domingo, 26 de dezembro de 2010

Santuário de São Nicolau em Bari atrai multidões pedindo o milagre

São Nicolau, catedral de Burgos (Espanha)
continuação do post anterior

UM HOMEM, por amor de um filho que andava a aprender a ler, celebrava a festa de São Nicolau solenemente todos os anos, Uma vez, o pai preparou um festim para o rapaz e convidou muitos clérigos. O diabo chegou à porta vestido de peregrino, pedindo esmola; imediatamente, o pai disse ao filho que desse uma esmola ao peregrino.

O rapaz apressou-se; mas, como não o encontrou, foi atrás dele. Quando chegou a uma encruzilhada, o diabo apanhou o rapaz e estrangulou-o. Quando o pai soube, chorou copiosamente, tomou o corpo, colocou-o na cama e, no auge da sua dor, começou a clamar dizendo:

‒ Filho muito querido, que te aconteceu? São Nicolau é esta a paga da veneração que durante tanto tempo vos dediquei?

Dizendo estas e outras palavras, logo o rapaz, como se acordasse de um sono, abriu os olhos e ressuscitou.

UM HOMEM nobre pediu a São Nicolau que rogasse ao Senhor para lhe dar um filho, prometendo-lhe que o levaria à sua igreja e ofereceria uma taça de ouro, O filho nasceu, chegou à idade de ir à igreja e o pai mandou fazer uma taça, mas, como ela lhe agradou muito, destinou-a ao seu uso pessoal e mandou fazer outra igual.

Depois, indo a navegar para a igreja de São Nicolau, o pai mandou ao filho que lhe levasse água na taça que mandara fazer primeiro; mas, quando o rapaz queria tomar água na taça, caiu ao mar e logo desapareceu. Apesar disso, o pai foi cumprir o seu voto, mesmo chorando amargamente.

São Nicolau, alegria das crianças.
Depois, chegou junto do altar de São Nicolau e quando estava a oferecer a segunda taça, ela caiu do altar como que projetada.

Ergueu-a e pô-la de novo sobre o altar; mas foi de novo projetada para longe do altar; ergueu-a novamente sobre o altar e, pela terceira vez, a pousou, mas também, pela terceira vez, foi projetada ainda para mais longe.

Estando todos admirados com tão grande acontecimento, eis que chegou o rapaz, são e salvo, levando a primeira taça nas mãos e contou diante de todos que, quando caiu ao mar, logo São Nicolau chegou e o conservara ileso. E, assim, o pai cheio de contentamento ofereceu ambas as taças a São Nicolau.

UM HOMEM RICO teve um filho por intercessão de São Nicolau e deu-lhe o nome de Adeodato. Depois, construiu em sua casa uma capela dedicada ao Santo de Deus e todos os anos celebrava solenemente a sua festa. Aquele lugar estava situado junto da terra dos agarenos.

Uma vez, Adeodato foi capturado por agarenos e levado como escravo do seu rei.

No ano seguinte, quando o pai celebrava devotamente a festa de São Nicolau e o rapaz servia o rei segurando uma taça, lembrou-se da sua captura, das dores dos pais e da alegria que naquele dia havia na sua casa, e começou a soluçar mais alto.

Quando o rei, com ameaças, lhe arrancou a causa dos soluços, disse-lhe:

‒ Faça o que fizer o teu Nicolau, aqui ficarás conosco para sempre.

Túmulo de São Nicolau em Bari, Itália.
De repente, um fortíssimo vento abanou a casa e o rapaz foi arrebatado com a taça e colocado à porta da igreja onde seus pais celebravam a solenidade, tendo-se gerado em todos uma grande alegria.

Com todo, lê-se noutro lugar que o referido jovem saiu a pé da Normandia, e foi até ao outro lado do mar, sendo capturado por um sultão perante o qual era muitas vezes espancado.

No dia de São Nicolau, tendo sido espancado e atirado para um calabouço, chorava; mas, entretanto adormecera, cansado das pancadas, sonhando com a alegria que naquele dia costumava sentir. Quando acordou, estava na capela do pai.

(Fonte: Bem-aventurado Jacques de Voragine, “Légende Dorée”)

FIM

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domingo, 19 de dezembro de 2010

São Nicolau: bispo inflexível que obteve o impossível com seus milagres

São Nicolau ressuscita um jovem, Ambrogio Lorenzetti.
continuação do post anterior

COMO O SENHOR queria chamá-lo a Si, ele pediu-Lhe que lhe mandasse os seus anjos. Então, inclinou a cabeça, viu os anjos que se dirigiram a ele, e logo se deitou no chão, munindo-se com o crucifixo e, dizendo o Salmo “Em Ti, Senhor, esperei ...” até “nas tuas mãos”, e entregou o espírito, no ano do Senhor de 343, enquanto se ouvia a melodia dos coros celestes.

