Mostrando postagens com marcador demônio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador demônio. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de maio de 2021

São Patrício, o apóstolo leão da Irlanda

São Patrício, catedral de Christ the Light, Oakland, CA
São Patrício, catedral de Christ the Light, Oakland, CA
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No livro de Ernest Hello, “A fisionomia dos Santos” (Ed. Cultor de Livros, 2014, 328 p.), há dados biográficos de São Patrício.

“São Patrício aos 12 anos foi raptado por piratas e levado para a Irlanda.

“Aí foi feito pastor, recebendo o dom da oração. Ajoelhava-se no meio do campo e rezava, cercado por seus animais.

“Depois de seis anos sai dessa região fazendo várias viagens cheias de peripécias e se tornou novamente escravo”.
A grama da Irlanda é de um verde famoso que os poetas antigos comparavam a uma esmeralda encastoada no mar ao norte da Europa.

Que cena bonita: São Patrício, pequeno, pastorzinho pobre e humilde, rezando sobre a relva esplendidamente verde da Irlanda e os animais fazendo círculo em torno dele.

Há cenas da Idade Média que dão para iluminuras ou vitrais de catedral. Porque a história e a fantasia se reúnem pelo poder da candura, da oração, da inocência fortalecida por carismas de Deus.

“Enfim, chegou ao mosteiro de São Martinho de Tours, na França. E como sempre sentira que sua vocação estava na Irlanda, partiu para evangelizá-la. Mas apesar de seus desejos, de sua santidade e de seu zelo e do chamamento sobrenatural, fracassou completamente. Foi tratado como inimigo”.
Como Deus prova os seus santos, fazendo que caminhem sem conseguir o objetivo que o próprio Deus tem em vista!

Num belo momento esse objetivo lhe vem às mãos. Aí a gente compreende como é natural sofrermos revezes.

Os que não são santos, entretanto, progridem rapidamente nas suas obras.

domingo, 8 de março de 2020

Teófilo, o clérigo que vendeu a alma ao diabo

Nossa Senhora enxota o demônio e salva o clérigo Teófilo
Nossa Senhora enxota o demônio
e salva o clérigo Teófilo. Notre Dame de Paris
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Encravados nas modernas cidades europeias, erguem-se autênticos gigantes de pedra desafiando o tempo.

São as catedrais medievais, construídas por almas fervorosas que quiseram ver sua fé imortalizada através dos séculos.

Contemplando no silêncio o correr de eras históricas, constituem elas um ensinamento vivo da sabedoria da Igreja Católica.

Em suas esculturas de pedra e delicados vitrais coloridos espelha-se uma ordem ideal do universo.

A catedral foi por isso chamada "Bíblia dos pobres".

Algumas estátuas constituem verdadeiras obras-primas, tanto da escultura românica quanto da gótica.

Nesta "Bíblia de pedra e de cristal", os artistas de outrora esculpiram inúmeras parábolas, que ensinam de modo vivo as virtudes que o fiel católico deve praticar.

domingo, 1 de julho de 2018

O Milagre de Teófilo

Nossa Senhora salva o clérigo que vendeu a alma ao diabo.
Na fachada lateral da catedral Notre Dame, Paris.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






É o caso de Teófilo que agora eu vou contar:
Um milagre tão precioso não é para se calar,
Porque ele nos faz entender e avaliar
O quanto é importante a Nossa Senhora rezar.

Não quero, se possível, no relato me alongar,
Contra vossa paciência poderia eu pecar,
Sei que a oração breve sói a Deus agradar,
Não foi o próprio Cristo o primeiro a nos ensinar?

Era uma vez, assim começa a legenda,
Um homem muito bom, nada mal de renda,
Teófilo, homem de paz, e nunca de contenda
De vida virtuosa, que dispensa emenda.

No lugar onde morava, em sua bela cidade,
Era chanceler do bispo, com muita autoridade
Gozava de boa fama e, para dizer a verdade,
Depois do senhor bispo, era dele a dignidade.

