sua destra vitoriosa, vos abraçará em Sua glória e beatitude”.

São Francisco. Vicente Carducho (1576 ou 1578 - 1638)
São Francisco. Vicente Carducho (1576 ou 1578 - 1638)
Três Papas e uma multidão de outros santos e nobres personagens vêm junto a esta humilde virgem procurar luzes e consolações. Em poucos anos, ela vê todo um exército de mulheres piedosas, com rainhas e princesas à frente, surgir e estabelecer-se na Europa sob a regra de Francisco de Assis, e sob a direção e o nome dela, o de pobres Claras ou clarissas.

Mas no meio desse império de almas, sua modéstia é tão grande, que não foi vista, a não ser uma única vez, levantar as pálpebras para pedir ao Papa sua bênção, e somente então se pôde conhecer a cor de seus olhos. Os sarracenos vêm sitiar seu mosteiro: doente e acamada, levanta-se, toma em mãos o ostensório, caminha para a frente deles e os põe em fuga.

Após quatorze anos de uma santa união com São Francisco, ela o perde; então, entregue ela mesma às mais cruéis enfermidades, morre, depois de ter ditado um testamento sublime; e o Soberano Pontífice, que a tinha visto morrer, a propõe à veneração dos fiéis, proclamando-a Clara entre todas as claridades, luz resplandecente do templo de Deus, princesa dos pobres, duquesa dos humildes .

Como São Francisco em Santa Clara, Santo Antônio de Pádua encontrou na Bem-Aventurada Helena Ensimelli uma amiga e uma irmã.





continuará no post As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 3


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domingo, 30 de janeiro de 2022

As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 1

Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli
Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli
Luis Dufaur
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À vista de São Francisco de Assis e de São Domingos de Gusmão, o século compreendeu que estava salvo, que um sangue novo seria instilado em suas veias; inúmeros discípulos alistam-se sob esses estandartes arrebatadores; eleva-se um longo brado de entusiasmo e de simpatia que se estende através dos séculos, que ressoa por toda parte, nas constituições dos Soberanos Pontífices como nos cantos dos poetas.

“Quando o Imperador, que reina sempre - diz Dante -, quis salvar seu exército comprometido, enviou em socorro de Sua Esposa estes dois campeões; seus atos, suas palavras, restabeleceram o povo desgarrado”.

“Estas duas Ordens – diz o Papa Sisto IV em 1479, depois de dois séculos e meio de experiência – como os dois primeiros rios do Paraíso de Delícia, irrigaram a terra da Igreja universal por sua doutrina, suas virtudes e seus méritos, e a tornam cada dia mais fértil; são os dois serafins que, elevados pelas asas de uma contemplação sublime e de um angélico amor, acima de todas as coisas da terra, pelo canto assíduo dos louvores divinos, pela manifestação dos benefícios imensos que o supremo artífice, que é Deus, conferiu ao gênero humano, trazem sem cessar aos celeiros da Santa Igreja os feixes abundantes da pura colheita das almas resgatadas pelo Precioso Sangue de Jesus Cristo.

“São as duas trombetas das quais se serve o Senhor Deus para chamar os povos ao banquete de Seu Santo Evangelho!”.
Ss Domingos e Francisco em primeiro plano.
Coroação de Nossa Senhora, Beato Angélico
Tão logo nasceram as Ordens, que deviam merecer tão magníficos elogios, já sua propagação e seu poder tornam-se um dos fatos históricos mais importantes da época.

A Igreja vê-se de repente senhora de dois exércitos numerosos, ágeis e sempre disponíveis, que começam incontinenti a invadir o mundo.

Em 1277, meio século após a morte de São Domingos, sua Ordem tinha já quatrocentos e dezessete conventos em toda a Europa.

São Francisco, em vida, reúne um dia cinco mil de seus monges em Assis; e trinta e cinco anos mais tarde, em Narbonne, constata-se ao enumerar as forças da Ordem seráfica, que existiam já, em trinta e três províncias, oitocentos mosteiros e pelos menos vinte mil religiosos.

