domingo, 14 de outubro de 2012

As duas trombetas de Deus: São Francisco e São Domingos – 1

Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli
Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




À vista de São Francisco de Assis e de São Domingos de Gusmão, o século compreendeu que estava salvo, que um sangue novo seria instilado em suas veias; inúmeros discípulos alistam-se sob esses estandartes arrebatadores; eleva-se um longo brado de entusiasmo e de simpatia que se estende através dos séculos, que ressoa por toda parte, nas constituições dos Soberanos Pontífices como nos cantos dos poetas.

“Quando o Imperador, que reina sempre - diz Dante -, quis salvar seu exército comprometido, enviou em socorro de Sua Esposa estes dois campeões; seus atos, suas palavras, restabeleceram o povo desgarrado”.

“Estas duas Ordens – diz o Papa Sisto IV em 1479, depois de dois séculos e meio de experiência – como os dois primeiros rios do Paraíso de Delícia, irrigaram a terra da Igreja universal por sua doutrina, suas virtudes e seus méritos, e a tornam cada dia mais fértil; são os dois serafins que, elevados pelas asas de uma contemplação sublime e de um angélico amor, acima de todas as coisas da terra, pelo canto assíduo dos louvores divinos, pela manifestação dos benefícios imensos que o supremo artífice, que é Deus, conferiu ao gênero humano, trazem sem cessar aos celeiros da Santa Igreja os feixes abundantes da pura colheita das almas resgatadas pelo Precioso Sangue de Jesus Cristo.

“São as duas trombetas das quais se serve o Senhor Deus para chamar os povos ao banquete de Seu Santo Evangelho!”.



Ss Domingos e Francisco em primeiro plano.
Coroação de Nossa Senhora, Beato Angélico
Tão logo nasceram as Ordens, que deviam merecer tão magníficos elogios, já sua propagação e seu poder tornam-se um dos fatos históricos mais importantes da época.

A Igreja vê-se de repente senhora de dois exércitos numerosos, ágeis e sempre disponíveis, que começam incontinenti a invadir o mundo.

Em 1277, meio século após a morte de São Domingos, sua Ordem tinha já quatrocentos e dezessete conventos em toda a Europa.

São Francisco, em vida, reúne um dia cinco mil de seus monges em Assis; e trinta e cinco anos mais tarde, em Narbonne, constata-se ao enumerar as forças da Ordem seráfica, que existiam já, em trinta e três províncias, oitocentos mosteiros e pelos menos vinte mil religiosos.

Um século mais tarde, existiam cento e cinqüenta mil. A evangelização das nações pagãs recomeça: franciscanos, enviados por Inocêncio IV e São Luis, penetram no Marrocos, em Damasco, até entre os mongóis.

Mas eles ocupam-se sobretudo em vencer as paixões do paganismo no coração das nações cristãs, espalham-se pela Itália dilacerada por tantas discórdias, tentando por toda parte reconciliar os partidos, desarraigar os erros, colocando-se como os árbitros supremos, julgando unicamente segundo a lei do amor.

Vê-se, em 1235, percorrer toda a Península com cruzes, incenso, ramos de oliveira, cantando e pregando a paz, censurando às cidades, aos príncipes, aos próprios chefes da igreja, suas faltas e ressentimentos.

Os povos, pelo menos por um tempo, inclinam-se ante essa mediação sublime; a nobreza e o povo de Piacenza reconciliam-se à voz de um franciscano; Pisa e os Visconti, de um dominicano; e na planície de Verona vê-se duzentas mil almas apinharem-se junto ao Bem-Aventurado João de Vicenza, frade pregador, encarregado pelo Papa de apaziguar todas as discórdias da Toscana, da Romagna, da Marca Trevisana. Naquela ocasião solene, toma por texto essas palavras:

Encontro de São Domingos com São Francisco, Fra Angelico
“Eu vos dou a paz, Eu vos deixo a Minha paz”; e, antes de terminar, uma explosão de soluços e de lágrimas mostra-lhe que todos aqueles corações estavam tocados, e os chefes das casas rivais de Este e Romano dão, abraçando-se, o sinal da reconciliação universal.

Tão felizes resultados não duravam muito tempo, é verdade; mas o mal estava ao menos vigorosamente combatido, e a seiva de cristianismo estava reavivada nas almas, uma imensa luta dava-se a cada dia e por toda parte em nome da equidade contra a letra morta da lei, em nome da caridade contra os maus pendores do homem, em nome da graça e da fé contra a secura e a pobreza dos arrazoados científicos.

Nada se subtraia a essa influência nova que movia os camponeses dispersos pela campanha, que partilhava o império das universidades, que atingia até os reis em seus tronos.

Joinville nos ensina como, no primeiro lugar onde São Luís desembarcou, voltando da Cruzada, foi acolhido por um franciscano, que lhe disse que “nenhum reino se perde, a não ser por falta de justiça, e que cuidasse de fazer bem direito e diligente a seu povo, o que o rei jamais esqueceu”.

Sabe-se como ele tentou esquivar-se de sua esposa tão ternamente amada, de seus mais próximos, de seus conselheiros, para renunciar à coroa que portava tão gloriosamente, e ir mendigar, como São Francisco.

Mas teve que se limitar a tornar-se penitente da Ordem Terceira; porque em seu exército conquistador os franciscanos tinham lugar para todos.

Ao lado desses batalhões de monges, numerosos mosteiros abriam-se para as virgens que aspiravam à honra de se imolarem a Cristo, e as vastas associações conhecidas pelo nome de Ordens Terceiras ofereciam um lugar aos príncipes, guerreiros, esposos, pais de família, numa palavra a todos os fiéis de ambos sexos que quisessem associar-se, ao menos indiretamente, à grande obra da regeneração da Cristandade.

Nossa Senhora dá o Rosario a São Domingos que tem junto S. Francisco.
Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Tiradentes
A tradição conta que os dois gloriosos patriarcas dessa regeneração tiveram, em certo momento, o projeto de unir seus esforços e suas Ordens, em aparência tão semelhantes.

Mas a inspiração celeste que os guiava revelou-lhes que nelas havia lugar para duas forças diferentes, para dois gêneros de guerra contra as invasões do mal.

Eles parecem ter dividido sua sublime missão, ao mesmo tempo que o mundo moral, de modo a reconduzir ao seio da Igreja e a nele conciliar o amor e a ciência, esses dois grandes rivais que não poderiam entretanto existir um sem o outro; e essa conciliação foi operada por eles como não o havia sido jamais até então.

Enquanto o amor que devorava e absorvia a alma de São Francisco valeu-lhe em todo tempo na Igreja o nome de Serafim de Assis, não seria quiçá temerário atribuir, com Dante, a São Domingos, a força e a luz dos Querubins .

Seus filhos mostraram-se fiéis a essa tendência diversa, que terminava na mesma unidade eterna; e, tendo em conta algumas brilhantes exceções, pode-se dizer que a partir dessa época, na História da Igreja, o papel mais especialmente atribuído à Ordem seráfica foi o de espalhar em grandes ondas os tesouros do amor, as misteriosas alegrias do sacrifício; enquanto que o dos Pregadores foi, como seu próprio nome indica, o de propagar a ciência da verdade, defendê-la e arraigá-la.

Nem um nem outro falhou à sua missão; e ambos, desde a adolescência, e no decurso desse meio século do qual falamos (o primeiro do século XIII), geraram para a Igreja, talvez, mais santos e doutores do que em tão curto intervalo, Ela não tinha tido desde os primeiros séculos de sua existência.





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