Teófilo era sóbrio e muito comedido,
Pessoa muito afável, por todos querido,
Homem culto e douto, de saber reconhecido,
Seu prestígio era muito difundido.

Dava aos pobres roupa e comida;
Aos peregrinos, abrigo e guarida,
Ensinava os pecadores a mudar de vida
E, pela penitência, evitar a recaída.

De modo que o bispo não tinha preocupação
Só a de cantar a missa e a de pregar sermão
Pois de tudo, tudo, nem cabe enumeração,
Cuidava Teófilo, com muita aplicação.

O bispo apreciava Teófilo sobremaneira
Pois ele o livrava de toda a trabalheira
E para o povo ele era como luz verdadeira
Seu fulgor iluminava a cidade inteira.

Mas, nesta vida, tudo tem sua hora,
E chegou, para o bispo, a vez de ir-se embora
Uma doença grave, sem chance de melhora
Levou-o à glória sem muita demora.

Santo Alberto Magno, bispo e Doutor.
O clero e o povo, como nunca adunado,
Todos diziam: “Teófilo no episcopado!
Com ele como bispo tudo será melhorado
Que seja ele o quanto antes consagrado”.

Teófilo respondeu com toda a simplicidade:
“Senhores, eu suplico, por favor, por caridade,
Eu não sou digno de uma tal autoridade
Outro que assuma essa grande dignidade”.

Os eclesiásticos da administração
Ante esta sua inabalável decisão
Não se sabe se contentes ou não 
Tiveram que fazer uma outra eleição.

Novo bispo, novo também o chanceler para mandar
E Teófilo, sem poder, começou a invejar
Porque o povo todo daquele lugar
Já não o ia mais, como antes, procurar.

E ele, que ao antigo bispo era tão chegado,
Começou a sentir-se, agora, postergado
E pela inveja cada vez mais dominado
Ele sentia-se totalmente transtornado.

E Teófilo achando-se muito desprezado,
Preterido, esquecido num canto, injustiçado
Por rancor, cada vez mais ferido e despeitado,
Caiu nas tramas de um grande pecado.

Foi a um famoso judeu cheio de vícios,
Versado em encantamentos e outros malefícios,
Que fazia feitiços e certos artifícios,
Guiado por Belzebu, em todos os seus ofícios.

E foi logo a esse falso traidor,
Fiel vassalo de tão mau senhor,
Que Teófilo, ó que horror!,
Foi solicitar um nefasto favor.

Ele, que se sentia tão desesperado
Foi perguntar ao judeu endiabrado,
Que tinha parte com o grande Renegado,
Como fazer para voltar a seu anterior estado.

Respondeu o judeu sem nenhuma hesitação:
“Não tenha você a menor preocupação
Pois vamos fazer uma boa combinação
Com `alguém` que certamente dará solução”.

Na calada da fria noite combinada
Teófilo, às escondidas, saiu de sua pousada
Para a entrevista que estava marcada
Com “alguém” numa tenebrosa encruzilhada.

O judeu que ia com ele no meio da escuridão
Disse: “As coisas muito bem estão.
Não me vá você estragar tudo, então,
Fazendo o sinal da cruz com sua mão”.

Teófilo assustou-se, quando pôde divisar
Grande multidão, com velas a queimar,
Com seu rei no meio, uma cena de arrepiar
E, por um instante, até pensou em voltar.

Deteve-o, com um gesto, aquele judeu traidor
E, determinadamente, levou-o a seu senhor,
Que era Satanás, o demo fingidor,
Para tentar dele obter o favor.

Disse o judeu: “Senhor rei coroado
Este homem foi chanceler do bispado
E, como tal, era por todos muito honrado
Mas, foi despedido e agora, é desprezado”.

Disse o diabo: “Não é lá de muito bom direito
De vassalo alheio, um outro tirar proveito
Mas renegue a Cristo, razão de nosso despeito
E farei que tudo lhe volte em estado perfeito”.

“Para seu caso há uma boa terapia:
Renegue a Cristo e a Santa Maria
Assine esta carta em uma única via
E voltará ao que era e até com melhoria”.