Um século mais tarde, existiam cento e cinqüenta mil. A evangelização das nações pagãs recomeça: franciscanos, enviados por Inocêncio IV e São Luis, penetram no Marrocos, em Damasco, até entre os mongóis.

Mas eles ocupam-se sobretudo em vencer as paixões do paganismo no coração das nações cristãs, espalham-se pela Itália dilacerada por tantas discórdias, tentando por toda parte reconciliar os partidos, desarraigar os erros, colocando-se como os árbitros supremos, julgando unicamente segundo a lei do amor.

Vê-se, em 1235, percorrer toda a Península com cruzes, incenso, ramos de oliveira, cantando e pregando a paz, censurando às cidades, aos príncipes, aos próprios chefes da igreja, suas faltas e ressentimentos.

Os povos, pelo menos por um tempo, inclinam-se ante essa mediação sublime; a nobreza e o povo de Piacenza reconciliam-se à voz de um franciscano; Pisa e os Visconti, de um dominicano; e na planície de Verona vê-se duzentas mil almas apinharem-se junto ao Bem-Aventurado João de Vicenza, frade pregador, encarregado pelo Papa de apaziguar todas as discórdias da Toscana, da Romagna, da Marca Trevisana. Naquela ocasião solene, toma por texto essas palavras:

Encontro de São Domingos com São Francisco, Fra Angelico
“Eu vos dou a paz, Eu vos deixo a Minha paz”; e, antes de terminar, uma explosão de soluços e de lágrimas mostra-lhe que todos aqueles corações estavam tocados, e os chefes das casas rivais de Este e Romano dão, abraçando-se, o sinal da reconciliação universal.

Tão felizes resultados não duravam muito tempo, é verdade; mas o mal estava ao menos vigorosamente combatido, e a seiva de cristianismo estava reavivada nas almas, uma imensa luta dava-se a cada dia e por toda parte em nome da equidade contra a letra morta da lei, em nome da caridade contra os maus pendores do homem, em nome da graça e da fé contra a secura e a pobreza dos arrazoados científicos.

Nada se subtraia a essa influência nova que movia os camponeses dispersos pela campanha, que partilhava o império das universidades, que atingia até os reis em seus tronos.

Joinville nos ensina como, no primeiro lugar onde São Luís desembarcou, voltando da Cruzada, foi acolhido por um franciscano, que lhe disse que “nenhum reino se perde, a não ser por falta de justiça, e que cuidasse de fazer bem direito e diligente a seu povo, o que o rei jamais esqueceu”.

Sabe-se como ele tentou esquivar-se de sua esposa tão ternamente amada, de seus mais próximos, de seus conselheiros, para renunciar à coroa que portava tão gloriosamente, e ir mendigar, como São Francisco.

Mas teve que se limitar a tornar-se penitente da Ordem Terceira; porque em seu exército conquistador os franciscanos tinham lugar para todos.

Ao lado desses batalhões de monges, numerosos mosteiros abriam-se para as virgens que aspiravam à honra de se imolarem a Cristo, e as vastas associações conhecidas pelo nome de Ordens Terceiras ofereciam um lugar aos príncipes, guerreiros, esposos, pais de família, numa palavra a todos os fiéis de ambos sexos que quisessem associar-se, ao menos indiretamente, à grande obra da regeneração da Cristandade.

Nossa Senhora dá o Rosario a São Domingos que tem junto S. Francisco.
Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Tiradentes
A tradição conta que os dois gloriosos patriarcas dessa regeneração tiveram, em certo momento, o projeto de unir seus esforços e suas Ordens, em aparência tão semelhantes.

Mas a inspiração celeste que os guiava revelou-lhes que nelas havia lugar para duas forças diferentes, para dois gêneros de guerra contra as invasões do mal.

Eles parecem ter dividido sua sublime missão, ao mesmo tempo que o mundo moral, de modo a reconduzir ao seio da Igreja e a nele conciliar o amor e a ciência, esses dois grandes rivais que não poderiam entretanto existir um sem o outro; e essa conciliação foi operada por eles como não o havia sido jamais até então.

Enquanto o amor que devorava e absorvia a alma de São Francisco valeu-lhe em todo tempo na Igreja o nome de Serafim de Assis, não seria quiçá temerário atribuir, com Dante, a São Domingos, a força e a luz dos Querubins .