Foi sepultado num sepulcro de mármore; da cabeceira brotava uma fonte de azeite e dos pés uma fonte de água; e, até hoje, tem emanado dos seus membros um óleo sagrado que restituiu a saúde a muitos.

Sucedeu-lhe um homem bom que, por invejas, foi deposto da sua cátedra; desde que foi deposto, o azeite deixou de correr, voltando a fluir logo que para ela voltou a ser chamado.

Passado muito tempo, os turcos destruíram Mira, mas quarenta e dois soldados de Bari foram lá com quatro monges que lhes mostraram o túmulo de São Nicolau; abriram-no e levaram com toda a reverência os seus ossos, que nadavam em azeite, para a cidade de Bari, no ano do Senhor de 1087.

Um homem pediu emprestado a um judeu certa soma de dinheiro, Jurando sobre o altar de São Nicolau, por não poder ter fiador, que lha devolveria tão depressa pudesse. Como já tinha o dinheiro havia muito tempo, o judeu pediu-lho; mas apenas prometia que lhe havia de devolver. Citou-o por isso perante o juiz que obrigou o devedor a jurar.

Levara ele um bastão oco que enchera com o ouro miúdo, pois precisava dele para se apoiar. Querendo prestar o juramento entregou o bastão ao judeu para que o segurasse; e jurou que já lhe tinha dado mais do que lhe devia.

São Nicolau o bispo inflexível, modelo de Justiça e Caridade.
Feito o juramento, pediu o bastão e o judeu deu-lho, porque não sabia da astúcia, Mas, quando o que fizera a fraude regressava, ao passar numa encruzilhada adormeceu, perturbado; um carro que passava velozmente matou-o e partiu o bastão cheio de ouro e o ouro espalhou-se.

Quando o judeu ouviu isto, foi ao local para verificar o dolo e muitos lhe sugeriram que recolhesse o dinheiro; porém, ele recusou em absoluto, a não ser que o defunto voltasse à vida, por intercessão de São Nicolau, afirmando que receberia o batismo e se faria cristão, Como, de imediato, o defunto ressuscitou, o judeu foi batizado em nome de Cristo,

UM JUDEU que via o poder virtuoso de São Nicolau nos milagres que fazia, mandou esculpir uma imagem dele, colocou-a na sua casa, e quando saía para mais longe, confiava-lhe os seus haveres, dizendo-lhe, com ameaças, estas e outras palavras:

‒ Olha, Nicolau! Entrego-te todos os meus bens para que mos guardes; e, se o não fizeres castigar-te-ei com pancadas e chicotadas.

Ora, uma vez, enquanto estava ausente, os ladrões chegaram, roubaram tudo deixando apenas a imagem. Quando o judeu regressou, vendo-se espoliado, falou à imagem com estas ou semelhantes palavras:

‒ Senhor Nicolau, não te pus na minha casa para que guardasses os meus bens dos ladrões? Porque o não quiseste fazer e não os defendeste dos ladrões? Por isso, receberás tormentos horríveis e pagarás pelos ladrões; assim, compensar-te-ei com os teus tormentos e arrefecerei o meu furor com pancadas e chicotadas.

Agarrou na imagem, bateu-lhe e chicoteou-a terrivelmente. Foi uma coisa espantosa.

Entretanto, o Santo de Deus, como se estivesse realmente a apanhar as chicotadas, apareceu aos ladrões que estavam a dividir o roubo e disse-lhes estas ou semelhantes palavras:

São Nicolau amou os inocentes porque foi modelo de inocência
‒ Porque sou tão terrivelmente chicoteado em vez de vós? E por que razão, tão cruelmente espancado? Eis como o meu corpo está lívido e como fica vermelho do sangue derramado! Ponde-vos já a caminho e devolvei tudo o que tirastes, senão a ira de Deus onipotente enfurecer-se-á tanto contra vós que o vosso crime será conhecido por todos e cada um de vós será enforcado.

‒ Quem és tu que dizes tais coisas? ‒ perguntaram eles?

‒ Sou Nicolau, servo de Jesus Cristo, que aquele judeu, a quem roubastes esses bens, flagelou tão cruelmente.