Teófilo a todo custo queria o sucesso
E não percebeu o engano o pobre obsesso,
Cúmulo de exagero e de incrível excesso:
Perder sua alma em tão barato processo.

Ninguém soube do tal contrato e do credor
Só Deus, que de tudo é bom conhecedor
E permitiu que ele voltasse ao esplendor
Só que, agora, meio pálido e sem cor.

O bispo, reconhecendo o quanto havia errado,
Fê-lo voltar àquele seu antigo estado:
Foi pelo povo da cidade ainda mais venerado
Teófilo ia recebendo a paga de seu pecado.

O resultado dessa sua imensa euforia,
Pelo sucesso que tinha na chancelaria,
Foi que ele, agora, se jacta e se vangloria,
Todo orgulhoso em sua vaidade vazia.

Mas é tão bom Deus, Nosso Senhor
E não deseja que pereça o pecador:
Teófilo foi acometido de mortal dor,
Para ver se de algo lhe valia o Traidor.

Todo o bem que ele fizera no passado
Não quis Deus que fosse malbaratado
E Teófilo recobrou o juízo adormentado,
Abriu os olhos e caiu em si despertado.

Aconteceu que nesse breve lúcido momento
Para ele tão rápido e também tão lento
Teófilo viu o que fez, com grande desalento
E, arrasado, sucumbiu ao desfalecimento:

“Ai de mim, pecador mesquinho e malfadado
Das alturas do bem, quem me terá derrubado?
Quanto ao corpo, estou no fim e desprezado
E quanto ao espírito, totalmente arruinado”.

“Morrerei como quem naufraga no mar
Não há quem vá por mim ante Deus rogar
Nem mesmo de Nossa Senhora posso esperar
Ela, a piedosa, que eu me atrevi a renegar”.

“Maldita hora em que cobicei a chancelaria
Procurar o diabo, que amaldiçoado dia!
Qual Judas, qual traidor pecado maior faria?
Não tivesse eu nascido, muito melhor seria”.

“Por que eu mesmo fui procurar acabar comigo?
Não passava necessidade, eu não era mendigo
Todos me respeitavam, o povo era meu amigo
Agora, a quem recorrer, onde encontrar abrigo?”.

“Bem sei que desta febre eu não vou escapar
Que não há médico que me possa curar
Só Santa Maria, a estrela do mar,
Mas com que cara poderia eu lhe rogar?”.

“Eu, miserável, mais fedorento que um cão
Cão sarnento e podre, não o que come pão
Ela não me vai ouvir, eu bem sei que não,
Pois foi contra ela que eu fui torpe e vilão”.

“Mas, seja como for, a ela vou me achegar,
Prostrar-me-ei na igreja, ante seu altar
Meus pecados, em jejuns, hei de chorar
Esperando a graça da Gloriosa quero finar”.



“Embora em minha loucura eu a tenha renegado
E, como um tolo, pelo judeu fui enganado
Apego-me firmemente a ela, confiado,
Dela nasceu o Salvador, por mim crucificado”.

“Não sei se Deus isto me irá autorizar:
Quero ante todos minha loucura proclamar
Mesmo não sabendo por onde começar
Nem se minha boca conseguirá falar”.

E sem contar nada sobre o plano que tinha
Foi ajoelhar-se ante o trono da Rainha,
“Dos desesperados és refúgio e madrinha
Haverá misericórdia para esta alma mesquinha?”.

“Tu que és a porta do Paraíso, Senhora;
Tu, de quem o Rei da Glória se enamora.
Olha com compaixão a este que implora
E seu horrendo pecado noite e dia chora”.

Quarenta dias durou esta penitência;
Noite e dia em constante permanência
Teófilo com inquebrantável paciência
Rogava assim à Senhora da clemência.

Até que ela apareceu, com ar meio zangado
“Por que tanto imploras, ó desgraçado?
Não tens teu senhor, o eterno Renegado?
Não sei quem quererá ser teu advogado?”.

“Mãe, disse Teófilo, por Deus e por caridade,
Não olhes a meus méritos, mas à tua bondade
Eu bem sei que tudo que dizes é verdade
Porque eu sou sujo e cheio de maldade”.