Seus filhos mostraram-se fiéis a essa tendência diversa, que terminava na mesma unidade eterna; e, tendo em conta algumas brilhantes exceções, pode-se dizer que a partir dessa época, na História da Igreja, o papel mais especialmente atribuído à Ordem seráfica foi o de espalhar em grandes ondas os tesouros do amor, as misteriosas alegrias do sacrifício; enquanto que o dos Pregadores foi, como seu próprio nome indica, o de propagar a ciência da verdade, defendê-la e arraigá-la.

Nem um nem outro falhou à sua missão; e ambos, desde a adolescência, e no decurso desse meio século do qual falamos (o primeiro do século XIII), geraram para a Igreja, talvez, mais santos e doutores do que em tão curto intervalo, Ela não tinha tido desde os primeiros séculos de sua existência.





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domingo, 2 de janeiro de 2022

O Menino-Deus adorado por Reis dotados de conhecimentos astronômicos pasmosos: cena sagrada que encantou os medievais

Adoração dos Reis Magos. Beato Angelico
Adoração dos Reis Magos. Beato Angelico
Luis Dufaur
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Em 6 de janeiro, desde os primeiros séculos, a Igreja celebra a festa da Epifania, ou seja, a visita dos Reis, também chamados de Magos ou Sábios, que foram adorar o Menino Deus.

Epifania, em grego, significa manifestação, ou também revelação esplendorosa.

De início, a festa celebrava-se no próprio dia de Natal. O mais antigo registro dela é do historiador romano Ammianus Marcellinus no ano 361.

Foi na Idade Média, precisamente no ano de 534, que a Igreja separou as duas festas para comemorá-las com mais pompa, e fixou o dia 6 de janeiro como da Epifania ou da Adoração dos Magos

A visita significou a manifestação de Nosso Senhor não somente aos judeus, mas a todas as nações da Terra, representados pelos Reis Magos.

Segundo a tradição seus nomes eram Melchior, Gaspar e Balthazar (habitualmente representado como preto). Segundo São Mateus, eles vieram do Leste de Jerusalém, o que leva a pensar que fossem patriarcas, ou reis, vindos da área cultural da Caldéia.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

A Imaculada Conceição e a estratégia apostólica de Pio IX face a adversários e católicos moles

Beato Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição, Franceso Podesti (1800–1895), Sala dell'Immacolata, Museus Vaticano
Beato Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição,
Franceso Podesti (1800–1895), Sala dell'Immacolata, Museus Vaticano
Luis Dufaur
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Não é fácil ter uma ideia da devastação que o racionalismo e o modernismo fizeram nos católicos no decurso do século XIX.

O espírito deles vinha sendo infiltrado por materialistas e revolucionários de todos os matizes, ardendo de revolta contra o sobrenatural.

Esses católicos desfibrados alegavam a precedência do “social” e até se ufanavam em se dizerem “católicos sociais”.

Na prática, sob vago véu de religião, repeliam tudo quanto não caísse diretamente sob a ação e o controle dos sentidos.

Por isto mesmo, a integridade do catolicismo, no qual o sobrenatural é visível e autêntico, foi posta de quarentena pela mídia e pelos governos secretados pela Revolução Francesa que iam derrubando as monarquias ainda impregnadas de tradição católica.

Todos os espíritos procuravam libertar-se da crença na ordem sobrenatural que não se enquadrava rigorosamente dentro das leis da natureza proclamadas por Marx, Darwin e Freud, entre outros.

domingo, 21 de novembro de 2021

Milagre de Nossa Senhora em Covadonga (Astúrias) impediu a conquista de Espanha pelos mouros

Nossa Senhora de Covadonga
Luis Dufaur
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Sob a proteção de Nossa Senhora de Covadonga se iniciou a Reconquista da Espanha, com o milagre que Ela realizou socorrendo o Rei Don Pelayo e os pouquíssimos cavaleiros que estavam com ele nas montanhas das Astúrias, no monte Auseba.

Deu-lhes uma grandiosa vitória sobre os maometanos, justamente quando pareciam perdidos, premiando assim seu denodo, seu heroísmo e sua fé.