Aterrados, os ladrões foram ter com o judeu, contaram-lhe o milagre e ouviram dele o que tinha feito à imagem, devolveram tudo quanto haviam roubado e voltaram ao caminho da retidão enquanto o judeu abraçava a fé do Salvador.

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domingo, 12 de dezembro de 2010

São Nicolau terror dos governantes injustos

São Nicolau, campeão da Justiça
continuação do post anterior

NESSE MESMO TEMPO, houve um povo que se rebelou contra o Império Romano; o Imperador enviou contra ele três generais ‒ Nepociano, Urso e Apoio ‒ que entraram num porto do Adriático por causa do vento contrário; São Nicolau convidou-os a comer consigo, querendo que poupassem a sua gente às rapinas que faziam.

Entretanto, o Santo ausentou-se e o cônsul, corrompido por dinheiro, mandou decapitar três militares inocentes. Quando o santo homem tal ouviu, pediu àqueles generais que se dirigissem até lá em passo rápido.

Chegando ao lugar onde iriam degolá-los, encontrou-os de joelhos e de rosto coberto no momento em que o carrasco já vibrava a espada sobre as suas cabeças.

Nicolau, inflamado pelo zelo, arremessou-se audaciosamente contra o comandante, afastou o gládio para longe da sua mão, desamarrou os inocentes e levou-os incólumes consigo; dirigiu-se sem demora ao pretório do cônsul e abriu, à força, as portas fechadas.

O cônsul acorreu imediatamente e saudou-o; mas o Santo, recusando o cumprimento, disse-lhe:

‒ Inimigo de Deus, prevaricador da lei, culpado de tamanho crime, como te atreves a olhar-me no rosto?

Depois censurou-o com muita dureza, mas a pedido dos três chefes, aceitou-o benignamente como penitente. Uma vez recebida a benção, os enviados imperiais puseram-se a caminho, submeteram os amotinados ao Império sem derramamento de sangue e, quando chegaram, foram magnificamente recebidos pelo Imperador.

Alguns, porém, invejosos da sua boa sorte, com pedidos e presentes sugeriram ao prefeito do Imperador que, perante ele, os acusasse do crime de lesa-majestade. Tendo sugerido isso ao Imperador, ele, cheio de um grande furor, ordenou que os encarcerassem e, sem qualquer interrogatório, naquela mesma noite os mandou matar.

Quando souberam isso por um guarda, rasgaram as suas vestes e começaram a gemer amargamente. Então, um deles, Nepociano, lembrando-se do modo como São Nicolau tinha livrado os três inocentes, exortou os outros a que suplicassem a sua ajuda. Tendo eles orado, naquela noite, São Nicolau apareceu ao Imperador Constantino e disse-lhe:

‒ Porque prendeste tão injustamente aqueles generais e os entregaste à morte, sem terem cometido crime algum? Levanta-te e ordena que os soltem o mais depressa possível. De contrário, pedirei a Deus que suscite uma guerra em que morras e sejas convertido em alimento das feras.

São Nicolau: terrível com os maus,
dadivoso com os bons. A seu lado, Santa Catarina
‒ Quem és tu ‒ disse-lhe o Imperador ‒, para entrares de noite no meu palácio e ousares dizer-me essas coisas?

‒ Sou Nicolau, bispo da cidade de Mira.

Mas também aterrorizou o prefeito da mesma maneira em sonhos, dizendo-lhe:

‒ O louco insensível! Porque consentiste na matança dos inocentes? Levanta-te depressa e esforça-te por libertá-los, se não o teu corpo ficará cheio de vermes e a tua casa em breve será destruída.

Ele replicou-lhe:

‒ Quem és tu para nos fazeres tais ameaças?

‒ Fica a saber ‒ respondeu ‒ que sou Nicolau, o bispo da cidade de Mira.

Por isso, ambos acordaram e imediatamente revelaram um ao outro os seus sonhos e, de contínuo, mandaram buscar aqueles encarcerados. Disse-lhes o Imperador:

‒ Que artes mágicas conheceis para nos enganardes com tais sonhos?

Responderam-lhe que não eram magos nem mereciam a sentença de morte. Volveu-lhes o Imperador:

‒ Conheceis um homem chamado Nicolau?

Quando eles ouviram este nome, estenderam as mãos para o céu pedindo a Deus que, pelos méritos de São Nicolau, os livrasse daquele perigo. Depois de saber por eles toda a sua vida e milagres, disse-lhes o Imperador:

‒ Ide, dai graças a Deus que vos libertou pelas suas orações e levai-lhe as nossas saudações, pedindo-lhe que nunca mais me ameace e que reze ao Senhor por mim e pelo meu Reino.