“Mas, não posso estar na penitência esperançado?
Não foi por ela que Davi foi perdoado?,
Madalena e até Pedro, após o Senhor ter negado?
E o povo de Nínive, que já estava condenado?”.

Quando ele se calou, falou Santa Maria:
“O teu caso, Teófilo, um grave problema me cria:
A ofensa a mim, eu bem que perdoaria
Mas a meu Filho, essa, eu não me atreveria”.

“Tenho um conselho para te dar com coerência:
Volta a meu Filho, roga a Ele com veemência
Senhor da vida, Sua onipotência
Manifesta sobretudo em perdão e clemência”.

“Senhora bendita, Rainha porta do Céu,
Teu nome é perfume e mais doce que o mel,
Há uma dificuldade, não esqueças, sou réu
Pois assinei aquele maldito papel”.

Disse Maria: “Saiba, antes de mais nada,
Senhor trapalhão, Senhor praga malvada,
Que a carta que em má hora deixou assinada
Está nos quintos dos infernos bem guardada”.

“Como a meu Filho eu pediria
Que empreendesse uma tal romaria?
Para lugar fétido, hodienda porcaria
Teria eu essa descabida ousadia?”.

“Senhora, bendita entre as mulheres
Atende-me sem demora, não esperes
Basta-Lhe o menor sinal que deres:
Teu Filho sempre quer o que tu queres”.

“Da falta, Teófilo, já recebeste o castigo
Fica tranqüilo, ouve o que te digo,
Eu vou ver, filho, como consigo
Resolver teu problema, deixa o caso comigo”.

Dizendo isto, desfez-se a aparição
E Teófilo que já tinha à Senhora tanta devoção
Foi tomado de imenso amor e infinita compunção
Passando dias e noites em jejum, pranto e oração.

A rainha da glória, Santa Maria,
Visitou-o ao final do terceiro dia
Com um rosto fulgurante, que trazia
As melhores notícias, paz e alegria:

“Fica sabendo, filho, que tuas orações
Teus grandes gemidos, tuas aflições
Chegaram ao Céu em grandes procissões
Para isto há anjos: para estas missões”.

“Eu intercedi por ti com empenho e vontade
Prostrei-me de joelhos ante a divina Majestade
E Deus te perdoou em sua infinita caridade
É importante agora tua firmeza na bondade”.

“Mãe, disse Teófilo, muitíssimo obrigado
Mas não estarei de todo despreocupado
Até o momento em que tenha recobrado
Aquela carta em que teu Filho foi renegado”.

“Estou cuidando de tudo, disse a Rainha,
Desde que decidiste pecar, sair da linha
Não resolverei, este probleminha?
Deixa também isto como incumbência minha”.

Dito isto, a Senhora desapareceu de seu lado
E Teófilo, caindo em si, até ficou assustado
De sua confiança: como tinha sido ousado!
E retomou a penitência decidido e esperançado.

Na terceira noite, com seu objetivo cumprido,
Veio Maria à casa em que ele estava recolhido
A Gloriosa, como sempre, discreta e sem ruído,
Trazia a carta com que ele a tinha traído.

Teófilo, ao ver que a carta tinha recuperado
E, da febre sentindo-se totalmente curado,
Prorrompeu em canto de louvor exaltado
Àquela que, maternalmente, o tinha livrado.

Dizendo: “Senhora boa, sempre sejas louvada
Sempre sejas bendita sempre glorificada
Tua misericórdia está mais que comprovada
Não há doçura que possa à tua ser comparada”.

No dia seguinte, festa de solene celebração
Juntou-se na igreja uma enorme multidão
Teófilo subiu ao púlpito com a carta na mão
E diante de todos narrou seu caso e conversão.

Mostrou a todos a carta que em sua mão trazia
Em que toda a força do mau contrato residia
O bispo, muito assustado, o sinal da cruz fazia
Mal acreditando nas coisas que ouvia.