Em 718 estava D. Pelayo rodeado por duzentos mil homens do exército de Alkamah, lugar-tenente do Wali Helor.

O Bispo Dom Opas, que já havia pactuado, se adiantou para tentar convencê-lo da inutilidade de resistir e da conveniência de seguir seu exemplo.

Invocando o auxílio de Deus e da Virgem, que tinha como seguros, D. Pelayo rechaçou indignado a proposta traidora, dispondo-se a batalhar até o fim contra os inimigos da Fé.

domingo, 14 de novembro de 2021

Milagre de Covadonga parou invasão muçulmana

Gruta de Covadonga: local do milagre
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No ano 722, em Covadonga começou a reconquista da Espanha invadida pelos árabes muçulmanos.

Foi ali que, segundo as crônicas, Pelayo (primeiro rei das Astúrias), derrotou aos seguidores de Maomé, com o auxílio miraculoso de Nossa Senhora.

Aquela vitória milagrosa deu início a 800 anos de Cruzada nos quais se constituiu a Espanha católica.

Cangas de Onís foi a capital do novo Reino de Astúrias até o ano 774.

Nela se estabeleceu o rei Don Pelayo, e desde ela empreendeu com seus homens diversas campanhas no norte da Espanha.

Cangas de Onís ficou com seu heroico rei como único foco de resistência ao expansionismo muçulmano até então invicto.

domingo, 7 de novembro de 2021

Convertido por uma Ave-Maria

Nossa Senhora, marfim

Luis Dufaur
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O Bem-aventurado João Haroldo narra a história de um homem que vivia continuamente em pecado mortal.

Sua mulher, pessoa de angélica piedade, não podendo conseguir que ele mudasse de vida, obteve, à força de pedidos e súplicas, que rezasse uma Ave-Maria cada vez que encontrasse na estrada uma imagem da Santíssima Virgem. Mais por agradar do que por devoção, aquele desgraçado prometeu e cumpriu sua promessa.

Um dia, quando ia para uma orgia, viu brilhar uma luz a pouca distância. Aproximou-se, como que impelido por mão invisível e misteriosa, e logo se lhe deparou uma estátua de Maria com Jesus nos braços.

Segundo o seu costume, rezou a Ave-Maria. Mas quando ia acabar, reparou que o Menino Jesus estava coberto de feridas, das quais o sangue corria abundantemente. E pensou:
— Ai de mim! São meus pecados que abriram estas chagas em meu divino Redentor.

Estas reflexões arrancaram-lhe dos olhos lágrimas amargas. Mas o Menino Jesus desviou dele seu olhar. Então o pecador, com grande vergonha e confusão, dirigiu-se a Maria:
— Mãe de misericórdia, vosso Filho me rejeita. Intercedei por mim, pois vós sois meu único refúgio.
— Oh! Pecador ingrato! — respondeu-lhe Maria. — Chamais-me de mãe de misericórdia e me tornais a mais miserável das mães, renovando a Paixão de meu Filho e as angústias que nela sofri.

Contudo, como Maria não pode despedir ninguém sem consolação, pôs-se a pedir a seu Filho por aquele pecador contrito. Jesus mostrava-se pouco disposto a perdoar. Então a Virgem compassiva, depondo o Menino Jesus no chão e ajoelhando-se a seus pés, disse:

— Oh! Meu Filho! Não me levantarei enquanto não houver obtido o perdão para este infeliz.
— Minha Mãe, nada posso negar-vos. Que este pecador chegue-se mais perto e venha beijar minhas chagas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Comemoração dos fiéis defuntos: profundidade e grandeza da morte

Dominicanos visitam túmulo
Dominicanos visitam túmulo
Luis Dufaur
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O dia dos Fiéis Defuntos, ou Finados, é o dia no qual rezamos por todos os fiéis e por todas as almas que morreram e que porventura estejam no Purgatório.

É também o dia em que a Igreja nos recorda a realidade da morte.

Ela abre um precipício debaixo de nossos pés e nos faz ver uma multidão de almas que se encontram em estado de pena, de sofrimento.