Poucos dias depois, aqueles homens foram ter com o servo de Deus e, prostrados a seus pés, logo humildemente lhe disseram:

‒ És verdadeiramente um servo de Deus e um fiel seguidor de Cristo.

Depois de lhe terem contado tudo em pormenor, ergueu as mãos ao céu e fez grandes ações de graças a Deus, mandando os prudentes generais regressar a suas casas.

continua no próximo post

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domingo, 5 de dezembro de 2010

São Nicolau padroeiro dos navegantes, inimigo do diabo e da idolatria

São Nicolau salva os marinheiros, Museu de San Marco, Florenca
continuação do post anterior

CERTO DIA, alguns marinheiros que estavam em perigo, dirigiram-lhe por entre lágrimas esta oração:

‒ Nicolau, servo de Deus, se é verdade o que ouvimos a teu respeito, faz que agora o experimentemos.

Imediatamente lhes apareceu alguém parecido com ele, que lhes disse:

‒ Eis-me aqui, pois me chamastes!

E começou a ajudá-los nos mastros, nos cabos e nos outros aparelhos da nau, e logo a tempestade cessou. Depois, quando foram à sua igreja, reconheceram-no, embora nunca o tivessem visto nem alguém lho indicasse. Então deram graças a Deus e a ele pela sua salvação; o Santo, porém, ensinou-os a atribuir o milagre à misericórdia divina e à fé que haviam demonstrado, mas não aos seus méritos.

HOUVE TEMPO em que toda a região de São Nicolau foi assolada por uma fome tão grande que todos ficaram sem alimentos. Quando o homem de Deus ouviu que estavam no porto uns barcos carregados de trigo, foi logo lá e pediu aos marinheiros que lhe dessem, ao menos, cem moios [antiga unidade de medida] por cada nave, para matar a fome aos que estavam em perigo. Eles responderam-lhe:

‒ Pai, a isso não nos atrevemos, porque temos de entregar nos armazéns do Imperador o que foi medido em Alexandria.

‒ Agora, fareis o que vos digo ‒ disse-lhes o Santo ‒, pois, em nome de Deus, vos prometo que não tereis nenhuma diminuição quando chegardes junto do recebedor.

São Nicolau, inimigo das falsas religiões, Lübeck, Annenmuseum.
Tendo feito como ele dizia e entregado aos servos do Imperador a mesma medida que tinham recebido em Alexandria, contaram o milagre e, com grande louvor, atribuíram-no a Deus por intermédio do seu servo.

O homem de Deus distribuiu o trigo segundo a indigência de cada um, de modo que miraculosamente, durante dois anos, não só bastou para viverem, mas foi suficiente para as sementeiras.

NAQUELA REGIÃO prestava-se culto aos ídolos e o povo honrava sobretudo a nefanda Diana, a ponto de, até ao tempo do homem de Deus, terem sido muitos os camponeses que serviram essa execrável religião, fazendo determinados ritos dos gentios debaixo de certa árvore consagrada à deusa.

O homem de Deus baniu esse rito para fora das suas fronteiras e mandou cortar a árvore. Irado com isto, o antigo adversário fabricou um óleo mágico ‒ que, contra a natureza, arde na água e nas pedras ‒ e, transformando-se numa mulher religiosa, foi ao encontro de uns navegantes que a ele se dirigiam; então lhes falou assim:

‒ Gostaria de ir convosco ao Santo de Deus, mas não posso. Por isso, peço-vos que leveis este óleo para a sua igreja e que, em minha memória, unjais com ele as suas paredes.

E logo desapareceu. Mas avistaram um barquinho com pessoas honestas, entre as quais havia um muitíssimo parecido com São Nicolau que lhes perguntou:

‒ Olhai! Que vos terá dito ou vos deu aquela mulher?

Então eles contaram-lhe tudo do princípio ao fim. Disse-lhes ele:

‒ Esta é a impudica Diana; e para que vejais que falei verdade, atirai esse óleo ao mar.

Mal eles o atiraram, acendeu-se um grande fogo e, contra a natureza, viu-se arder no mar durante muito tempo. Quando chegaram junto do servo de Deus, disseram:

‒ Na verdade, tu és aquele que nos apareceu no mar e nos livraste das insídias do diabo.

continua no próximo post

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