Acabada a missa disse: “Vede este companheiro
Que tomado de loucura buscou mau conselheiro
E foi procurar o diabo, astuto e arteiro,
Para recobrar o ofício que tinha primeiro”.

“Se a Virgem gloriosa não lhe tivesse valido
Que torturas o infeliz não teria sofrido!
Mas, pela sua santa graça, ele foi socorrido
Recobrando a carta senão estaria perdido”.

O “Te Deum laudamus” foi fortemente entoado,
“Tibi laus tibi gloria” também foi rezado,
E “Salve Regina” foi pelo povo todo recitado
E outros doces hinos, canto e reza misturado.

Para a tal da carta, o bispo deu pronta solução,
Pois uma grande fogueira mandou fazer então
Teófilo, confessando, recebeu a absolvição
E, logo em seguida, também a Santa Comunhão.

O rosto de Teófilo estava todo iluminado,
Refletia-se nele a presença do sagrado
E o povo vendo-o, de luz transfigurado,
Mais o nome da Mãe de Deus era exaltado.

Logo a seguir, Teófilo do cargo se demitiu,
Todos os seus bens entre os pobres repartiu,
Aos que o conheciam, perdão ele pediu
E, após três dias, para a outra vida partiu.

Senhores, o grande milagre que acabo de narrar
Traz uma lição que se deve muito bem guardar:
Que para a salvação devemos penitência praticar
E a Gloriosa Mãe de Deus sempre, sempre honrar.

Ó mãe, de teu Gonçalo, não deixes de lembrar;
Ele, que teus milagres, tanto gosta de narrar
Por ele, Senhora, ao Criador podes rezar,
Pois é teu privilégio aos pecadores ajudar

E com a graça de Deus, Nosso Senhor, os salvar. Amém.


(Fonte: “El milagro de Teófilo” de Gonzalo de Berceo - o equilíbrio emocional medieval”, Tradução de Jean Lauand)



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A Quarta-feira de Cinzas, o demônio no Carnaval e a penitência que não é pregada nas igrejas "modernas"

Quarta-feira de Cinzas, o sacerdote reza 'Lembrate que és pó, e pó te hás de tornar'. Na catedral São José em Hyderabad, India.
Quarta-feira de Cinzas, o sacerdote reza 'Lembrate que és pó, e pó te hás de tornar'.
Na catedral São José em Hyderabad, India.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A cerimônia de quarta-feira de Cinzas dá início ao período litúrgico denominado Quaresma.

O nome Quaresma indica os quarenta dias antes da Páscoa de Ressurreição (sem contar os domingos) ou quarenta e seis dias (contando os domingos).

São 40 dias de penitência e de jejum, e de arrependimento para preparar os homens para as cerimônias da morte sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo e sua gloriosa Ressurreição!

Os dias são quarenta imitando o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo que foi ao deserto para jejuar essa quantidade de dias antes de entrar na vida pública.

Tentação na montanha, Duccio di Buoninsegna (1255-1319), Frick Collection, New York.jpg
Tentação na montanha, Duccio di Buoninsegna (1255-1319), Frick Collection, New York
No fim da quarentena, Satanás foi tenta-Lo segundo narra o Evangelho de São Mateus:

“1. Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio.

2. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome.

3. O tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães.

4. Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8,3).

5. O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe:

6. Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s).

7. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16).

8. O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe:

9. Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares.

10. Respondeu-lhe Jesus: Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás (Dt 6,13).

11. Em seguida, o demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo.” (São Mateus, 4, 1-11).

As cinzas que os católicos recebem neste dia simbolizam o dever da conversão, do arrependimento dos pecados, da penitência, lembrando a passageira, transitória, efêmera fragilidade da vida humana, que vai se encerrar com a morte.

As Cinzas provenientes da queima das palmas do Domingo de Ramos anterior.
As cinzas procedem da queima dos ramos do Domingo de Ramos do ano anterior conservadas piedosamente nos lares como um sacramental.

Nesse dia, a Igreja Católica lembra aos homens que são mortais. O sacerdote faz o sinal da Cruz na testa de cada fiel com essas cinzas. Normalmente eles as conservam na testa até o pôr do sol.

Enquanto aplica as cinzas, o padre pronuncia uma fórmula que se encontra no Gênese e contém as palavras de Deus a Adão após esse ter cometido o pecado original e ter ficado submetido à morte: Lembrate que “és pó, e pó te hás de tornar” (Gênesis 3, 19)

O gesto divino inspirou o simbolismo da antiga tradição bíblica de jogar cinzas sobre a cabeça como sinal de arrependimento perante Deus. É um dia de jejum e abstinência e ocorre um dia após o Carnaval.



Podemos entretanto fazer uma reflexão aplicada aos nossos dias



Mais de um pai de santo tem confessado que durante o Carnaval há uma intensificação dos recursos ao demônio e bruxaria.
O demônio é pai da mentira e seus "sacerdotes" são intensamente procurados.

O Pe. exorcista português Duarte Sousa Laara explica do ponto de vista católico como pode acontecer essa infestação ou possessão diabólica:



Mais em EXORCISMO E EXORCISTAS

Nessa quarta-feira sagrada qual será a atmosfera de uma megalópole como São Paulo, após um Carnaval em que o tema mais presente foi o demônio?

Não diferirá sensivelmente da miserável atmosfera dos dias de carnaval. Essa é a realidade.

Alguém ousará perguntar se os pecadores serão menos numerosos do que na Idade Média, ou nas épocas felizes em que essa cerimônia se foi constituindo?

De modo nenhum. O número de pecadores terá crescido imensamente.

Ainda pior, uma maioria da população dominadora, depreciativa, estará olhando com desdém o homem que vive segundo a lei de Deus.

Em tantíssimas igrejas nas quais penetrou a confusão pós-conciliar, o que vai se passar? Qual será a atmosfera?

Como será é tratado o pecado? Será incriminado?

Que ajuda darão essas igrejas ao pecador que cai em si mesmo e se arrepende do mal que fez?

Nada!

Tudo parece intencionado para passar a ideia de que se pode continuar no pecado sugerindo que a ofensa a Deus não tem importância.

Isso já se vê nos domingos quando a igreja está cheia.

As roupas respeitam as leis do pudor, da dignidade?

Na hora da Comunhão em que vai ser distribuído o Pão dos Anjos, toda a Igreja se aproxima para comungar. Serão anjos? É o caso de perguntar: a serem anjos, que anjos?

Todos recebem na mão a Partícula, para depois A por na boca. Comungam e voltam para casa e re-encetar a sua vida de pecado.

As cidades babilônicas estão constituídas sobre a negação da gravidade do pecado.

Se fosse só a negação, ainda seria pouco: é a inversão. A virtude é desprezada, ridicularizada, perseguida; o pecado não é apenas admitido, ele é glorificado. .

Cidades enormes onde as igrejas representam uma unidade física pequena, cidades tristemente orgulhosas e dominadoras por suas riquezas, ou cidades opressas pela miséria de alguns de seus bairros pobres.

Cerimônias penitenciais na Quaresma. Adoração da Santa Cruz na Inglaterra.
Cerimônias penitenciais na Quaresma. Adoração da Santa Cruz na Inglaterra.
Numas e outras se cogita pouco de Deus.

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas se foi constituindo, como grande parte da liturgia, na Idade Média.

Alguma coisa ainda se acrescentou nos primeiros séculos dos tempos modernos.

Pensemos numa cidade medieval como aparecem nas pinturas, nas iluminuras, nos pergaminhos que as representam. Cidades pequeninas, ruas estreitas, dentro de muralhas circunscritas, casas apoiadas umas nas outras...

Essas cidades viviam em torno da Igreja. A gente olha a pintura, e vê uma seta enorme, é uma torre, são duas torres, é o campanário da igreja. Em volta dela está a cidade.

Às vezes vários campanários, de várias igrejas, abadias e conventos. Em torno deles se agrupa a população.

Não são os grandes edifícios de cento e tantos andares feitos em honra de Mamon, o deus-dinheiro, para o homem possa gozar os favores de Bios, o deus da carne.

Não! São os prédios feitos para o culto de Deus.

O que se passa dentro da Igreja é fato central na vida da cidade.

Para ela afluia toda a população, e até os pecadores públicos que sabiam o que é a quarta-feira de Cinzas.

Sabiam que começou a Quaresma, quer dizer os 40 dias de penitência e de jejum, e de arrependimento para preparar os homens para as cerimônias da morte sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo e sua gloriosa Ressurreição!

O pecador público é o homem que comete pecados notórios na cidade.

Procissão penitencial em Sevilha na Semana Santa.
Procissão penitencial em Sevilha na Semana Santa.
Um homem que roubou e foi visto se locupletando com o dinheiro das vítimas. Outro homem que blasfemou em público contra Deus e contra a Igreja, e continuou a blasfemar o ano inteiro.

Ou então, um outro homem ou uma outra família que à vista de todos deixou de comparecer às Missas.

Esses que estão pública e notoriamente em estado de pecado são pecadores públicos.

Na Idade Média, a opinião achava-os altamente censuráveis. O homem reto não convive com o pecador. Mantém um trato distante e frio, porque ele é inimigo de Deus, logo, ele é inimigo de cada homem, enquanto não faça penitência.

Esses pecadores compareciam à cerimônia porque achavam que andavam mal pecando. Pesava-lhes pecar e tinham vergonha do pecado cometido.

Mas não havia só pecadores públicos.

Havia aquele que cometeu pecados durante o ano, que os confessou bem ou mal, ou que não confessou.

Seu pecado ninguém conhece, mas Deus sabe. E ele está ali na hora da penitência pedindo o perdão para todos seus pecados.

Os sinos estão tocando, os pecadores públicos e privados olham para igreja que se ergue imponente mas acolhedora, lhes dizendo: “Vinde filhos. Vós pecastes, mas vinde para onde o perdão vos vem. Começai por confessar-vos, começai por arrepender-vos”.

Deus se toma a Si próprio infinitamente a sério; e Ele acompanha as ações dos homens com essa seriedade.

O pecado é profundamente sério. É execrável, é gravíssimo!

Um ricaço que cometeu um só pecado está numa situação incomparavelmente pior do que Jó no seu monturo.

O pecador pode ser punido por Deus de uma hora para outra, com penas nesta vida, desgraças inopinadas podem desabar sobre ele.

Como tudo isso é trágico!

O inferno ou o purgatório o aguardam. Uma mentira, um pecado leve: ele vai para o purgatório onde poderá ficar anos queimando.


Vídeo: Cântico dos salmos da hora Completas, Ofício Parvo de Nossa Senhora



E o inferno? As trevas eternas onde o fogo queima e não ilumina, onde os piores tormentos atazanam continuamente a criatura, e não tem mais remédio, está tudo perdido!

Então o pecador tem a noção viva do mal que ele fez, e teme. E por causa disso ele vai na igreja, pede perdão e quer fazer penitência.

O que é essa penitência, o que é esse perdão? São coisas distintas.

A Igreja não pratica confissão pública. O fiel não vai dizer diante dos outros o mal que ele fez. Mas Igreja o estimula a que ele tenha a noção da gravidade do seu pecado.

Deus, em lugar de exterminar o pecador, cochicha no ouvido dele o modo para pedir perdão!

É como um juiz que recebe o réu com uma majestade infinita, com aparato de força e de severidade tremendos, mas ao mesmo tempo manda alguém entregar ao réu um bilhete que diz: “Se pedires ao juiz assim na sinceridade de tua alma, o juiz te atenderá!”

E o réu caminha para Deus Juiz com oração ditada pelo mesmo Deus Juiz!

Maior misericórdia não se pode imaginar. Deus fala por meio dos profetas do Antigo Testamento, Ele dá palavras por onde o homem reconhece o seu pecado, e pede perdão.

Então, do fundo da Igreja, se arrastando, vem o mísero cortejo dos pecadores oficiais entoando o Salmo 50:

Frade dominicano rezando
Frade dominicano rezando
“Tende compaixão de mim ó Deus, segundo a Vossa grande misericórdia; e segundo a multitude de Vossas bondades, apagai a minha falta. Porque eu conheço o mal que eu fiz, o meu pecado está de pé continuamente contra mim”...

Eles rezam pedindo perdão alentados pela oração que o Juiz lhe ensinou. “Reze assim! Meu filho, sinta isto, que eu me tornarei teu amigo!”

A penitência é jejuar, passar a pão e água, fazer coisas duras como forma de expiação.

Quando o pecador compreende o mal de seu pecado, e vê quanto Deus odeia o seu pecado, ele percebe a pureza de Deus. E percebendo a pureza infinita de Deus, como pode ele não se entusiasmar?

Na quarta-feira de Cinzas devemos pedir o horror aos nossos pecados e o amor reverente transido pela execração que Deus tem aos nossos pecados.

Devemos pedir a Deus o ódio ao nosso pecado. Devemos pedir a Deus que nos conceda a misericórdia, sem a qual nós na presença dEle não somos capazes de nos manter.

Assim nós nos aproximamos da misericórdia.

O fecho do que eu estou dizendo, tem um nome, e esse nome é Maria!

O homem não obtém nada disso se Maria Santíssima não pedir por ele. Nada.

Por vontade de Deus, Ela é a Medianeira necessária de todas as nossas orações até Ele, e de todas as graças que baixam dEle para nós.

Se nós temos arrependimento de nossos pecados, foi Ela que pediu.

Se nós temos vontade de fazer penitência, foi Ela que pediu.

Se nós tivermos força para executar a penitência que devemos, é Ela que nos pedirá essa força.

No fim, feita a penitência, nós nos sentiremos reconciliados com Deus.

Ela é o sorriso de Deus para nós. Como filhos de Nossa Senhora nós devemos terminar essa reflexão, rezando: “Salve Rainha Mãe de Misericórdia...!

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra de 2.3.1984 sem revisão do autor)


Vídeo: Salmo penitencial 50 Miserere Senhr Deus! Tende piedade de nós



Musicado pelo Pe. Gregorio Allegri (Roma, 1582 — Roma, 1652)



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

domingo, 2 de abril de 2017

Santa Francisca Romana sobre o inferno e como se precaver contra as insídias diabólicas

Santa Francisca Romana (1384-1440) com um anjo protetor.
De nobre e rica estirpe, teve três filhos e fundou as Oblatas de Maria.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Santa Francisca Romana (1384-1440), de nobre e rica família, casou-se muito jovem, teve três filhos, fundou as “Oblatas de Maria” e em março de 1433 também fundou o mosteiro em Tor de' Specchi, perto do Campidoglio (Roma).

Quando seu marido morreu, em 1436, ela se mudou para esse mesmo mosteiro e se tornou a prioresa.

Ernest Hello, em sua obra “Physionomies de saints”, escreve o seguinte sobre a santa:

“A vida de Francisca reside nas visões. Suas visões mais singulares, mais estupendas, mais características, são as visões do inferno. Inúmeros suplícios, variados como os crimes, lhe foram mostrados no conjunto e nas minúcias”.

“Santa Francisca Romana viu o ouro e a prata derretidos, acumulados pelos demônios nas gargantas dos avarentos”.

Ela descreveu o inferno, onde reina uma ordem às avessas, quer dizer a desordem como o princípio constitutivo da anti-ordem de satanás:

O que é uma pessoa passar uma hora com ouro ou prata derretidos e quentes dentro da garganta, sem anestésicos, sem os mil cuidados dos nossos hospitais?

Então, imaginem o que é passar a eternidade com ouro e prata derretidos na garganta. Querer engolir e não poder, queimaduras horrorosas, sensações atrozes.

Tudo isto Santa Francisca Romana viu como martírio dos avarentos.

“Viu as hierarquias de demônios, suas funções, seus suplícios e os crimes a que eles presidem”.

“Viu Lúcifer, consagrado ao orgulho, chefe geral dos orgulhosos, rei de todos os demônios e de todos os condenados. Esse rei é muito mais desgraçado do que todos os seus súditos”.